10 meses…

Desligo o telefone perplexo. Encontrar-me depois de 10 meses? O que ainda temos para dizer um para o outro? De qualquer maneira, fiquei curioso e resolvi pagar para ver.

Ela estava mudada, diferente. Continuava bonita. O rosto tenso com um certo ar de desespero, entretanto, era algo novo. Quase não a reconheci.

– Sei que você não deve querer me ver nem pintada de ouro, mas preciso te contar o que está acontecendo comigo.

Como assim? Virei psiquiatra, psicólogo? Na dúvida, me recostei na cadeira e comecei a comer o couvert.

– Bem… Sei que nosso final foi meio estranho…

Eufemismo puro! Terminou comigo me entregando pessoalmente uma carta, mudou de casa, de telefone, em uma época em que não existia nem celular para todos e a Internet estava começando. Não foi meio estranho. Foi totalmente estranho. Eu diria até cruel.

– Depois de você, tive 2 namorados…

Para quem escreveu na tal carta que precisava ficar sozinha, no mínimo algo curioso.

– O primeiro fazia faculdade comigo. Você sabe… Eu fiquei sem Internet um tempão, e em um dia em que nós transamos, aproveitei o banho dele para ir no seu site. Vi uma poesia que escreveu que era obviamente para mim. Caí no choro. Ele me flagrou chorando em frente ao computador. Sabia que você era meu ex. Terminou comigo.

Ela realmente estava perturbada. Ainda não estava claro o porque dela estar me contando tudo aquilo, mas a pastinha com as torradas estava uma delícia!

– Depois, comecei a namorar outro cara. E aí, em um dia que ele estava me deixando em casa, você passou do outro lado da rua dividindo o guarda-chuva com aquela piranha da sua amiga! Sempre soube que vocês tinha um caso. Aquilo foi só a confirmação. Sem perceber, para ver exatamente se era você com aquela sua “amiga” (faz o sinal de aspas com as mãos), empurrei o meu namorado para trás. Ele quis entender o que estava acontecendo. Falei a verdade. Ele ficou com raiva e se afastou de mim.

Não… A minha amiga não era uma piranha. Era minha amiga mesmo. Estávamos apenas dividindo o mesmo guarda-chuva. Estávamos voltando da faculdade e estava chovendo. Qual a importância disso? Que diferença isso fazia? Eu estava perdido, mas optei por uma pizza. Ela disse que não queria comer.

– A verdade é que desde que me separei de você, minha vida parou. Eu me afastei de você porque não queria me prender a ninguém. Deu tudo errado! Está dando tudo errado! Eu não sei mais o que fazer!

A pizza estava uma delícia. Não nego que vê-la sofrer daquele jeito, se desfazendo em lágrimas, despertou um lado sádico meu que prefiro deixar adormecido.

– Entenda, Nina. Eu gostava de você. O que está me dizendo agora era tudo que eu queria ouvir há 10 meses. Agora, isso não faz o menor sentido. E não é porque estou namorando… Estou solteiro. Só que nossa história ficou no passado…

– Tem certeza? O que eu faço, então?

Pedi ao garçom para fechar a conta e fui leva-la em casa. Estava me sentindo poderoso!

– Não quer subir?

Aceitei o convite. Como era de se imaginar, transamos. Vimos um pouco de TV, e logo em seguida me preparei para ir embora.

– Seu telefone continua o mesmo? Posso te ligar amanhã?

– Me ligar? Eu fiz isso com você para que sinta o que eu senti. Não quero mais falar com você. Não quero mais te ver. Nossa história acabou há 10 meses!

E no meio de um choro compulsivo e de pedidos para reconsiderar minha decisão, fui embora quase que sorrindo.

Eu odeio esse meu lado sádico.

contos-de-fadas-tricae

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