Rebeliões nos presídos

Tenho essa mania de pensar, e pensei muito sobre o que aconteceu no presídio em Manaus.

Eu cresci durante o Regime Militar. Sempre me senti no dever de respeitar as instituições brasileiras, que para mim são (ou deveriam ser) os alicerces de uma sociedade democrática e de um estado de direito.

Entretanto, os últimos anos foram extremamente cruéis para pessoas que pensam como eu. De um lado, uma necessidade quase fisiológica de acreditar nas instituições e no conceito de pátria e nação. E de outro, todo um movimento organizado e muito bem pensando para enfraquecer justamente todos estes meus conceitos.

A realidade é que as instituições brasileiras, de forma ampla e irrestrita, estão passando por um processo autofágico. Estão se destruindo por dentro, para que pessoas como eu deixem de existir ou simplesmente sejam ignoradas, taxadas de loucas.

Eu demorei para entender, e confesso que ainda brigo comigo mesmo diante dessa nova realidade. Eu lamentei, sim, o que houve no presídio em Manaus, assim como lamento (e todos sabem disso) o que é feito com nossos policiais e cidadãos de bem em geral. E na minha “inocência” (ou talvez ignorância ou burrice), deixei o meu lado e toda a minha criação falarem mais alto: como assim um massacre sob a tutela do estado? Como isso é possível?

E tive o privilégio de ver argumentos que diferiam dos meus. Alguns mais brutos e sem sentido (“Você gosta de bandidos? Leve-os para sua casa!), mas alguns irrefutáveis. Eu, ou melhor, nós, enquanto cidadãos, também estamos sob a tutela do estado em se tratando da segurança pública. O estado detém o monopólio sobre a segurança pública. Então, ficou evidente que a falência do estado e suas instituições, alardeada pela mídia e pelos Direitos Humanos no caso do massacre de Manaus, é de fato algo muito menor diante do que acontece com todos nós diariamente.

Não é fácil reconhecer isso. As instituições que eu tanto prezava não existem mais. A mídia nos bombardeia com um vitimismo que nos faz esquecer que somos as maiores vítimas de todo esse processo de desconstrução institucional. Nunca defendi bandidos, nunca os achei vítimas de nada, mas sempre achei que não poderia perder o que eu chamava de humanidade.

Dei-me conta, entretanto, que a minha humanidade não é adequada aos dias de hoje. Estamos em guerra. É matar ou morrer. Que se matem em Manaus, que se matem em São Luís, que se matem no Rio de Janeiro. A tutela do estado não pode, da maneira alguma, ser apenas invocada em favor dos nossos algozes. Se as instituições em que tanto acreditei estão entrando em colapso e conspirando contra mim, não as reconheço mais enquanto brasileiro.

Talvez eu tenha perdido a minha humanidade, mas estou recuperando a minha sanidade.

4 pensamentos sobre “Rebeliões nos presídos

  1. Maravilhosa reflexão sobre o tema. Penso da mesma forma e talvez eu seja até um pouco mais radical que você. O estado paternal nao existe, e o estado que era para ser gerencial nao consegue gerir por N razões. Eles mesmos estão dando um jeito de esvaziar e aliviar a super lotação. É cruel pensar assim? Talvez, mas é uma análise bem pertinente em relação aos fatos. Parabéns pelo texto. Tô seguindo seu blog. Boa semana.

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