Anteparo

Parece que cresce
Que remexe, que tece
Que cria raízes
Mas é fotografia
De álbum antigo
De melancolia

Só que é tão presente
Que quando ausente
Não deixa nem respirar
E quando presente
Faz o não coerente
Para a razão se ausentar

Talvez seja eterno
O jeito mais que doce
De não falar de amor
De um amor tão calado,
Que berra pecados,
Que urra e canta…

A beleza de amar
O que o torpe destino
Não quis coroar
Pois nem coroa apresenta
E seu cetro só ostenta
Lágrimas de um trovador

E nesse império
De luxúria e mistério
Rego com lágrimas o que plantei
Um sopro de vida
Uma divina rotina
De carinhos não meus

Quem sabe outra chance
Outro dia, outro lance,
Com a sorte desnuda
Feito meu peito rasgado
Pelos lábios molhados
Que eu afirmo: são meus.

Que sirva de aviso –
Não há prejuízo
Em amar até morrer
Pois até no desamparo
O amor é o anteparo
Dos males do eu.

coracaopaixao

Rebeliões nos presídos

Tenho essa mania de pensar, e pensei muito sobre o que aconteceu no presídio em Manaus.

Eu cresci durante o Regime Militar. Sempre me senti no dever de respeitar as instituições brasileiras, que para mim são (ou deveriam ser) os alicerces de uma sociedade democrática e de um estado de direito.

Entretanto, os últimos anos foram extremamente cruéis para pessoas que pensam como eu. De um lado, uma necessidade quase fisiológica de acreditar nas instituições e no conceito de pátria e nação. E de outro, todo um movimento organizado e muito bem pensando para enfraquecer justamente todos estes meus conceitos.

A realidade é que as instituições brasileiras, de forma ampla e irrestrita, estão passando por um processo autofágico. Estão se destruindo por dentro, para que pessoas como eu deixem de existir ou simplesmente sejam ignoradas, taxadas de loucas.

Eu demorei para entender, e confesso que ainda brigo comigo mesmo diante dessa nova realidade. Eu lamentei, sim, o que houve no presídio em Manaus, assim como lamento (e todos sabem disso) o que é feito com nossos policiais e cidadãos de bem em geral. E na minha “inocência” (ou talvez ignorância ou burrice), deixei o meu lado e toda a minha criação falarem mais alto: como assim um massacre sob a tutela do estado? Como isso é possível?

E tive o privilégio de ver argumentos que diferiam dos meus. Alguns mais brutos e sem sentido (“Você gosta de bandidos? Leve-os para sua casa!), mas alguns irrefutáveis. Eu, ou melhor, nós, enquanto cidadãos, também estamos sob a tutela do estado em se tratando da segurança pública. O estado detém o monopólio sobre a segurança pública. Então, ficou evidente que a falência do estado e suas instituições, alardeada pela mídia e pelos Direitos Humanos no caso do massacre de Manaus, é de fato algo muito menor diante do que acontece com todos nós diariamente.

Não é fácil reconhecer isso. As instituições que eu tanto prezava não existem mais. A mídia nos bombardeia com um vitimismo que nos faz esquecer que somos as maiores vítimas de todo esse processo de desconstrução institucional. Nunca defendi bandidos, nunca os achei vítimas de nada, mas sempre achei que não poderia perder o que eu chamava de humanidade.

Dei-me conta, entretanto, que a minha humanidade não é adequada aos dias de hoje. Estamos em guerra. É matar ou morrer. Que se matem em Manaus, que se matem em São Luís, que se matem no Rio de Janeiro. A tutela do estado não pode, da maneira alguma, ser apenas invocada em favor dos nossos algozes. Se as instituições em que tanto acreditei estão entrando em colapso e conspirando contra mim, não as reconheço mais enquanto brasileiro.

Talvez eu tenha perdido a minha humanidade, mas estou recuperando a minha sanidade.

Contramão

Abra seus braços

Estenda sua mãos

E nos nevoeiros da vida

E nas estradas traiçoeiras

Vamos juntos, então

 

Mas se a sua opção

For esquecer o inesquecível

Dividir o indivisível

Achando ser possível

Fugir na contramão…

 

Para essa porra de carro, então!

r-contra-mao-errada7

Arco Reflexo

E chega a sexta-feira

As taças de vinho

A garrafa na mão

Sento-me

Bebo sozinho

Bebo-te até não sobrar

Uma gota que seja de ti

 

As unhas vermelhas

O elixir tinto

As lembranças que sinto

Os sonhos vivos

Faíscas e centelhas

 

É involuntário

Fisiologicamente necessário

 

A gota de vinho

Que escorre pelo meu peito

Tem teu gosto e cheiro…

 

Não, não há solidão!

Estou contigo

E não, não há perigo…

Sorrio –

Revejo meus lábios no teu umbigo.

beijo-no-umbigo

Eu sei que vou te amar

Eu sei…

AGORA BABOU

Quando eu digo “eu te amo”, entenda: o amor que sinto por você se realiza em si mesmo, toda e cada vez que te amo. Por isso, não espero que me diga que sente o mesmo ou algo parecido. Eu espero mesmo são os seus sorrisos, as suas risadas, os seus olhares que tudo entregam, o seu corpo colado e enroscado no meu, e milhares de detalhes que só nós dois conhecemos, que só fazem sentido entre nós dois.

A verdade é que descobri através desse amor, que transborda de mim em todos os sentidos, que me tornei uma pessoa melhor, de bem com a vida, e que valoriza segundos, minutos e horas como nunca havia valorizado antes. E não vão ser essas palavras que humildemente escrevo que darão a real dimensão do que sinto por você. Apenas observe-me. Leia-me. A minha vida é uma declaração de amor por você.

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Anagnórise – Prólogo

Só um pequeno conjunto de 10 poesias. Sendo bem sincero, gostei MUITO do resultado.

AGORA BABOU

Prólogo

No princípio, era apenas verbo

Era sinônimo

Antônimo também

Eram palavras

E tornou-se rico, catártico

Lúcido, lúdico

Lírico, Libídico

Eram sentimentos

E tornou-se prolixo, difuso

Onírico, confuso

Apocalítico, fastídico

Eram indagações

Pérfida razão!

Pelo sim, pelo não

Pelo mundo inteiro

E se for verdadeiro?

E se for ilusão?

No todo ou na parte

Sendo ciência ou arte

Da Terra ou de Marte

E se não for empírico?

E se não houver justificação?

Gleba sentimental?

Que seja, então!

Cultivo, exploração

Toque, retoque

E tudo que isso provoque

Adeus, razão!

Dispa-te de tua empáfia!

És biltre, vil, senil

Finge-te servil

Não nutro por ti comiserção!

Adeus, razão!

Acalma-te, fera belicosa!

Diante de todos os indícios

Não tens qualquer ofício

Nas maravilhas do coração.

anagnórise - prólogo

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