A pulga

Ele não a vê. Ele só a sente na pele, por todo o corpo, na mente. Ela é dele. Ela está lá. Nunca o abandonará.

Não há remédio, reza, oração, prece, promessa, jura, simpatia, garrafada ou algo similar para dela se livrar. Ela é dele. Ela está lá. Nunca o substituirá.

A pulga atrás da orelha está presente, em todo o tempo e qualquer lugar. Ela é dele. Ele é dela. Ela é dele. Ele é dela. Ela é dele. Ele é dela…

O depois é feito de agoras

Há dias em que a manhã parece chegar cedo demais. Há dias em que a noite parece chegar tarde demais. Há momentos que eu não quero que acabem, e que são eternidades que não duram mais do que alguns poucos segundos. Há momentos que parecem durar para sempre, e que eu gostaria que se fossem em um piscar de olhos.

Do alto dos cumes, muitas vezes sem perceber, preparei a minha queda. Da profundeza dos vales, muitas vezes sem perceber, preparei a minha ascensão. Curiosamente, já confundi cumes com vales, vales com cumes, e só me dei conta disso no depois. Depois, tudo ficou claro. Depois, tudo fez sentido. Depois, só depois.

Hoje, quero trazer o depois para o durante, para o agora. Quero entender que há vales e cumes, cumes e vales, mesmo sem saber ao certo o que são, e vivê-los como se não houvesse um depois. Como se só houvesse o agora.

Dei-me conta que não faz sentido dizer que serei isso ou aquilo depois. Depois da promoção, depois da minha filha se formar, depois de eu amar de novo. Não. O agora já é o depois de algum outro agora, de um agora que ficou para depois. Cume ou vale, vale ou cume. Agora é agora. Tanto faz.

Quando olhei para minha vida e a despi sem pudores, me dei conta dos muitos agoras que desperdicei esperando por algum depois. Não quero mais isso. Tudo que tenho é o agora e não vou deixar nada para depois. Nada.

O tempo é uma ilusão: é infinito, algo que eu não sou.

Festa Julina: o perdão

Em 2000, meus amigos e eu fomos convidados para uma Festa Julina na casa do meu padrinho. Os convidados ficaram encarregados de levar algum tipo de comida e de bebida, no maior estilo festa americana. Ele forneceu o espaço decorado, mais comida e mais bebida (incluindo churrasquinho, salsichão e até a própria churrasqueira), uma banda típica, algumas barraquinhas com brincadeiras e uma fogueira linda! De fato, uma das melhores festas que eu já fui. As crianças ficaram enlouquecidas e os pais em êxtase!

O dia era perfeito. Inverno fluminense no seu auge (uns 15o Celsius), a família reunida, os amigos, os agregados… No total, eram umas 200 pessoas no terreno amplo e arborizado (e ainda assim arenoso) de uma casa em São José do Imbassaí (Maricá/RJ). Eu estava me sentindo em casa, e de fato estava… Havia muitas histórias antigas no ar para serem recontadas ad nauseam. E muitas novas histórias para serem vividas e recontadas no futuro, no maior estilo Dark (série alemã do Netflix).

Eu estava de namorada nova. Apresentei para os amigos e tal. Ela era muito gente boa, bonita, mas de vez em quando falava umas besteiras. Era meio sem noção, meio imatura por assim dizer. Numa dessas, durante a festa, falou uma besteira nada a ver sobre uma ex minha que estava na festa na companhia de seu novo namorado. Fiquei super sem graça e me afastei da roda de amigos para pegar mais uma cerveja. Foram inúmeras naquele dia.

A minha namorada percebeu que fiquei chateado. Veio atrás de mim pedir desculpas. Preferi aceitar, até para não queria acabar com o encanto da festa. Só que o pedido de desculpas e o meu aceite aconteceram na presença do meu padrinho. Ele interrompeu a nossa conversa e disse para ela:

“Nunca peça desculpas por algo que você tenha a intenção de repetir.”

Não entendi nada no momento, muito embora meu padrinho fosse (e ainda é) uma pessoa muito sábia. Voltamos para a festa e nos divertimos demais. Sem dúvida alguma, aquele povo todo reunido e a inocência dos meus 28 anos falaram mais forte do que qualquer outra coisa.

O ano agora é 2020. Nos últimos 20 anos, muitas vezes as palavras do meu padrinho ecoaram em minha mente. Eu não entendia exatamente o porquê, mas ela insistiam em permanecer. Quis a vida me ensinar o que elas significavam, e eu aprendi. Os detalhes do meu aprendizado são irrelevantes… Coisas da vida.

Não peço desculpas por coisas que não me arrependo, só para apaziguar a situação. Se eu fiz e não acho errado, por que pedir desculpas? Obviamente, vou conversar com a pessoa e explicar o meu lado, mas simplesmente pedir desculpas ainda que me considerando certo é algo inconcebível em minha vida.

Espero o mesmo dos outros. Fez alguma besteira e quer se desculpar? Eu sou todo perdão! Eu tenho essa qualidade: eu perdoo. Sei fazer isso de peito aberto e com o coração tranquilo. Mas que ninguém ouse confundir o meu perdão com permissividade. Como gostam de dizer os americanos:

“Me engane uma vez, a vergonha é sua. Me engane pela segunda vez, a vergonha é minha.”

Nunca deixe ninguém enganar você pela segunda vez. Corte. Se afaste. Pelo seu próprio bem. Amor próprio é tudo. E mais: nunca faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você, e muito menos seja canalha ao ponto de ficar inventando desculpas só para ter a chance de fazer tudo de novo.

Enfim… Os anos passam e eu continuo aprendendo a viver. A minha então namorada não durou muito na minha vida. Está por aí. Espero que esteja feliz.

O Louco – Khalil Gibran

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz no cimo do telhado de uma casa gritou:

“É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo.

O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.

E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.

E encontrei tanta liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Uso de máscaras durante a pandemia

Andar sem máscara na rua não faz você parecer uma pessoa descolada e engajada politicamente. Só faz você parecer um BABACA sem nenhum respeito pelos outros. Empatia zero. Inteligência questionável. Será essa a imagem que guardarão de você. Esteja certo disso.

Em boa companhia

Ao andar sozinho

Percebi detalhes do caminho

Fui capaz de ouvir meus passos

Observar minha respiração

E o ritmo do meu coração:

Eu me senti

 

Ao andar sozinho

Passei por flores e espinhos

Becos, avenidas e praças

Do chão batido ao asfalto

Do sapê ao concreto, do aço à lata:

Eu senti o mundo

 

Ao andar sozinho

Provei todas as cores e temperos

Beijos e abraços intensos, insossos e acesos

Camas desarrumadas e fartura sobre as mesas

Tudo passageiro com retrogosto definitivo:

Eu senti o passar do tempo

 

Ao andar sozinho

Nada controlei ou antecipei

Nada esperei e muito recebi

E com o peito inundado pela esperança

Tornei-me da minha vida autor e protagonista:

Eu me reconheci.

Eu rumo

Hoje, reparei nas nuvens

Há tempos não fazia isso

Céu azul de inverno

Nuvens como se fossem de algodão

Sendo levadas pelo vento

 

Deixou-me curioso a sua leveza

Enquanto nuvem, à mercê do vento

Indo como se soubesse a direção

Ignorando sua própria existência

Seu motivo e razão

 

Nuvens claras nos dias de sol

Escuras nos dias de chuva

Livres

Felizes

Indo para não se sabe onde

 

E pensei que eu também gostaria de ser nuvem

Eu queria ir…

Ir…

Mundo afora, sem porque ou motivação

Descobrir aonde o vento faz a curva

E ser insubstancial, nada urgente

No inverno e também no verão

 

Mas há quem nasça para ser nuvem

E há quem nasça para ser vento

 

Eu sou vento!

 

Da brisa suave

Até qualquer grande tormenta

Eu carrego

Eu levo

Eu movo e removo

Eu faço o que tiver que ser feito

Eu simplesmente não me contento.

O Cristianismo, Bolsonaro, a COVID-19 e a HCQ

Quando um cristão deseja que seus inimigos ou algozes vivam por muito tempo, é por dois motivos principais:

1) Para que as suas farsas sejam descobertas;
2) Para que sirvam de exemplo e tenham tempo suficiente para o arrependimento antes da morte.

Ao fazer 2 eletrocardiogramas (ECGs) por dia por conta de estar com a COVID-19 e estar se tratando com HCQ, a farsa bolsonarista se desmonta de uma vez: qual cidadão brasileiro pode fazer 2 ECGs por dia por conta de estar tomando um medicamento, quer seja na rede pública ou privada? Os que estão internados e, ainda assim, nem todos. Qualquer pessoa que conheça minimamente o SUS sabe disso.

Mas a farsa não para por aí… Se é seguro e sendo o Bolsonaro o garoto propaganda da HCQ, por que ele está fazendo esses exames? O discurso dele vale apenas para os outros, ou seja, para nós? Se fosse seguro como ele insiste em dizer, ele simplesmente não faria os exames. Ponto.

Mas a farsa ainda não acaba por aí… É comum os hospitais mandarem os pacientes com suspeita de COVID-19 para casa com a recomendação de retorno apenas em caso de piora. Isso é exatamente o contrário do protocolo que está sendo seguido pelo Bolsonaro diante da doença: ele está sendo tratado precocemente e está sendo monitorado por todo um corpo médico com acesso a equipamentos e insumos de primeira linha (médicos não fazem milagres sem o básico do básico, que muitas vezes falta no SUS).

Enfim… Toda a narrativa sobre o uso seguro da HCQ acabou, quis o destino, pelas mãos de quem mais a defendeu. E justamente por isso é que não temos até hoje um médico como Ministro da Saúde. Médicos não vivem de discursos. Precisam da ciência.

Barstool Warrior – Dream Theater

E eles mais uma vez mandaram bem (para variar)! Letra e música irretocáveis! Os solos melódicos do guitarrista John Petrucci são de babar! 🙂

 

Barstool Warrior

In a dark and lonely corner, all the time in Dark-side inn
Sits a local barstool warrior, talking to his gin
Treating past decisions, he motions for a shot
Is he doomed to be a man this world forgot?
Just a prisoner of the monster on his back

Call it bad luck, call it fate
Call it stuck here the rest of my days
Serves me right, what went wrong
And where do I belong?

In the glow of flashing lights, on the shoulder of the road
Clutching at the bruised and tired skin
She tries to signal danger with anguish in her eyes
Will he see the world of pain she’s in?

Or is it too late?

Was it bad luck, was it fate
Or a past that she couldn’t escape?
It’s not right, something’s wrong
Just where do I belong?

Promises made, crying in vain
All empty, never accepting the blame
And not letting go of the shame
A river of tears, as months turned to years
All wasted on someone not willing to change
Now only a shadow remains

No one can save you
And there’s no one to see
It has been written
You will become all you think, all you feel, all you dream

Now I’m cutting the anchor away
And I won’t look back
I’m starting a new life today
Now I see where I belong