Lagunitas

O sábado chegou leve depois de uma noite muito bem dormida: quase 12 horas de sono sem nenhum pit stop. Há tempos um sábado não chegava com um compromisso para a noite. E não, não era uma festa infantil como de costume. Era um encontro para o qual eu havia sido convidado. Algo pessoal e intransferível. Eu já estava desacostumado e só de pensar nisso eu sorria… Meu coração acelerava!

Mandei uma mensagem para ela pelo Telegram dando bom dia. Perguntei se eu deveria levar algo para o nosso encontro à noite e a resposta foi firme: “Não. Você é meu convidado. Você vem, né?” Tudo que fui capaz de dizer foi um “Óbvio!”, que foi respondido com um emoji de sorriso. Eu consegui vê-la sorrindo do outro lado da tela. Eu também sorri.

Por algum motivo, ainda assim eu sentia que tinha que levar alguma coisa para o nosso encontro. Eu não sabia exatamente o quê. Perto da casa dela, havia um quiosque que vendia flores. Comprei um buquê bem colorido de flores do campo. Gosto de rosas, mas me pareciam muito formais para o momento. Eu queria algo bem informal e flores do campo sempre me passaram essa sensação. Eu precisava compartilhar a minha alegria.

19:55. Eu estava cinco minutos adiantado. Puxei conversa com o porteiro. Dei boa noite para um casal de idosos, e exatamente às 20:00 pedi para que minha presença fosse anunciada. Ele sorriu e disse para eu subir. Não dava mais para fugir, pensei eu, e também pensei que tudo que eu não queria era fugir. Eu sentia frio na barriga. Estava parecendo um adolescente. Mais um motivo para me fazer sorrir.

Não precisei tocar a campainha. A porta já estava entreaberta. Eu ofereci as flores a ela, ou melhor, pedi para segura-las porque eu tinha que tirar os sapatos, tirar a máscara, passar álcool em gel… Coisas da pandemia.

– São para você – disse eu enquanto entrava só de meias sala adentro para abraça-la. Abraço daqueles de urso, sem pressa. Sem nenhuma pressa. Tempo suficiente para o perfume dela ficar em mim. Nada doce. No ponto. Na medida. Aliás, ela é toda na medida, mas ninguém precisa saber disso. Só eu.

A cozinha era do tipo americana, e me sentei em um banco que me fazia sentir em um bar (saudades disso!!!). Ela preparava algo para comermos enquanto falávamos sobre a nossa semana. Antes que eu me desse conta, ela me ofereceu um copo de cerveja. Um copo apropriado para uma IPA. E o cheiro também também era de uma IPA. A temperatura perfeita. Como assim?

– Esqueceu que estou no seu Instagram? Lagunitas! – disse ela enquanto me mostrava a garrafa meio que fazendo pose de modelo. Eu decidi parar de sorrir de vez em quando e ficar só em um sorriso contínuo. Eu também estava recebendo flores naquele momento. Certeza.

– Mas vem cá… Esse encontro não era para ser sem álcool? Pelo menos foi essa a impressão que eu fiquei… – perguntei.

– Deixa de ser bobo, vai… O problema era a Tequila. Hoje, você vai de cerveja e eu vou de vinho. Assim, não vamos poder culpar a bebida por qualquer coisa que aconteça… – disse ela com a cara mais cínica do mundo.

Não me aguentei. Levantei rapidamente e a segurei pela cintura. A beijei com fúria. Ela merecia. Eu também. Ela tentou dizer algo. Eu a calei com beijos e a fui conduzindo até o sofá.

– Mas eu ainda não terminei a tábua de frios… – disse ela, com a respiração ofegante.

– E por que não podemos começar pela sobremesa? – retruquei.

E ela se entregou por completo. Eu também. Viramos um só de todos os jeitos e formas. De vários jeitos e formas. O perfume dela virou o meu perfume. O meu perfume virou o perfume dela. As roupas ficaram pelo chão. Os nossos desejos no corpo um do outro. Incrível. Inesquecível. Maduro. Safado. Quente. Suado. Sem pressa.

– E a tal tábua de frios? Bateu uma fome… – perguntei depois de um tempo. Eu tinha perdido a noção do tempo, inclusive.

– Fique aqui… Deixa que eu vou buscar. – ela me disse com os olhos brilhando, absolutamente radiante. A silhueta de seu corpo nu caminhando até a cozinha era deslumbrante. Simplesmente deliciosa.

– Você está me acostumando mal, sabia?

– Estou conseguindo atingir o meu objetivo, então! – disse ela em tom provocador.

Mais uma cerveja, mais uma taça de vinho. A conversa corria leve e solta. Piadas provocantes e pausas… Longas pausas onde as bocas se ocupavam com assuntos mais carnais e de forma alguma menos importantes. Era uma troca intensa de palavras, fluidos, energia, vida. Tudo muito real e intenso. Todos os sentidos mais do que aguçados.

Só depois de muito tempo me dei conta que havia uma playlist tocando. Anos 1980. The Smiths, The Police, The Cure, The Cult, Aerosmith, Bon Jovi. Tudo de bom. Tudo muito, muito bom. Cheguei a pensar que havia algo errado de tão perfeito que tudo estava, mas de dentro de mim surgiu uma voz muito contundente que acabou com todas as minhas dúvidas: “eu mereço”. E é verdade. Eu reconheço. Eu mereço.

Ela adormeceu nos meus braços e então dei-me conta de que já era Dias dos Pais. Peguei o telefone para enviar uma mensagem para a minha filha dizendo que eu chegaria mais tarde, mas ela interveio.

– Fica? – disse ela com um olhar irrecusável.

E eu fiquei (que sofrimento ficar!). Avisei a minha filha que chegaria pela manhã. Respondi a um inquérito antes de desligar o telefone (a relação da minha filha comigo é algo maravilhoso!), que terminou com um emocionante “Feliz Dia dos Pais!”

O dia começou como a noite terminou. Creio que não preciso entrar em detalhes. Ganhei uma escova de dentes e uma toalha. Tomamos café juntos. Ela foi visitar os pais. Eu fui me encontrar com a minha filha. Por volta das 16h00, uma mensagem no meu Telegram: “Feliz Dia dos Pais! Final de semana que vem tem mais!”. Nos falamos por 5 minutos ao telefone. Eu liguei. Ela precisava saber o quanto estava me fazendo feliz.

Dá para ser melhor do que isso? Não sei. Farei de tudo para descobrir. Prometo. Prometo para mim mesmo.

4 pensamentos sobre “Lagunitas

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