Eu, peregrino

Só temos o agora,
Deixa a ansiedade lá fora,
Deixa vir o destino.

Quiçá ele é nosso?
E é justamente por isso
Que eu não procrastino.

Ainda que só por hoje,
Teu ventre é o cálice
Para onde eu peregrino.

Na pior das hipóteses,
Memórias, histórias,
Desvairado desatino.

Euforia

Entre as bolhas que murmuram
Na taça de espumante,
Vejo completamente nua
A minha alma e a tua.

Lembro-me do correr dos hojes:
Dos momentos,
Das conversas,
Do sol,
Dos ventos,
Dos aceites,
Das entregas…

No silêncio,
Ouço as bolhas do espumante
Mais ainda murmurantes,
Explodindo em meus ouvidos,
Chamando-me para aceitar o sentido
De tudo que vem acontecendo.

E agora,
Diante da taça vazia,
Aninho-me a teu corpo
E deixo-me ir
Para o amanhã,
Onde lutaremos pelo pão –
E por tudo mais que nos for
Essencial, verdadeiro e necessário –
De cada dia.

E desta vez, que nem tudo se exploda,
Só do espumante as infinitas bolhas:
Bolhas de alegria, alegria!
Posto que tu és revigorante euforia.

Vim trazer verdades 44

A vida nem sempre vai seguir de acordo com o que você espera, e muito menos acontecer de maneira linear. Você vai dormir com algumas certezas, e no dia seguinte, aparentemente do nada, tudo muda.

É o emprego de anos que se perde. É a pessoa amada que se vai. É o amigo que se mostra ingrato. As possibilidades são muitas.

E aí, bate aquele desespero. A gente pensa que Deus não existe, pergunta o que fez para merecer aquela situação, se desespera, lamenta, chora… E isso é normal. Somos humanos. É comum o estranhamento quando alguma mudança importante está ocorrendo em nossas vidas. Viva essa perda, essa espécie de luto se for o caso, mas não fique nessa por muito tempo. Não mesmo.

Uma das coisas que aprendi é que o que tem que ficar, fica, e o que tem que ir, vai. Não há muito que possa ser feito a respeito disso. Trabalhar feito um louco pode não livra-lo da demissão. Amar e ser fiel não necessariamente vai manter a seu lado a pessoa amada. Ajudar seu amigo em um momento difícil não é garantia de reconhecimento de uma amizade verdadeira.

Mas nada acontece por acaso. O tempo é o senhor de nossas vidas. Há planos para nós que nossa visão imediatista e limitada ignora. Para que o novo chegue, é preciso que o antigo se vá. É preciso abandonar o passado para abraçar o futuro.

Então, toda vez que parecer que você fez tudo que era possível para que algo funcionasse e ainda assim não deu certo, relaxe. Aceite. Agradeça. Lá na frente, com o passar do tempo, você vai entender tudo com uma clareza absurda e será capaz de dizer “Ainda bem que tudo isso me aconteceu!”

Seja lá porque motivo for, nunca perca a sua fé. O melhor ainda está por vi.

Vim trazer verdades 43

Antes de mais nada, é importante entender o que é “ghosting”.

Ghosting é um termo usado para designar o término repentino de um relacionamento sem deixar explicações, este termo vem do inglês, e é derivada da palavra ghost, que significa fantasma em português. O praticante de ghosting, some misteriosamente como se fosse um fantasma.” – Fonte: Wikipedia

E por que alguém agiria assim? Há algumas possibilidades.

– Covardia: a pessoa quer curtir a parte boa do relacionamento e na hora que deseja ir embora, por qualquer motivo que seja, não quer encarar o outro ou mesmo dar qualquer tipo de explicação. Isso é cruel e desumano, e demonstra com clareza que a pessoa não possui nenhum tipo de responsabilidade afetiva. Ninguém é obrigado a ficar com ninguém, mas quem fica precisa de um fechamento para viver o seu luto e seguir em frente. Facilita muito a vida de quem precisa seguir sem a companhia de quem se foi.

– Manipulação: há o “ghosting” temporário, também conhecido como tratamento de silêncio. Uma ferramenta de manipulação antiga e muito eficaz. Via de regra, é utilizada para punir alguém que não se comportou de acordo com o esperado. Note que o conceito de esperado nesse caso não passa por certo ou errado. É punição para quem quem ousou questionar ou se opor ao manipulador. É uma maneira imatura ou perversa de dizer que não está satisfeito com algo. Isso é feito na esperança de que a parte afetada venha pedir desculpas, na grande maioria das vezes por coisas que nunca fez. Portanto, também é uma ferramenta de controle, de adestramento.

Dito isso, fica claro que os praticantes do “ghosting” são no mínimo imaturos e no extremo manipuladores perversos.

Você não tem que lidar com o “ghosting”. Não é saudável. Não é normal. Basta levantar a cabeça e seguir adiante. Está precisando de um fechamento para poder viver o seu luto? Crie um! Não perca seu tempo com quem não merece. Sua saúde mental agradece.

Bolo fecal – por Natália Nodari

Pedi um amor e ele me deu um bolo mofado. “Eu pedi amor”, disse.

– Isso é amor.
– Mas não vai me fazer mal?
– Talvez.

Olhei e novo e percebi uma larvinha de mosca saindo da cobertura.

– Vai querer ou não? — Ele olhava a larva também.
– Não sei. — A larvinha agora afundava cada vez mais no bolo.
– Eu não vou ficar parado o dia todo aqui, sabe.

Lembrei que não sabia cozinhar e levei o bolo para a casa. Primeiro tentei tirar tudo que se movia na cobertura, mas era impossível . Me contentei em raspar o mofo, fechar os olhos e engolir uma garfada.

Vomitei.

Dormi com o estômago roncando e acordei com dor de barriga dos infernos. Não saí de casa nos próximos três dias: sem amor, não tinha vontade de tomar banho nem de escovar os cabelos. Não queria olhar o céu e nem os olhos das pessoas. No quinto dia sem amor, não quis abrir as pálpebras muito menos as janelas da casa.

Prestes a perder as forças, olhei para a mesa e resolvi tentar de novo. O estômago reclamou, mas não devolveu. O intestino resolveu não opinar. Fui dormir indigesta e ao mesmo tempo aliviada. Pela manhã, as maquiagens do banheiro voltaram a fazer sentido. As roupas no chão pediram para serem penduradas. A maçaneta da porta pedia para ser girada e eu obedeci.

A cada passo, sentia o estômago revirar, mas também sentia que estava viva. Segui na rua disfarçando uns arrotos enquanto olhava vitrines.

À noite, resolvi encarar o bolo de novo.

Ele não pareceu tão ruim quanto no dia anterior. Na verdade, olhando de lado nem dava para ver a parte feia. Segui comento o bolo, segui com o estômago revirado e mais importante: segui com vontade de entrar no ônibus e pagar minhas contas.

Até que o bolo acabou.

Preocupada, fui até ele pedir mais amor. O bolo que ele me entregou estava coberto de moscas.

– Está fedendo demais. — comentei.
– É o que eu tenho.

Não consegui colocar sobre a mesa da sala, já que atraía mais moscas. Botei dentro do forno e cortei uma fatia: o cheiro era insuportável. Tampei o nariz aproximei o garfo da boca, tentando não mastigar as moscas mortas. Sabendo que não poderia ficar sem amor e nem me livrar de todos os insetos, engoli. O estômago não roncou nem a garganta contraiu: já estavam habituados.

Quando o amor acabou, ele me entregou um prato fundo.

– Mas isso é vômito!
– Eu chamo de amor.

Entendi que era bolo vomitado e resolvi guardar na geladeira. No dia seguinte provei uma colherada antes de ir trabalhar, e, para a minha surpresa, eu já não sentia mais gosto de nada. Tomei outra colherada à noite, pra garantir que iria ter vontade de tomar banho e sair com meus amigos.

No dia seguinte tive um pouco de febre, mas segui dando umas colheradas.
Dois dias depois, a cabeça doeu.

A febre voltou.
A garganta inchou.

Sem conseguir engolir o amor, fechei as cortinas e esperei a morte bater. Quando ouvi o som da campainha, suspirei aliviada.

Mas não era ele.

Não era alguém que eu conhecesse. Tinha cabelos encaracolados e trazia um prato com uma espécie de massa branca. Leve, limpa, tinha cheiro de primavera.

– Isso não é amor. — Eu disse.
– É amor, sim. — Parecia surpreso.
– Não, não é. — Eu ri.

Os olhos dele encheram de lágrimas. Antes que eu pudesse mudar de ideia, levou a torta de creme embora.