Paradoxo da Pandemia

Muitas pessoas que nunca usaram máscara ou álcool em gel, que são contra a vacinação, e que nunca respeitaram o distanciamento social sobreviverão sem nunca terem sido infectadas pelo Covid-19. Essas pessoas dirão que tudo foi um grande exagero e que os cuidados de fato nunca foram necessários. Essas pessoas rirão de você que se cuidou e que se vacinou. Dirão que você caiu no conto do vigário. E está aí o grande paradoxo dessa pandemia: quem não se cuidou ou não se cuida foi e está sendo diretamente beneficiado por quem se cuida.

Quando você se cuida, você cuida dos outros também. Quando você não se cuida, você não cuida dos outros também. Prefiro pecar pelo exagero do que pela falta. A minha consciência está tranquila. E a sua?

O teu cheiro

O teu cheiro era bem mais que teu perfume, que ficava entranhado nas minhas roupas e em todo o meu corpo.

O teu cheiro perfumava o meu quarto, a minha roupa de cama, as minhas toalhas, o meu colchão.

O teu cheiro ficou no meu carro e vai passear e trabalhar comigo.

O teu cheiro era a certeza de que eu tinha encontrado a minha fêmea.

O teu cheiro era como nenhum outro.

E teu cheiro passou a ser o meu cheiro.

E hoje, ainda que distantes, eu te exalo pelos meus poros.

O teu cheiro foi o amor que ficou em mim.

Vim trazer verdades 31

Mudar de opinião nem sempre é sinal de inteligência. Também pode ser falta de personalidade ou mesmo um receio de não ser aceito em um determinado grupo.

Em tempos de polarização política extrema como a que vivemos no Brasil, mais do que mudar ou manter uma determinada opinião, é preciso que as pessoas estejam bem informadas. Isso passa por se informar também sobre o contraditório, sobre o que soa dissonante aos ouvidos. Aliás, como alguém pode defender a ideia A sem conhecer um eventual contraponto proposto pela ideia B e vice-versa?

Precisamos pensar com o cérebro. Está sobrando gente pensando com o intestino em nosso país.

A mala

Demorei a desfazer a minha mala, porque eu sabia que desfazê-la era o mesmo que desfazer-me.

Fui tirando as peças de roupa e revivendo histórias, memórias. Deparei-me com porvires que nunca virão e com garrafas de vinho que jamais serão abertas. Brotaram declarações de amor tarja preta, beijos esquecidos e orgasmos retorcidos, sepultados sem choro e nem vela.

No fundo da mala, uma medalha de Nossa Senhora de Fátima e um paninho da minha filha, daqueles que crianças usam para dormir. Toda vez que eu viajava, ela colocava o paninho na minha mala e me dizia: “Leva esse paninho para você não se esquecer de mim!”

Fitei a medalha e levei instintivamente o paninho até meu rosto. Respirei fundo e me dei conta de que tudo que realmente importava na minha vida estava ali. Tudo vivo. Tudo sagrado. Tudo resguardado.

Fiz uma prece e usei o paninho para enxugar algumas lágrimas que insistiram em rolar pela minha face. Agradeci pela minha vida, pela vida da minha filha, pelo que deu certo e até mesmo pelo que deu errado. Simplesmente agradeci. Entreguei-me, por fim, a minha realidade burlesca.

Da alça da mala, retirei a etiqueta da companhia aérea. Lembrei-me do voo turbulento e da volta antecipada. Lembrei-me da turbulência em minha vida, mas voar continuava a ser uma necessidade premente. Não era opção. Era vocação. O próximo destino? Nas mãos de Deus.

Fechei a mala e a guardei em um canto do quarto. Coloquei a medalha na minha carteira e o paninho sobre meu travesseiro. Fui dormir mais tranquilo. Naquele dia, encarei o meu medo e ele covardemente me disse adeus.

Questão de sobrevivência

Nossas taças de vinho
No frio do inverno,
Nossos corpos nus queimando
Feito mil sóis no verão.

O beijo na boca,
A prisão entre as coxas,
O ritmado ir e vir,
O descompassar do coração.

Lençóis ensopados,
Desejos e impropérios,
Lascívia escancarada,
Peças de roupa pelo chão.

A tontura repetida do gozo,
A entrega sem mistérios,
A respiração ofegante,
Nossos fluidos em ebulição.

Se foi esse o dia mais frio do inverno,
Me diga,
Como sobreviveremos ao verão?

Vim trazer verdades 30

O que é defeito aos olhos de uns, é qualidade aos olhos de outros. Seja sempre quem você realmente é, e um dia a vida há de colocar a seu lado quem veja toda a beleza e o encanto da sua singularidade.

Eu quero

Eu quero fazer a diferença na tua vida,
Mas não quero te mudar.

Quero ser o confidente,
O amor, amante, o amigo,
A válvula de escape diante do desastre iminente.

Quero que saibas que vou lavar a louça,
Fazer compras, fazer faxina e cozinhar,
Lavar roupa e passar,
Porque por nós posso fazer
Tudo que for necessário.

Vou trabalhar e trabalhar muito
E ainda que o dinheiro não seja muito,
Entrega e amor nunca irão faltar.

Quero andar de mãos dadas contigo
Nas infindáveis caminhadas da vida,
Onde o caminho tem mais importância que o destino.

Quero que tenhas orgulho de mim,
Do homem que invariavelmente sou
E da mulher que invariavelmente és quando estás comigo.

Mas de tudo que eu quero,
Nada é mais forte do que o te querer
E nesse querer eu realmente me defino:
Te querer é o que eu sou.

E quero que sejamos bem assim normais,
Casuais e sofisticadamente simples,
E que nosso amor seja simplesmente
A coisa mais importante que existe.