12.283 dias…

Felipe, meu irmão, faz 35 anos que você se foi. Você sabe que não deixei de lembrar de você por um único dia sequer e também sabe que eu teria dado a minha vida por você se coubesse a mim essa decisão.

São pelo menos 12.283 dias de saudades (anos bissextos inclusos) e a certeza de que estamos sempre juntos de alguma forma. Eu sei que você está escrevendo esse tempo comigo.

Reafirmo: tempo e distância são nada entre nós. Sei que ainda vamos nos encontrar. Eu te amo. Meus amores são para sempre.

Minha avó morreu mais de uma vez

– Lamento muito pela sua perda. Já está tudo preparado para o sepultamento da Dona Maria.

Eram 5:30 da manhã de um dia escuro e chuvoso de inverno. Pelo “telefone vermelho”, recebi esta triste notícia. Eu chamava de “telefone vermelho” porque era um daqueles usados apenas para me conectar a Internet, e também dado para contatos especiais, tais como a clínica geriátrica onde minha avó estava internada com várias complicações decorrentes de uma Paralisia Supranuclear Progressiva (doença degenerativa do cérebro).

Eu não sabia com quem havia acabado de falar no telefone. Se a pessoa me falou o nome, eu simplesmente não prestei atenção. Sabia apenas que era um homem. Em prantos, vesti-me rapidamente e me preparei para sair de carro. Queria ir até a clínica da minha avó para saber como dar a notícia para minha mãe.

– Filho, onde você vai?
– Uma emergência do trabalho. Volto logo.

Entrei no meu carro e fui em disparada para a clínica. Ainda era noite. Toda a minha infância e minha adolescência passavam pela minha mente como que em uma espécie de filme. Deu saudades do pudim, do bacalhau, do cafuné para eu dormir, dela coçando minhas costas… Enfim. Minha avó tinha acabado de falecer.

Toquei a campainha da clínica e uma enfermeira com os olhos marejados veio me receber.

– Em que posso ajuda-lo?
– Sou neto da Dona Maria…

A enfermeira não conteve as suas lágrimas.

– Ela não está mais aqui, meu querido… A levaram para o Hospital Santa Cruz, onde ela acabou falecendo…

Entrei no meu carro e fui feito um louco para o hospital. Estava tudo se materializando e fazendo sentido. Meu irmão havia morrido naquele hospital. Agora, era a vez da minha avó. Como eu iria contar aquilo para a minha mãe? Será que meu avô estava esperando por ela de braços abertos no céu?

Na recepção, me confirmaram que uma Dona Maria tinha falecido, e que o corpo dela estava nos fundos do hospital, em uma espécie de capela, aguardando a funerária na presença de “alguns parentes”. Parentes? Como alguém poderia ter chegado ao hospital antes de mim? Não importava… Ela estava morta.

Dirigi-me até o local indicado, e de longe vi um corpo sobre uma maca, coberto por um pano branco. Meu coração gelou. Era verdade… Minha avó tinha morrido.

Lentamente, entrei na capela improvisada. Chorando, percebi que não conhecia nenhuma das pessoas que lá estavam. Nenhuma. Estavam todas em prantos, e decidi me aproximar da maca para dar um beijo na minha avó… Sei lá! Talvez toca-la e sentir que a pele dela estava quente, e que tudo não passava de um grande engano…

O cadáver estava coberto. “Seria Lázaro?”, desejei. Respeitosamente, levantei o manto que cobria o corpo e então…

– PUTA QUE PARIU! NÃO É A MINHA AVÓ!

Eu disse isso em voz alta. Silêncio absoluto dentro da capela. Todos olhavam para mim. Eu sorria! Estava feliz! Pedi desculpas e me retirei. Afinal de contas, quem ligou para a minha casa e por quê? Onde estaria a minha avó?

Voltei para a clínica geriátrica. Outra enfermeira me atendeu. Novamente, perguntei a respeito da Dona Maria.

– Você não é o neto da Dona Maria que vem sempre aqui? O que você está fazendo aqui essa hora?
– Disseram que minha avó tinha morrido. Vim aqui, e me disseram que ela estava no Santa Cruz…
– Sim, faleceu uma Dona Maria, mas não é a sua avó. A sua avó está bem. Está dormindo.
– Se incomoda se eu ver com meus próprios olhos?
– De maneira alguma!

E lá estava minha avó. Debilitada, doente, mas viva. No meio de uma explosão de sentimentos, a raiva falou mais forte… Talvez eu não tenha mais bacalhau ou pudim, mas jurei que pegaria o responsável por isso na porrada!

– Quem foi o FDP que ligou para a minha casa dizendo que ela tinha morrido? Quem foi? Vou matar esse cara!
– Como assim? Ligaram para sua casa dizendo que sua avó tinha morrido?
– Sim… Quero falar com esse cara AGORA! Só vocês aqui da clínica tem o telefone para o qual ligaram. Não adianta nem tentar me enrolar!
– Vamos lá na recepção, então.

Eu estava furioso… Queria pegar de porrada o FDP que tinha me dado tal susto. Será que não sabem nem para qual família devem ligar quando falece alguém? Entretanto, achei estranho que na tal sala havia apenas duas mulheres. Mudança de turno, claro. O FDP fugiu! Está escondido!

– Senhor, o único homem que ficou aqui durante a noite e que faz parte da equipe é o segurança, e posso garantir que ele não ligou para a família da Dona Maria. Quem faz as ligações desse tipo sou eu, e sempre na presença do dono da clínica. Aliás, aqui está a ficha da falecida…

Olhei a ficha. Realmente, não era a ficha minha avó. O que teria acontecido, então?

Voltei para casa mais calmo depois de pedir desculpas à enfermeira e a toda equipe. Imediatamente, acordei minha mãe e expliquei tudo que tinha acontecido. E para minha surpresa, minha mãe caiu na gargalhada.

– É pegadinha isso, mãe? Como podem saber o nome da vovó e ainda por cima ligarem para aquele telefone lá do quarto?
– Filho, eu não sei exatamente o que houve, mas eu imagino. Eu ontem estive com o Vereador XPTO, e ele, que era muito amigo do seu avô, garantiu que pagaria pelo sepultamento da sua avó quando o momento chegasse. Fazia questão disso. Na minha frente, ligou para uma funerária e deu ordens expressas para não cobrar nada para um eventual sepultamento da minha mãe. Deu o telefone do seu quarto em caso de emergência. O homem deve ter entendido errado e deve ter achado que sua avó já tinha morrido!
– Será? Você tem o telefone de lá? Deixa eu ligar…

Fui para o meu quarto e liguei para a tal funerária. A voz que atendeu o telefone era conhecida. Era a mesma que tinha me dado a notícia do falecimento de minha avó horas antes.

– Tudo bem? Aqui quem está falando é o neto da Dona Maria…
– Pois não… Estava esperando a sua ligação. Já está tudo preparado! Onde pegamos a sua avó?
– Ela não morreu…

E então, expliquei o que tinha acontecido. O homem ria feito um doido. Acabei rindo também. Não sei muito bem lidar com a morte, mas para ele a morte era apenas um trabalho. Para mim, era pura tristeza. E mesmo que minha avó não tivesse morrido, a Dona Maria de alguém morreu. Não dava para ficar exatamente feliz.

Quando fomos nos despedir, ele me disse que tinha até uma corbélia gigante com uma faixa dizendo “Saudades eternas, Dona Maria!”, e que não sabia o que fazer com ela.

– Manda entregar no Hospital Santa Cruz. Há uma família lá precisando desse agrado…

-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-

Minha avó se foi de verdade em 05/07/2004. Não sei em que data os fatos acima ocorreram, mas são verídicos.

Saudades de você, querida Dona Maria! Que você e o vovô estejam muito felizes aí no céu!

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Visceral

Nunca seremos nada até aceitarmos que o que há de mais visceral em nós, que nos clama por aceitação e justiça, nosso verdadeiro propósito de vida. Podemos até nos enganar, mas para sempre teremos que viver com nosso eu de mentiras e aparências. Para sempre teremos que viver adormecidos. Dormindo para a vida. Acordados para o que não somos.

Eu venci o meu passado

Eu passei grande parte de minha vida tentando entender alguns sentimentos e reações que eu tinha. Li livros de autoajuda, rezei fervorosamente, mas foi só na terapia, com a ajuda de uma analista, que eu comecei a me entender.

Quando eu tinha 10 anos, minha família descobriu que meu irmão, Felipe Ottolini, tinha um câncer gravíssimo no cérebro. Só havia um tomógrafo em todo o estado do Rio de Janeiro, e somente quando foi realizado o exame, que era uma fortuna na época, é que descobrimos do que se tratava.

Entre idas e vindas, cirurgias, tratamentos (convencionais e alternativos), foram 2 anos até que o sofrimento de meu irmão acabasse. Sim, ele faleceu. Foi um guerreiro, que me ensinou muito sobre força, resignação, e fé. Ele só tinha 8 anos quando foi embora, e eu 12.

Lembro-me de minha mãe chegando para mim e dizendo:

– Fábio, eu não cumpri o que prometi. Não consegui trazer o seu irmão de volta para casa.

Obviamente, nunca culpei a minha mãe pela doença do meu irmão. Ela e meu pai fizeram TUDO que era possível para salva-lo, mas não deu… Não era essa a vontade de Deus. E por mais que eu aceitasse, nunca tive a exata noção do que aqueles 2 anos haviam causado em minha vida.

Eu fiquei com dificuldades de acreditar nas pessoas. Implorava para que ficassem perto de mim. Eu temia novos “abandonos”.

E cheguei assim na minha vida adulta, muitas vezes transferindo para as pessoas esse meu medo, essa minha carência, que sempre foi destinada justamente às pessoas que mais amei e amo na vida.

E na terapia, depois de muito esforço de minha parte, acabei entendendo o quanto isso havia me prejudicado… Não só pela minha carência, mas pela minha vulnerabilidade diante da vontade dos outros, diante da possibilidade de perder quem eu amo.

Algumas pessoas me entenderam. Outras não. Não era de propósito. Nunca foi. Era o meu inconsciente em ação. Era a criança de 10 anos que estava perdendo o seu irmão e que não queria de maneira alguma que isso acontecesse.

Hoje, consciente do problema, muita coisa mudou em minha vida. Eu não posso (e nem quero) controlar quem vai e quem fica. As pessoas estão livres, sempre livres, e eu também. E isso me deixou mais forte do que nunca!

O outro lado da moeda é que a doença do meu irmão também serviu para desenvolver muitas de minhas qualidades. Eu amo de verdade. Eu vivo o dia de hoje como se pudesse ser o último. Não deixo para amanhã os beijos e abraços que posso dar hoje. Dou valor aos pequenos detalhes. Eu sou leal. Eu sou sincero. Amo distribuir sorrisos. Amo cuidar das pessoas. Preocupo-me genuinamente com elas. Amo a vida. Amo viver. Amo estar vivo. Amo e sirvo a Deus.

Não posso mudar o passado. Ninguém pode. Só que posso mudar o futuro, e foi esse o futuro que escolhi para mim. Amo mais do que nunca, principalmente a mim mesmo, e descobri que eu e minha fé em Deus me bastam. Se eu quero companhia? Claro que sim! E vou amar como nunca, porque hoje eu sou como nunca antes fui.

Graças a minha terapia e a minha fé em Deus, hoje eu sou um homem diferente, e sinto no meu coração um desejo enorme de viver a vida em toda a sua intensidade nesse novo nível de consciência. Eu venci (e ainda estou vencendo) o meu passado. Estou livre de minhas “âncoras emocionais”.

Vida, aí vou eu! 🙂