Flashbacks

O tempo quente de mais uma tarde escaldante em Niterói tornava quase impossível uma caminhada no fim de tarde. O suor ardia os olhos. As lentes dos óculos embaçavam. A respiração ofegante do passo acelerado era sufocada por uma máscara. E para piorar, as pessoas não conseguiam andar em linha reta, pois as bicicletas, cachorros e corredores estavam sempre na iminência de causar um acidente. Caos no calçadão da Praia de Icaraí. Puro caos.

Eu a vi de longe conversando com um homem alto, queimado de praia. Resolvi frear meu passo. Eu não sabia quem era e não queria ser invasivo.

– Vem cá, Fabio! Deixa eu te apresentar… Esse é o Guilherme. Guilherme, esse é o Fabio.

Pensei em estender as mãos para um cumprimento, mas isso não seria aceitável em tempos de pandemia. Com a máscara no rosto, sequer conseguia sorrir para dizer algo do tipo “prazer em te conhecer”. Tive que apelar para o “Fala, Guilherme! Beleza?” Ele respondeu de maneira educada e alegre, me convidando para jogar uma partida de tênis de praia. Eu falei que já tinha jogado tênis tradicional e disse que minha filha já tinha pensado em fazer aulas na praia, mas declinei educadamente o convite. “Quem sabe outro dia?”, ele disse. Para minha surpresa, ele chamou um professor (sim, há aulas de tênis de praia na Praia Icaraí) que me entregou um cartão oferecendo suas aulas. Quando ficou sabendo do interesse da minha filha, disse até que ela poderia fazer aulas de cortesia por conta de eu ser “amigo do Guilherme”. Não entendi nada, mas agradeci pela gentileza. Coisa difícil nos tempos de hoje.

Era visível que ela tinha bastante intimidade com o Guilherme. Isso não me incomodava de forma alguma, mas percebi que eles estavam falando sobre um assunto sério. Preferi prestar atenção em um jogo de tênis de praia que estava em andamento. Não tinha nenhum bobo jogando. O nível era bem alto por sinal. Era visível que jogavam com frequência.

Após alguns instantes, ela se despediu do Guilherme e eu acenei. Mais uma vez, ele me convidou para aparecer lá outro dia e apontou para a minha pele: “Você está precisando de Vitamina D!” Soltei uma risada e fomos caminhando. Ele tinha razão. Eu estava precisando de uma cor.

– Gente boa esse cara… Quem é o seu amigo? – perguntei de maneira inocente.

– É meu ex-marido. E sim, ele é muito gente boa.

Fiquei em silêncio. Passou um flashback pela minha cabeça sobre o meu divórcio. Ela não se deu conta, mas eu a invejei por alguns instantes. No fundo, queria que meu casamento tivesse terminado assim, mas sei que não há regras quando o assunto é uma separação. Há pessoas mais maduras, outras menos maduras e… FODA-SE. Eu estava feliz do jeito que eu estava e isso bastava para mim.

– Qual a altura dele?

– 1,92 ou 1,93. Algo assim.

– E agora você dá para um cara com a mesma altura que você? – perguntei sem fazer ideia de qual seria a resposta dela.

– Mesma altura coisa nenhuma! Tecnicamente, eu sou 2 cm mais alta que você. Se eu colocar um salto então… E sim, eu dou para você. Dou com vontade. E altura não é tudo, bobinho, até porque não te chamo para trocar as lâmpadas da minha casa…

Creio que não preciso mencionar o quanto me senti poderoso após ouvi-la. “Eu realmente devo ter os meus paranauês”, pensei.

Chegamos até o prédio dela. O porteiro já sabia o meu nome. Entregou uma encomenda que a aguardava e abriu a porta do elevador. Ela pediu para eu apertar o botão do andar, pois estava com as mãos ocupadas carregando a tal encomenda. Meti as mãos entre as suas pernas e perguntei: “Esse?” Ela deu uma risada e apontou com o rosto para uma câmera dentro do elevador. Eu acenei para a câmera. Pura palhaçada! Rimos juntos. O sorriso dela era aberto, franco, e eu obviamente me ofereci para carregar a encomenda. Cavalheirismo sempre.

– Quer água de coco? – ela me perguntou já se servindo.

– Quero uma cerveja. Tem?

Ela me ofereceu uma Heineken e eu comecei a falar sobre o poder da cerveja na recuperação pós treino, e que os jogadores do Bayern de Munique eram obrigados a beber todos os dias. Pequenas quantidades, claro.

– Deixa eu ver se eu entendi… Você anda, anda, anda e depois toma cerveja para sua plena recuperação pós treino? Você é muito cara de pau!

– Mas é científico! – eu exclamei em minha defesa, fingindo estar indignado.

– E quem disse que seu treino acabou? Pro banho! Agora!

Matei a cerveja em um gole só. Fomos para o banheiro. E lá ficamos por um bom tempo… Realmente, o meu treino não tinha acabado. No final, eu estava exausto. Ela me olhava e ria… “Agora sim, pode tomar quantas cervejas você quiser, cara de pau! Até eu vou beber! Estou precisando me recuperar!”

E lá fomos para a sala. Lynyrd Skynyrd no Spotify. Quem é de Niterói sabe que é quase obrigatório ouvir as músicas da banda. Ela resolveu me acompanhar na cerveja. Cerveja com a tal encomenda que tinham deixado para ela na portaria: uma espécie de cesta de frios que iam do presunto de parma ao queijo brie, passando por torradas, geleias e um mix de nuts. Tive outro flashback. Esse mais prazeroso, que me roubou um sorriso interno. Lembranças, memórias e histórias. Havia um dantesco acervo delas dentro de mim e novas eram criadas a todo instante. Eu estava vivo, mais vivo do que nunca.

Conversa vai, conversa vem, e tive que tocar novamente no assunto.

– Dadas as devidas vênias, a doutora deveria saber que a cerveja é mencionada até mesmo no Código de Hamurabi…

– Devo ter faltado a essa aula. Provavelmente, estava tomando cerveja com o pessoal da faculdade – e começou a rir sem parar. Ela estava começando a ficar alta e eu apenas no início de minha “recuperação pós treino”.

No total, foram umas 15 latinhas de cerveja. Ela desabou no sofá com a cabeça no meu colo e o cafuné a fez dormir. Nem parecia aquela mulher brava que se mostrava nos tribunais da vida. Ela era única e ao mesmo tempo como outra qualquer, querendo ser tratada como uma mulher de verdade. Apenas isso. E sim, eu sabia que a minha cara de pau ajudava muito nesse processo. Não era algo pensando ou raciocinado, que fique claro. É o meu mais puro instinto.

Depois de um certo tempo, me levantei para ir embora. Ela nem se mexeu. Já estava me preparando para ir em silêncio, quando ela disse:

– Vai embora sem se despedir?

Fui no quarto e peguei um travesseiro e uma coberta para ela. O ar condicionado estava implacável. Depois de um beijo, disse bem baixinho no ouvido dela:

– Se me arrumar uma escada, eu troco até as lâmpadas, tá?

Ela me deu um beijo sôfrego seguido de uma risada silenciosa, mas que dizia tudo. Tudo. Dessa vez, não esperou nem eu chegar em casa. Simplesmente dormiu e eu simplesmente dormi também. O treino foi realmente exaustivo.

Clichê

– Ah! Deixa disso… Ainda nem chegamos na metade…

– Você é doido, menino! Já fomos e voltamos esse calçadão duas vezes!

Ser chamado de menino na minha idade é um privilégio. E sim, eu sou viciado em andar. Há dias em que ando 20 Km. Fone de ouvido, músicas escolhidas a dedo no Spotify (do clássico ao metal), e caminhadas que parecem não ter fim. O visual da praia, o sol, o suor, a brisa do mar e até mesmo o cansaço me ajudam a pensar sobre a vida, refletir sobre o passado, encontrar a melhor maneira de viver o presente e planejar o futuro. É sem dúvida alguma um dos maiores prazeres cotidianos.

Deixamos o calçadão e fomos até a casa dela. Antes de subir, pedi ao porteiro a mochila que eu tinha deixado na portaria. “Vim preparado” – afirmei cinicamente. “Cara de pau” – foi a resposta que ela me deu enquanto encarava o porteiro, que fingia que não estava entendendo nada. Confesso que, no fundo eu me sentia orgulhoso de ser chamado de cara de pau. Nas circunstâncias, parecia que a minha cara de pau era realmente muito bem vinda. Era a faísca, talvez a pimenta, que só incendiava ainda mais os nossos encontros despretensiosos e nem por isso menos sôfregos.

Mas ela também tinha as suas armas. Nas audiências, comparecia sempre impecavelmente vestida. Unhas bem feitas com tonalidade discreta, óculos daqueles que parecem não ter armação, maquiagem na medida certa e com o cabelo preso em uma espécie de coque complexo. Cheguei a perguntar o porquê do cabelo preso nas audiências e ela me respondeu de uma maneira que nunca esqueci. Tirou os óculos, soltou o cabelo, olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Nos tribunais da vida, aprendi que ser discreta é algo bem vantajoso. No mundo machista em que vivemos, antes de ser mulher, preciso ser uma advogada.” Não a culpo. Ela realmente é daquelas que passa e faz pescoços virarem, ainda mais com os cabelos soltos.

Ela foi tomar banho e eu fui para a varanda ver a rua. Com um copo d’água nas mãos, fiquei admirando o vai e vem das pessoas e dos carros até que, mais uma vez, ela me deu um susto. Era a sua especialidade.

– Vai tomar banho, vai… Há coisas melhores para você ver aqui dentro de casa…

Saí correndo para o chuveiro. Tomei um banho caprichado. Eu sabia o que me esperava. Uma mulher linda e cheirosa, enrolada em uma toalha, me apressando para tomar banho? Certeza não era para vermos uma filme.

– Gosta de morangos?

Foi a pergunta que ouvi ao sair do banho. Eu disse que sim balançando a cabeça, atônito diante do que eu estava presenciando. Ela estava nua, sentada na beirada da cama, comendo morangos. As frutas passeavam pelo seu corpo e terminavam na sua boca. A minha garganta ficou seca. Eu fiquei paralisado e resolvi observar a cena por mais alguns instantes, enquanto as frutas eram literalmente vítimas de abuso: mordidas, lambidas, beijos, chupadas, e passadas com uma sensualidade absurda pelo seu corpo e por entre suas pernas escancaradas. Ela estava toda melada e eu tinha certeza de que os morangos não eram os únicos responsáveis por aquela situação, sobretudo por conta dos seus gemidos e da sua pele completamente arrepiada. O corpo dela brilhava refletindo a meia luz do abajur.

– Vai ficar só vendo?

Eu não respondi. Ela estava gostando do que estava fazendo. Ela estava se exibindo. Sim, era um show privê. Meu. Só meu. Todo meu.

– Agora, você vai ter que vir até aqui… Acabei de perder um morango…

Suas mãos entre as suas cochas indicavam com clareza por onde eu deveria começar a busca. Tive que intervir. Fui obrigado.

Acho que nunca comi tantos morangos na minha vida. Os lençóis manchados, tudo revirado… Havia morangos no meu cabelo, no dela também… Enfim, outro banho se fez necessário. Água morna, novos gostos, novos cheiros… Começamos tudo de novo. Ela era imparável e isso me tornava impossível.

O espumante rosé que eu levei (eu disse que tinha ido preparado) fez aqueles momentos para lá de especiais parecerem clichê. Eu não me importava. Ela também não. Lembramos do filme “Nove e Meia Semanas de Amor”, com a Kim Basinger e o Mickey Rourke, e caímos na gargalhada. Não era muito difícil rir ao lado dela.

Ainda assim, fiquei com fome. Os morangos não foram suficientes. Pensamos em pedir algo, mas acabei lembrando que as vans que vendem lanches haviam voltado a funcionar naquela semana depois da liberação da Prefeitura. Ficaram 5 meses impedidas de trabalhar. Eu entendia os motivos da proibição, mas nem por isso deixava de ser algo trágico.

– Bora comer um cachorro quente podrão? – sugeri, eufórico.

E lá fomos nós. Salsicha, milho, ervilha, uva passa, azeitona verde, ovo de codorna, maionese, mostarda, ketchup, batata palha e queijo ralado. Cada cachorro quente era literalmente uma bomba calórica absurdamente gostosa! Quando terminamos, demos uma volta no quarteirão para fazer a digestão e voltamos para a casa dela.

– Amanhã eu acordo cedo. Você fica? – disse ela com os olhos pregados, visivelmente cansada.

– Já passamos dessa fase, né? Sei que você quer dormir… Vou para casa terminar de ver uma série no Netflix. Se eu aguentar, claro… Você acabou comigo – ao ouvir isso, a sua fisionomia mudou: debochada, sorridente e vitoriosa, e assim disse tudo que precisava ser dito.

Ela me deu um beijo e esperou eu entrar no elevador. Aguardou eu chegar em casa e mandar uma mensagem dizendo que tinha chegado bem. Dormiu logo em seguida. E eu fui escrever… Melhor assim para não deixar de registrar nenhum detalhe.

Água

O dia nublado não me impediu de andar. O suor escorria pela minha face e fazia com que meus olhos queimassem como se estivessem literalmente em chamas. Sede. Máscara. Quiosques fechados. O calçadão da Praia de Icaraí definitivamente havia mudado. “Até quando? Será que algum dia tudo será como antes?”, eu me perguntava, e entretido nessas e em outras tantas perguntas, muitas delas sem resposta, eu continuava a andar.

Sem me dar conta, percorri 12 Km. Andar é meu vício. Acabei ficando com sede. Eu precisava beber alguma coisa. Água de coco era o meu desejo, mas onde comprar? Fui até uma lanchonete só para me dar conta que havia esquecido meu cartão de crédito em casa. “Merda!”, pensei. E agora?

O prédio dela era do outro lado da rua, mas aparecer sem avisar parecia arriscado. Resolvi usar meu telefone celular para cumprir o seu propósito original: telefonar.

– Sabe o que é? Estou com sede e em frente a sua casa. Esqueci meu cartão de crédito em casa… – disse eu meio sem jeito, só para ser interrompido.

– O velho golpe do cartão de crédito… Deixa de frescura e sobe! – disse ela às gargalhadas. Não me contive e ri também. Inevitável.

Entrei no elevador e me dei conta que, além de tudo, estava completamente descabelado, mas enfim… Já não tinha mais jeito. Eu precisava mesmo era de algo para beber e com certeza também de um banho! Tinha me esquecido desse “detalhe”.

Toquei a campainha e esperei um pouco. Nada dela atender. Toquei de novo, e percebi que a porta estava entreaberta. Novamente me flagrei no ritual do tirar o tênis, tirar a máscara, passar álcool em gel nas mãos, deixar o álcool em gel cair no chão, deixar o telefone cair no chão, passar álcool em nas mãos novamente… Essa pandemia realmente tinha deixado o básico do elementar muito mais difícil.

Entrei procurando-a. Ela me deu um susto! Estava atrás da porta, sorrindo, enrolada em uma toalha branca.

– Eu estava indo tomar banho quando você me ligou. Está aqui sua água. – disse-me ela com um sorriso aberto, enquanto estendia sua mão para me oferecer um copo cheio de água gelada. Uma mulher linda, me oferecendo um copo de água enrolada na toalha… Miragem no meio do deserto? Não. Era real. Estava acontecendo.

– Não quero atrapalhar… Vá lá tomar seu banho. – falei enquanto mirava o teto, completamente maravilhado com o prazer de um simples copo d’água.

E, de repente, ela cutucou minhas costas. Não disse nenhuma palavra. Apenas me cutucou. E quanto eu me virei para trás, não havia mais toalha. Ela estava nua. O sorriso continuava estampado em seu rosto. Apenas me estendeu a mão e disse:

– Estranha coincidência… Parece que você também está precisando de um banho! – e foi me guiando até o banheiro, enquanto eu reparava nas suas curvas. Havia um gingado, um algo diferente. Ela é muito sensual. Eu tenho certeza de que ela tem certeza disso.

Fui me despindo sem pressa. Ela dentro do box, de porta aberta, já com parte do corpo molhado, e eu em busca de uma pasta de dentes ou algo assim. Havia Listerine em cima da pia! Minha salvação! Ela riu alto com meu gesto inusitado.

– Sempre pensando nos detalhes… – ela me disse ao me puxar para dentro do box.

– Mas não são os detalhes que fazem toda a diferença? – respondi já com minhas mãos passeando pelo seu corpo. A resposta dela foi breve e veio no pé do meu ouvido, quase que como uma confissão:

– Safado…

O banho não foi muito rápido. Até porque começou como banho e virou algo mais. Muito mais. E continuou no quarto, o que eventualmente nos levou de volta para o banheiro, para só então irmos para a sala. Terminei como cheguei: com sede. Tive que pedir outro copo d’água.

Decidimos também pedir uma pizza. Eu efetuei o pedido por um aplicativo. Obviamente, a sacana teve que me perguntar se eu iria dizer novamente que esqueci o cartão de crédito em casa para ela pagar a pizza… Tivemos uma crise de risos. Foi difícil, mas conseguimos escolher a pizza: Zucchine.

Arrumamos a mesa (mentira – ela arrumou), e foi o tempo certinho da pizza chegar. Falamos sobre a vida, sobre alguns de seus processos, sobre minha vida louca de consultor, e não pude deixar de perceber o quão atenta ela estava ao que eu dizia. Ela fazia questão de ouvir palavra por palavra. E eu pagava na mesma moeda, claro, até porque ela realmente falava coisas muito interessantes. Não era um favor ouvi-la. Ela é uma especialista na sua área de atuação.

– Escuta… Você me diverte, sabia? Você vai do papo descontraído ao sério em segundos… Me olha nos olhos. Fala com desenvoltura. Você é bem diferente do que se encontra no mercado… – disse ela com um sorriso disfarçado.

– Sinceramente? Há muitos como eu. É só saber onde procurar… – disse eu diante de tantos elogios explícitos, quase que sem graça.

– Esse tipo de coisa a gente não procura. A gente simplesmente acha. – E me deu uma piscada enquanto se levantava para levar os pratos até a pia, usando apenas uma camiseta branca de algodão. Básica. Chique. Na dela.

Fiz questão de lavar os pratos (odeio lavar louça!). Fomos para o sofá. Barriga cheia, uma brisa agradável. Ela queria terminar de ver Dark, e eu já tinha desistido da série há tempos! Não disse isso, claro. Apenas adormeci na base do cafuné.

Antes de ir embora, tomamos um café. Ela acabou confessando que Dark a estava deixando entediada, mas que “iria ver até o final para poder criticar com propriedade”.

Perguntei se ela queria mais pizza. Eu queria. Enquanto eu esperava o Uber, peguei mais uma fatia com uma toalha de papel. Antes de sair, dei um abraço demorado e um beijo nela, e perguntei:

– Se eu tiver sede novamente, sem cartão de crédito, perto de sua casa, posso voltar outro dia?

– Sede ou fome. Eu sou muito caridosa! – e explodimos em uma gargalhada que ecoou pelos corredores do edifício.

Lagunitas

O sábado chegou leve depois de uma noite muito bem dormida: quase 12 horas de sono sem nenhum pit stop. Há tempos um sábado não chegava com um compromisso para a noite. E não, não era uma festa infantil como de costume. Era um encontro para o qual eu havia sido convidado. Algo pessoal e intransferível. Eu já estava desacostumado e só de pensar nisso eu sorria… Meu coração acelerava!

Mandei uma mensagem para ela pelo Telegram dando bom dia. Perguntei se eu deveria levar algo para o nosso encontro à noite e a resposta foi firme: “Não. Você é meu convidado. Você vem, né?” Tudo que fui capaz de dizer foi um “Óbvio!”, que foi respondido com um emoji de sorriso. Eu consegui vê-la sorrindo do outro lado da tela. Eu também sorri.

Por algum motivo, ainda assim eu sentia que tinha que levar alguma coisa para o nosso encontro. Eu não sabia exatamente o quê. Perto da casa dela, havia um quiosque que vendia flores. Comprei um buquê bem colorido de flores do campo. Gosto de rosas, mas me pareciam muito formais para o momento. Eu queria algo bem informal e flores do campo sempre me passaram essa sensação. Eu precisava compartilhar a minha alegria.

19:55. Eu estava cinco minutos adiantado. Puxei conversa com o porteiro. Dei boa noite para um casal de idosos, e exatamente às 20:00 pedi para que minha presença fosse anunciada. Ele sorriu e disse para eu subir. Não dava mais para fugir, pensei eu, e também pensei que tudo que eu não queria era fugir. Eu sentia frio na barriga. Estava parecendo um adolescente. Mais uma coisa para me fazer sorrir.

Não precisei tocar a campainha. A porta já estava entreaberta. Eu ofereci as flores a ela, ou melhor, pedi para segura-las porque eu tinha que tirar os sapatos, tirar a máscara, passar álcool em gel… Coisas da pandemia.

– São para você – disse eu enquanto entrava só de meias sala a dentro para abraça-la. Abraço daqueles de urso, sem pressa. Sem nenhuma pressa. Tempo suficiente para o perfume dela ficar em mim. Nada doce. No ponto. Na medida. Aliás, ela é toda na medida, mas vocês não precisam saber disso.

A cozinha era do tipo americana, e me sentei em um banco que me fazia sentir em um bar (saudades disso!!!). Ela preparava algo para comermos enquanto falávamos sobre a nossa semana. Antes que eu me desse conta, ela me ofereceu um copo de cerveja. Um copo apropriado para uma IPA. E o cheiro também também era de uma IPA. A temperatura perfeita. Como assim?

– Esqueceu que estou no seu Instagram? Lagunitas! – disse ela enquanto me mostrava a garrafa meio que fazendo pose de modelo. Eu decidi parar de sorrir de vez em quando e ficar só em um sorriso contínuo. Eu também estava recebendo flores naquele momento. Certeza.

– Mas vem cá… Esse encontro não era para ser sem álcool? Pelo menos foi essa a impressão que eu fiquei… – perguntei.

– Deixa de ser bobo, vai… O problema era a Tequila. Hoje, você vai de cerveja e eu vou de vinho. Assim, não vamos poder culpar a bebida por qualquer coisa que aconteça… – disse ela com a cara mais cínica do mundo.

Não me aguentei. Levantei rapidamente e a segurei pela cintura. A beijei com fúria. Ela merecia. Eu também. Ela tentou dizer algo. Eu a calei com beijos e a fui conduzindo até o sofá.

– Mas eu ainda não terminei a tábua de frios… – disse ela, com a respiração ofegante.

– E por que não podemos começar pela sobremesa? – retruquei.

E ela se entregou por completo. Eu também. Viramos um só de todos os jeitos e formas. De vários jeitos e formas. O perfume dela virou o meu perfume. O meu perfume virou o perfume dela. As roupas ficaram pelo chão. Os nossos desejos no corpo um do outro. Incrível. Inesquecível. Maduro. Safado. Quente. Suado. Sem pressa.

– E a tal tábua de frios? Bateu uma fome… – perguntei eu depois de um tempo. Eu tinha perdido a noção do tempo, inclusive.

– Fique aqui… Deixa que eu eu vou buscar. – ela me disse, com os olhos brilhando, absolutamente radiante. A silhueta de seu corpo nu caminhando até a cozinha era deslumbrante. Simplesmente deliciosa.

– Você está me acostumando mal, sabia? – perguntei.

– Estou conseguindo atingir o meu objetivo, então! – disse ela em tom provocador.

Mais uma cerveja, mais uma taça de vinho. A conversa corria leve e solta. Piadas provocantes e pausas… Longas pausas onde as bocas se ocupavam com assuntos mais carnais e de forma alguma menos importantes. Era uma troca intensa de palavras, fluidos, energia, vida. Tudo muito real e intenso. Todos os sentidos mais do que aguçados.

Só depois de muito tempo me dei conta que havia uma playlist tocando. Anos 1980. The Smiths, The Police, The Cure, The Cult, Aerosmith, Bon Jovi. Tudo de bom. Tudo muito, muito bom. Cheguei a pensar que havia algo errado de tão perfeito que tudo estava, mas de dentro de mim surgiu uma voz muito contundente que acabou com todas as minhas dúvidas: “eu mereço”. E é verdade. Eu reconheço. Eu mereço.

Ela adormeceu nos meus braços. Me dei conta de que já era Dias dos Pais. Peguei o telefone para enviar uma mensagem para a minha filha dizendo que eu chegaria mais tarde, mas ela interveio.

– Fica? – disse ela com um olhar irrecusável.

E eu fiquei (que sofrimento ficar!). Avisei a minha filha que chegaria pela manhã. Respondi a um inquérito antes de desligar o telefone (a relação da minha filha comigo é algo maravilhoso!), que terminou com um emocionante “Feliz Dia dos Pais!”

O dia começou como a noite terminou. Creio que não preciso entrar em detalhes. Ganhei uma escova de dentes e uma toalha. Tomamos café juntos. Ela foi visitar os pais. Eu fui me encontrar com a minha filha. Por volta das 16h00, uma mensagem no meu Telegram: “Feliz Dia dos Pais! Final de semana que vem tem mais!”. Nos falamos por 5 minutos ao telefone. Eu liguei. Ela precisava saber o quanto estava me fazendo feliz.

Dá para ser melhor do que isso? Não sei. Farei de tudo para descobrir. Prometo. Eu prometo para mim mesmo.

Tequila

Nós olhávamos o pôr do sol da marina. Nas mãos, uma garrafa de Tequila daquelas que são vendidas a preço de ouro, muito embora sejam de prata (sem trocadilhos). Na minha cabeça, o momento pedia nada menos que uma añejo. Paciência.

“Vamos ver que aguenta mais shots?”, com direito à mãos cheias de amendoim e água entre um shot e outro, claro. Combinado.

Chegamos até o terceiro shot falando da vida, de assuntos completamente aleatórios. O sol já havia se retirado. Havia alguns mosquitos, mas hey… Histórias reais não são perfeitas.

No terceiro shot, paramos. A minha responsabilidade era grande. Eu tinha que, no mínimo, empatar. Felizmente, ela disse que não sabia como a Tequila agia no corpo dela, e achou que estava tudo indo bem demais. Fácil demais. Fascinante demais. Eu só concordei. De fato eu estava sentindo o mesmo.

O vento fazia seu cabelo castanho abraçar sua face. Deixava-me hipnotizado de alguma forma. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar, e ouvia atentamente cada palavra que ela dizia. Cada sílaba, cada vogal, cada consoante… Eu ouvia também a respiração dela, e o vento gelado no tímido inverno do Rio de Janeiro fez nossos corpos se aproximarem por instinto. Sobrevivência, achava eu. Eu estava enganado.

Sem perceber, eu estava a poucos centímetros da sua boca. Lábios carnudos, cheios de vida. Deles saíam palavras que me embebedavam, me hipnotizavam. E de repente me dei conta que meu corpo todo era só ouvidos. Ouvidos só dela. Querendo ou não eu era dela pelo menos naquele momento, muito embora não me desse conta disso.

E eu tentei roubar um beijo, muito embora não seja possível roubar aquilo que já é seu. E ela retribuiu. Os hálitos inflamáveis explodiram, até que sua mão direita segurou o meu queixo e ela me disse: “Se importa se continuarmos isso sem a Tequila?”

Eu concordei, claro. Pensei que havia avançado algum sinal vermelho, mas continuamos a conversar. Depois de algum tempo, cada um foi para a sua casa de Uber, e eu achei melhor não tocar no assunto, pelo menos não naquela noite. Melhor deixar para pensar nisso depois da Tequila ir embora do meu corpo.

No domingo, decidi fingir que nada havia acontecido. Eu lembrava do beijo, dos cabelos, dos lábios carnudos, de tudo, mas achei melhor afundar meus pensamentos e desejos em alguma série do Netflix. Qualquer uma. Melhor. Menos perigoso.

Na segunda-feira, ela me ligou e eu não atendi. O dia foi muito corrido. Sem perceber meu telefone acabou ficando no modo silencioso, e tudo que me restou foi enviar uma mensagem via Telegram dizendo que eu não tinha me dado conta da ligação dela. A minha mensagem foi visualizada e ignorada com sucesso.

Hoje, terça feira pela manhã, o telefone tocou novamente. Era ela e eu estava em uma reunião de trabalho. Por instinto, coloquei o meu headset no mudo e atendi a ligação.

Ela não me disse oi. Só me disse o seguinte: “Sábado, na minha casa, sem Tequila?” Percebi o tamanho do peso que eu carregava em minhas costas e disse um firme sim. Eu merecia o sim. Ela também. Voltei para a reunião de trabalho com frio na barriga. Radiante. Feliz.

Ainda é terca-feira. No sábado, não vai haver Tequila. Só ela. E no que depender de mim, vou tomar um porre disso. Nada melhor que se embebedar sem uma gota de álcool sequer.

Minha avó morreu mais de uma vez

– Lamento muito pela sua perda. Já está tudo preparado para o sepultamento da Dona Maria.

Eram 5:30 da manhã de um dia escuro e chuvoso de inverno. Pelo “telefone vermelho”, recebi esta triste notícia. Eu chamava de “telefone vermelho” porque era um daqueles usados apenas para me conectar a Internet, e também dado para contatos especiais, tais como a clínica geriátrica onde minha avó estava internada com várias complicações decorrentes de uma Paralisia Supranuclear Progressiva (doença degenerativa do cérebro).

Eu não sabia com quem havia acabado de falar no telefone. Se a pessoa me falou o nome, eu simplesmente não prestei atenção. Sabia apenas que era um homem. Em prantos, vesti-me rapidamente e me preparei para sair de carro. Queria ir até a clínica da minha avó para saber como dar a notícia para minha mãe.

– Filho, onde você vai?
– Uma emergência do trabalho. Volto logo.

Entrei no meu carro e fui em disparada para a clínica. Ainda era noite. Toda a minha infância e minha adolescência passavam pela minha mente como que em uma espécie de filme. Deu saudades do pudim, do bacalhau, do cafuné para eu dormir, dela coçando minhas costas… Enfim. Minha avó tinha acabado de falecer.

Toquei a campainha da clínica e uma enfermeira com os olhos marejados veio me receber.

– Em que posso ajuda-lo?
– Sou neto da Dona Maria…

A enfermeira não conteve as suas lágrimas.

– Ela não está mais aqui, meu querido… A levaram para o Hospital Santa Cruz, onde ela acabou falecendo…

Entrei no meu carro e fui feito um louco para o hospital. Estava tudo se materializando e fazendo sentido. Meu irmão havia morrido naquele hospital. Agora, era a vez da minha avó. Como eu iria contar aquilo para a minha mãe? Será que meu avô estava esperando por ela de braços abertos no céu?

Na recepção, me confirmaram que uma Dona Maria tinha falecido, e que o corpo dela estava nos fundos do hospital, em uma espécie de capela, aguardando a funerária na presença de “alguns parentes”. Parentes? Como alguém poderia ter chegado ao hospital antes de mim? Não importava… Ela estava morta.

Dirigi-me até o local indicado, e de longe vi um corpo sobre uma maca, coberto por um pano branco. Meu coração gelou. Era verdade… Minha avó tinha morrido.

Lentamente, entrei na capela improvisada. Chorando, percebi que não conhecia nenhuma das pessoas que lá estavam. Nenhuma. Estavam todas em prantos, e decidi me aproximar da maca para dar um beijo na minha avó… Sei lá! Talvez toca-la e sentir que a pele dela estava quente, e que tudo não passava de um grande engano…

O cadáver estava coberto. “Seria Lázaro?”, desejei. Respeitosamente, levantei o manto que cobria o corpo e então…

– PUTA QUE PARIU! NÃO É A MINHA AVÓ!

Eu disse isso em voz alta. Silêncio absoluto dentro da capela. Todos olhavam para mim. Eu sorria! Estava feliz! Pedi desculpas e me retirei. Afinal de contas, quem ligou para a minha casa e por quê? Onde estaria a minha avó?

Voltei para a clínica geriátrica. Outra enfermeira me atendeu. Novamente, perguntei a respeito da Dona Maria.

– Você não é o neto da Dona Maria que vem sempre aqui? O que você está fazendo aqui essa hora?
– Disseram que minha avó tinha morrido. Vim aqui, e me disseram que ela estava no Santa Cruz…
– Sim, faleceu uma Dona Maria, mas não é a sua avó. A sua avó está bem. Está dormindo.
– Se incomoda se eu ver com meus próprios olhos?
– De maneira alguma!

E lá estava minha avó. Debilitada, doente, mas viva. No meio de uma explosão de sentimentos, a raiva falou mais forte… Talvez eu não tenha mais bacalhau ou pudim, mas jurei que pegaria o responsável por isso na porrada!

– Quem foi o FDP que ligou para a minha casa dizendo que ela tinha morrido? Quem foi? Vou matar esse cara!
– Como assim? Ligaram para sua casa dizendo que sua avó tinha morrido?
– Sim… Quero falar com esse cara AGORA! Só vocês aqui da clínica tem o telefone para o qual ligaram. Não adianta nem tentar me enrolar!
– Vamos lá na recepção, então.

Eu estava furioso… Queria pegar de porrada o FDP que tinha me dado tal susto. Será que não sabem nem para qual família devem ligar quando falece alguém? Entretanto, achei estranho que na tal sala havia apenas duas mulheres. Mudança de turno, claro. O FDP fugiu! Está escondido!

– Senhor, o único homem que ficou aqui durante a noite e que faz parte da equipe é o segurança, e posso garantir que ele não ligou para a família da Dona Maria. Quem faz as ligações desse tipo sou eu, e sempre na presença do dono da clínica. Aliás, aqui está a ficha da falecida…

Olhei a ficha. Realmente, não era a ficha minha avó. O que teria acontecido, então?

Voltei para casa mais calmo depois de pedir desculpas à enfermeira e a toda equipe. Imediatamente, acordei minha mãe e expliquei tudo que tinha acontecido. E para minha surpresa, minha mãe caiu na gargalhada.

– É pegadinha isso, mãe? Como podem saber o nome da vovó e ainda por cima ligarem para aquele telefone lá do quarto?
– Filho, eu não sei exatamente o que houve, mas eu imagino. Eu ontem estive com o Vereador XPTO, e ele, que era muito amigo do seu avô, garantiu que pagaria pelo sepultamento da sua avó quando o momento chegasse. Fazia questão disso. Na minha frente, ligou para uma funerária e deu ordens expressas para não cobrar nada para um eventual sepultamento da minha mãe. Deu o telefone do seu quarto em caso de emergência. O homem deve ter entendido errado e deve ter achado que sua avó já tinha morrido!
– Será? Você tem o telefone de lá? Deixa eu ligar…

Fui para o meu quarto e liguei para a tal funerária. A voz que atendeu o telefone era conhecida. Era a mesma que tinha me dado a notícia do falecimento de minha avó horas antes.

– Tudo bem? Aqui quem está falando é o neto da Dona Maria…
– Pois não… Estava esperando a sua ligação. Já está tudo preparado! Onde pegamos a sua avó?
– Ela não morreu…

E então, expliquei o que tinha acontecido. O homem ria feito um doido. Acabei rindo também. Não sei muito bem lidar com a morte, mas para ele a morte era apenas um trabalho. Para mim, era pura tristeza. E mesmo que minha avó não tivesse morrido, a Dona Maria de alguém morreu. Não dava para ficar exatamente feliz.

Quando fomos nos despedir, ele me disse que tinha até uma corbélia gigante com uma faixa dizendo “Saudades eternas, Dona Maria!”, e que não sabia o que fazer com ela.

– Manda entregar no Hospital Santa Cruz. Há uma família lá precisando desse agrado…

-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-

Minha avó se foi de verdade em 05/07/2004. Não sei em que data os fatos acima ocorreram, mas são verídicos.

Saudades de você, querida Dona Maria! Que você e o vovô estejam muito felizes aí no céu!

como_fazer_coroa_branco

Save

Inquietude

Na segunda-feira, dia 15/04/2019, durante uma breve caminhada, as minhas velhas e queridas sandálias Havaianas soltaram as tiras. Foram 10 anos de um relacionamento intenso, vencido pelo cansaço. Ela descansou em paz.

Piadas deixadas de lado, me vi descalço, no meio de uma rua movimentada de minha cidade, e fiquei sem saber o que fazer. Até que me dei conta que havia sandálias bem perto de mim, penduradas em um mostruário na frente de uma farmácia.

Mesma cor, mesmo número, e segui em frente. Foi fácil. Eu tinha um cartão de crédito. Apenas mais um causo para ser contado, não fosse por um pequeno detalhe: eu não era o único sem sandálias naquela rua. Logo na saída da farmácia, havia um mendigo descalço. Não era eu, felizmente, mas isso me incomodou de uma forma que eu não consegui entender no momento.

Em casa, me dei conta do quanto foi fácil resolver a questão. Talvez menos que cinco minutos. E o mendigo? Resolveu a sua questão? Tinha consciência de que havia um problema para ser resolvido? Acostumou-se a viver sem uma solução? Por que eu tinha uma sandália e ele não?

Eu não consegui obter uma resposta minimamente satisfatória. Tentei pensar em todas as “possibilidades possíveis”, e me deparei com uma verdade aterradora: eu era um privilegiado. Eu tinha. O mendigo não tinha. E o mundo seguia em frente assim mesmo. Era assim.

E me senti devedor do mundo. E me lembrei que pago meus impostos, que também deveriam servir para combater a mendicância, a pobreza. E me lembrei das discussões religiosas e políticas sobre o assunto. Só que no meu coração não funciona na base do “eu já fiz a minha parte”. Há uma parte muito forte em mim que não se contenta em ver o errado, mesmo que eu tente fazer ou já tenha feito a minha parte. Eu sou um inconformado.

Dizem que a maturidade e a sabedoria vem com o tempo. Acredito, mas a minha inquietude só aumenta. É preciso fazer algo sobre isso. Não sobre a minha inquietude (eu a aceito como uma qualidade), mas sobre as mazelas do mundo, inclusive as minhas. A questão não é sentir culpa, mas como cidadão do mundo, é óbvio que carrego alguma.

Há um chamado dentro de mim para fazer coisas maiores do que já fiz e faço. Ainda estou tentando decifra-lo. Não quero calçar o mendigo. Quero mesmo é acabar com a mendicância. Sonho grande demais? E quem disse que tenho que sonhar pequeno?

Vou fazer a minha parte em pequenas doses. Em troca eu só quero uma coisa: nada. Para mim, ajudar os outros é algo egoísta. Ajudo porque me incomoda. Ajudo porque isso vicia. Amenizar a dor do outro ameniza as minhas dores também. É isso. Foi o que uma sandália arrebentada me ensinou.

Em frente, sempre. Mais inquieto ainda.

fernando_guifer_a_inquietude_da_alma_e_o_que_nos_permit_ld304g6

Júlia e Eu (piloto)

A primeira vez que fui à praia com a Júlia, fiquei bem tenso. Afinal de contas, ela tinha vinte e seis, gostava de malhar, e lá estava eu com aquela barriguinha de chopp. Para piorar um pouco, vi que os amigos dela, em sua grande maioria, também eram da dita geração saúde.
 
– Esse aqui é meu namorado. – disse ela.
 
E os amigos e amigas dela, um a um, vieram falar comigo. Quando dei por mim, não parecia sequer haver algum tipo de diferença de idade. Estavamos todos no mesmo barco, rindo e comendo açaí (odeio açaí!). Meus 46 anos não eram importantes ali.
 
Mas algo me consumia… Até então, não éramos namorados. Nunca havíamos conversado sobre isso. Pensei em perguntar o porquê, mas não achei necessário. Ela tinha me assumido na frente de todos os amigos. No mínimo, ela queria que eu me sentisse bem ali. Ela se importava comigo.
 
E eu a via conversando com os amigos. Ela usava um óculos bonito, estava bem bronzeada, e o vento ajudava com o movimento dos cabelos. Era como se eu estivesse hipnotizado. Não era como se: eu estava.
 
Em certo momento, ela disse que andaria com as amigas pela areia, rente ao mar. “Será que ela vai com essa bunda de fora? Lógico que vão olhar!” E ela foi com a bunda exposta ao tempo. O corpo dela chamava a atenção, mas engoli as emoções daquele instante. Como é mesmo que dizem? Eu precisava ser maduro.
 
E depois de uns 15 minutos, Júlia voltou com um milho cozido. Ofereceu-me e tal. Não aguentei.
 
– Não gostei de você andando como a bunda de fora… – disse eu olhando para o mar
– Como assim? – disse ela com ar de reprovação. Parecia que estava furiosa.
– Sei lá, eu… – ela se levantou e se afastou, deixando o milho nas minhas mãos. Naquele momento, o milho se transformou em um pepino para mim, claro.
 
Paramos de nos falar ali na praia. Ela me fitava distante. Aliás, não dava para saber ao certo. Malditos óculos escuros!
 
E o fim de tarde foi chegando… Fomos até o carro, e ela ficou parada do lado de fora, como se esperasse alguma coisa. Quando abri o vidro para perguntar o que era…
 
– Que eu saiba, é um hábito seu abrir a porta para eu entrar. – disse ela com evidente sarcasmo em sua voz.
 
Saí do carro, abri a porta, e ela me agradeceu. Júlia ligou o rádio em uma estação aleatória. Fomos mudos até a casa dela.
 
Estacionamos o carro e subimos. Ela abriu a porta, e imediatamente após entrarmos, ela me jogou contra a parede com força e me beijou profundamente.
 
– NUNCA MAIS desconfie da minha lealdade. NUNCA! NUNCA te dei motivos para isso. – disse ela com o dedo em riste, enquanto discretamente me guiava para o banheiro.
 
– Olha, eu queria dizer… – e não consegui continuar a frase. Ela me empurrou para dentro do box. Ficou nua. Ligou o chuveiro.
 
– Agora, me fode! – disse ela de maneira bem resoluta.
 
Obviamente, obedeci.

Algumas Merecem

Uma história verídica, ocorrida na década de 1990. Os nomes dos personagens foram omitidos propositalmente.

Algumas Merecem

Ontem à noite eu comprei um botão de rosa vermelha
E a ofereci para alguém muito (supostamente) especial.
Como as palavras me faltavam naquele belo e vívido momento,
Achei que a rosa resolveria meu dilema passional.

Cartola já falava das rosas muito antes de mim
E as evidências da vida não posso negar:
Rosas são ponte Rio-Niterói de razão e sentimento,
Que levam consigo o que o medo prefere ocultar.

Esperava uma resposta positiva, um sim,
Mas um grande silêncio pairou eterno no ar.
Foi por demais triste aquele eterno momento
Pensei em fugir, mas não tinha como para casa voltar.

Sim, eu não ouvi nada e não estava surdo.
Meu Deus, alguém poderia por favor me elucidar?
Existe vida após a morte, outras reencarnações?
Demorarei vidas para esquecer a indiferença, o desprezar.

Eis que surge um nobre, rico e material adversário,
Digno da atenção da minha musa, assassina loura, vulgar.
Com poucas palavras e muito estilo, a convence:
“- Nós precisamo e devemo se amar.”

Até aí nada demais no amor da bela e a fera,
Mas uma parte importante da estória ainda está por se contar:
No mesmo bar aonde estávamos naquele exato instante,
Trinta minutos antes, estavam meu adversário e a sua respectiva titular.

Minha fogosa e cheia de memória mulher dos meus sonhos e pesadelos
Havia visto a titular com meu adversário se agarrar.
Sabia que ele era homem “casado”, quem sabe pai de família,
Mas isso a excitava e ela não pôde e nem quis se controlar.

Antes de sair ela me agradeceu pelo adorável presente…
Disse que a poria em um vaso com água para pudesse vingar.
O vaso eu imaginava de qual tipo neo-pós-impressionista seria:
Uma privada, com a descarga quebrada, cheia de ilhotas a navegar.

Saíram de carro importado levando a minha rosa,
Eu teria pelo menos um (será que existe?) objeto testemunha ocular.
Que me contaria com a maior clareza o decorrer dos fatos,
Para que eu pudesse a mim mesmo me auto-torturar.

A história foi contada com a maior imparcialidade possível, juro.
Uma mensagem quero para os Românticos Anônimos deixar:
Escolham com bastante cautela quem vocês presenteiam,
Pois se muitas não merecem, existem várias outras que não merecem também.

rose-at-night-0

Boletim de Notícias

Tramita na Câmara dos Deputados Projeto de Lei que torna obrigatória a reencarnação, para que Cabral e José Dirceu, por exemplo, possam pagar por todos os seus crimes. A estimativa é que os dois precisem reencarnar pelo menos 7 vezes para que suas penas possam ser cumpridas.

A tramitação é lenta, entretanto. Alguns alegam que a reencarnação já existe. Para estes, Lula seria a reencarnação de um jegue, fato que está sendo contestado pela SUIPA no STF. O relator do processo, Ministro Barroso, já se mostrou favorável à mudança do termo jegue para “animal de quatro patas, ruminante, e desprovido de qualquer tipo de inteligência”. Essa alteração conta com o apoio dos juristas Dr. Tomás Turbando e Dr. Cuca Beludo.

A bancada evangélica promete obstruir a pauta. Não se sabe se por questões dogmáticas ou para evitar que membros da igreja sejam obrigados a reencarnar para cumprir por todos seus delitos.

Já a bancada da bala, prefere enviar Cabral e José Dirceu logo para o além túmulo, desde que estes assinem um termo circunstanciado se comprometendo a se apresentar em uma eventual próxima vida, quer seja na forma animal, vegetal ou mineral.

A bancada LGBT, liderada por Jean Wyllys, quer que seja inserido no Projeto de Lei um dispositivo para que o sexo possa ser escolhido antes do processo reencarnatório, com possibilidade de revisão de gênero quando o reencarnado completar 7 anos.

Já a bancada da chupeta, seguindo as determinações de seus respectivos partidos, mostrou-se favorável à reencarnação. Informações obtidas com exclusividade pelo blog confirmam que o objetivo é garantir a continuidade dos mandatos parlamentares nas próximas encarnações. Ainda não há consenso se tal benefício se estenderia aos suplentes dos parlamentares.

Consultado como seria a tramitação do Projeto de Lei, o Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Rodrigo Maia, balbuciou algumas palavras, babou e adormeceu em posição fetal.

De Niterói, Fábio Ottolini

Próximo tópico: STF analisa se uso de Caixa 2 em dízimo ou oferenda configura crime.

boletim-noticias