Um estranho me sorriu

Hoje, um estranho me sorriu. Ele não me pediu nada. Não queria nada. Simplesmente sorriu porque o deixei passar na minha frente durante uma caminhada pelas ruas do bairro. Ele não sabia disso, mas eu precisava daquele sorriso. Eu também não sabia, mas senti algo muito positivo quando vi seu sorriso. Uma espécie de injeção de ânimo. Difícil de explicar.

E durante o resto de minha caminhada, segui sorrindo. Sorri para homens e mulheres. As mais novas eventualmente pensaram que minha simpatia era alguma espécie de cantada. As mais velhas, sorriam de volta. Os homens, não sabiam ao certo se eu era gay, maluco ou estava simplesmente feliz. De qualquer forma, o meu sorriso causou sensações nas pessoas, e era exatamente isso que eu queria.

Esperamos muito da vida. Compreensão, carinho e compaixão (entre outras coisas), mas muitas vezes nos esquecemos de dar justamente o que nos faz falta. Quanto me custou sorrir? Será que não fiz por alguma pessoa o mesmo que o estranho fez por mim?

Por via das dúvidas, vou continuar sorrindo. Espero que a vida também continue a sorrir para mim.

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10 dias

Sangue abundante escorre do meu nariz. Não sinto dor. Meu rosto está adormecido. Minha filha, ainda por completar dois anos, está assustada. Se jogou para trás enquanto brincávamos na cama e acertou com a cabeça o meu nariz, que se partiu imediatamente.

O 911 é acionado. Chegam em 3 minutos. Um pano de prato coberto de sangue no meu rosto tenta estancar o sangramento. Os socorristas me examinam, verificam se estou vivo (dessa parte eu já sabia), e me dizem o seguinte:

“Podemos cobrar USD 1,000 para levar o senhor até o hospital ou alguém pode leva-lo. O senhor está estável. Basta assinar essa ficha dizendo que dispensou a remoção para o hospital e está tudo certo.” Assino e parto para o hospital.

Parece um hotel. De certa forma, eu estava destoando. Camisa manchada de sangue, pano de prato no rosto. Sou acolhido antes mesmo de preencher uma ficha.

– Isso sempre acontece com o senhor? – pergunta o enfermeiro da triagem.

– Sim… Sempre que minha filha me dá uma cabeçada.

Na prática, ele estava fazendo o papel dele. Era parte do script do atendimento. Vai que sou vítima de violência familiar?

Depois do X-Ray, foi constatada a fratura. O médico foi claro: “Você tem 10 dias para operar e colocar o nariz no lugar. Caso contrário, será necessário quebrar de novo para poder reposiciona-lo.”

Procurei um ENT (ear, nose and throat) Surgeon, e marcamos a cirurgia. Cheguei cedo no dia. Deram-me algum antinflamatório e disseram que aplicariam a anestesia. E nisso, chega o anestesista: “Onde estão os seus exames pré-operatórios? Não fez nenhum? Não tem problema. Assina aqui. Se morrer, a responsabilidade é sua.”

Levantei-me e fui procurar a médica. “Eu pensei que você sabia que tinham que ser feitos.” – disse ela. Certo… E eu os faria sem pedido médico e o plano cobriria tudo, não é mesmo? Além disso, sou médico e não economista… Sofrível.

Fiz todos os exames, sempre lembrando dos tais 10 dias. Até exame do coração com contraste eu fiz (um pedido completamente fora do normal para a minha idade de acordo com os padrões brasileiros). Tudo ok. Eu podia operar.

“Ih… Essa semana estou fora. Não vou poder te operar. Volto semana que vem. Não tem problema. Eu quebro seu nariz de novo e a gente resolve isso.”

Não. Desisti da cirurgia. Dane-se! Fico com o rosto do Rocky Balboa, mas ninguém vai quebrar meu nariz de novo.

Ligo para minha mãe e conto a história. Enquanto isso, aliso meu nariz de cima para baixo. Ouço um barulho, um estalo. Meu nariz se movimentou. Olho-me no espelho. O nariz estava de volta no lugar.

Moral da História: Não deixe sua filha quebrar o seu nariz mais de uma vez.

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Salvando vidas

E aí, duas senhoras de 70 e poucos anos se encontram enquanto estão atravessando a rua. Se abraçam e se beijam exatamente no meio da rua. “Quanto tempo!” Eu estava atravessando junto e prestando atenção na alegria delas. Algo bonito de se ver. Cabelos brancos… A amizade parecia ser antiga e preciosa.

O sinal estava aberto para os carros, mas não havia nenhum por perto. Só que depois do abraço, dos beijos e de uma pequena conversa entre as duas, um ônibus dirigido por um “piloto” surgiu do nada. Sim, o sinal permanecia aberto para os carros e elas estavam bem no meio da rua.

Meio que no reflexo, abraço as duas senhoras (o objetivo não era fazer um ménage) e as puxo para a calçada. Uma delas grita: “Tarado!” O marido de uma delas, que já estava do outro lado da rua (cagou para a esposa), gritou com a bengala em punho: “Fique aí que vou te pegar, seu pervertido!” Aproveitei que havia várias pessoas indo na direção que eu tinha que ir, e feito um bandido, tirei o meu casaco bege para ficar com minha camisa branca e não ser reconhecido. Acelerei o passo e me certifiquei que não estava sendo seguido. “Ufa! Da próxima vez, dou um empurrão ou uma banda ao invés de um abraço.”

Se alguém conhecer essas senhoras, favor explicar que eu só estava querendo salvar a vida delas, ok?

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Intercâmbio de namoradas

Embarcou. Deixa eu ligar para a amiga dela.

– Pronto. Só vamos ter que pensar em como resolver esse assunto daqui a 3 meses.

Eu me sentia poderoso. Estava namorando uma e saindo com a amiga dela. A minha namorada tinha embarcado para um intercâmbio e ficaria fora durante 3 meses. Enquanto isso, eu pegaria a amiga dela. Por que não? Eu era jovem. Podia tudo. E eu estava no maior estilo “pinto no lixo”. Pinto nascido de galinha, para deixar claro.

Os 3 meses se passaram rapidamente e fui me encontrar com a minha namorada no Museu da República no dia seguinte a seu retorno ao Brasil. Lugar lindo e completamente antagônico ao diálogo escroto que se sucedeu.

– Tudo bem? Como foi lá?

– Nossa! Foi sensacional! – Bla, bla, bla… – Inclusive, trouxe esses presentes para você.

Não era um presente. Eram vários. Fiquei sem saber o que fazer, mas a decisão já estava tomada.

– Olha… Muita coisa aconteceu enquanto você estava fora. Eu gosto muito de você, mas estou com outra pessoa…

– Como assim? Eu fui cantada o intercâmbio inteiro, não fiquei com ninguém, e você me diz isso assim que eu chego?

Lavamos roupa suja. Ela chorou. Eu chorei. Perguntei se ela queria os presentes de volta. Ela disse que não. Demos um longo beijo de despedida. Em seguida, corri para o telefone e liguei para a outra.

– Olha, já resolvi a situação. Sim… Teve beijo de despedida. O que? Não quer ficar mais comigo por conta disso?

Puta que pariu! Agora, eu estava sem nenhuma. Liguei para a ex. Sim, a do intercâmbio.

– Vamos voltar? Eu estava nervoso… Sei lá… Você ficou muito tempo distante…

Voltamos e tal. Naquela mesmo dia, durante a noite, recebi uma nova ligação da amiga, dizendo que entendia o beijo de despedida na ex, que me perdoava, e que queria ficar comigo. “Tenho que dar um novo telefonema”, pensei.

– O que? É a segunda vez que você termina comigo no mesmo dia! Vá se foder! – E bateu com o telefone na minha cara.

Só para recapitular: neste momento, eu estava namorando com a amiga da ex com a qual eu havia terminado duas vezes no mesmo dia, logo após ela voltar do intercâmbio.

O tempo passou, e percebi que a tal amiga da ex era um saco. Bonita, rica, mas era um saco. Chata ao extremo, ao ponto de afetar até a minha capacidade de trabalhar. Meu chefe, inclusive, me recomendou que terminasse com ela. Eu estava ficando chato como ela. Chatice é algo contagiante ao que tudo indica.

E um dia, novamente andando por perto do Museu da República, encontro com a ex. Sim, a do intercâmbio. Achei que ela iria me matar, mas foi doce, atenciosa. Perguntei se ela já tinha almoçado. Fomos almoçar e nos pegamos. Contei tudo que estava acontecendo, e ela me recomendou terminar com a “amiga” dela. Aceitei. Fazia todo o sentido.

– Não dá mais… Você é muito chata! Fique aí no seu mundinho de faz de conta, de menina riquinha, e seja muito feliz!

O aniversário dela seria na semana seguinte. Como ela ainda tinha alguma esperança que a gente voltasse, me convidou para ir na festa mesmo assim. Não fiquei com a menor vontade de ir, mas mudei de idéia quando recebi um convite da minha ex (a do intercâmbio) para ir como seu acompanhante para a festa. Eu imaginava que daria alguma merda, mas eu queria mais é ver o circo pegar fogo!

Só não transamos no gramado da festa da aniversariante, na frente de todo mundo, porque seria muito agressivo. Meus amigos, que sabiam de tudo, se divertiam. A aniversariante queria me matar. Queria matar a ex-amiga. Gritaram meu nome no “com quem será”… Uma noite muito louca, por assim dizer. Inesquecível!

Na hora de ir embora, a moça do intercâmbio olha nos meus olhos e me diz.

– A vingança é doce quando é servida fria. Não me ligue. Não me procure jamais, seu babaca! É bom ser usado, né?

Eu não me sentia usado, mas entendi perfeitamente o que ela quis dizer. Por via das dúvidas, resolvi nunca mais procurar nenhuma das duas. E se começasse tudo de novo?

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A paçoca dos sonhos

– O que foi, filha?

As mãos cruzadas na frente. Os olhos mirando o chão. Ela parou de repente, enquanto caminhávamos pela rua mais fancy de Niterói, que parecia existir apenas para esconder a pobreza, a violência e a visível ausência do estado na cidade. Última obra? Calçada de granito nesta rua! Tudo pelo social!

– Pai, nós passamos em frente a uma loja de doces… O menino pediu para a gente comprar paçoca para ele vender. Você não ouviu?

Gelei. Sim, eu tinha ouvido. Talvez por medo, descaso ou pura ignorância, decidi seguir adiante. Minha filha não. Ela ouviu, viu e sentiu o menino.

– Você quer voltar lá, filha?

E me olhando de um jeito que só ela sabe olhar, voltamos. Perguntei para o menino exatamente o que ele queria. Era de fato uma caixa de paçoca. Disse que iria vender no sinal de trânsito.

Comprei a caixa e disse para a minha filha: “Vai lá e entrega para ele!” Meio sem graça, ela foi. O menino, sem entender muito bem o que estava acontecendo, agradeceu e nos disse um sonoro “Que Deus os abençoe!”

Aquilo rasgou meu coração. Como é? Cinco anos e fazendo isso? Fui fingindo que não estava emocionado até em casa. Desabei no banheiro. Pai é forte e não chora. Todos sabem disso, não é mesmo?

No dia seguinte, fomos passear de carro. Em um determinado sinal de trânsito, havia um menino vendendo paçocas. Era ele. Não deu tempo para ele me oferecer, mas as tais lágrimas insistentes voltaram a cair. Tentei dirigir meio de lado para disfarçar, aumentei o som, mas de nada adiantou. Minha filha não entregou paçocas para ele. Ela entregou sonhos, esperança.

E enquanto eu dirigia, rebobinei o filme, voltei a cena. Revi o menino que eu conscientemente decidi ignorar. Ladrão. Viciado em drogas. Poderia fazer mal para a minha filha. E percebi que eu estava desumanizado, morto por dentro, apesar de me considerar um grande seguidor de Cristo. “Hipócrita FDP!”, pensei comigo mesmo. Que tapa na cara com soco inglês!

Quando a gente se brutaliza por qualquer motivo que seja, Deus faz questão de nos mandar um anjo. Eu sou pai de um anjo. Que privilégio! Deu até vontade de comer paçoca! Alguém mais aceita?

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Meus cachorros

– Pode encher, por favor… Do que estávamos falando mesmo?

Eu não queria falar ou ouvir mais nada. A bebida era a desculpa. Não queria ficar bêbado. Queria parecer bêbado. Era uma conversa para ser esquecida de tantas vezes que já havia se repetido.

Nada daquilo fazia sentido. A fumaça do cigarro da mesa ao lado me sufocava. O barulho dos carros ao longe. A cerveja nacional cheia de milho. Eu precisava de algum tipo de teletransporte. Precisava sumir.

– Você sempre sai pela tangente quando o assunto não agrada…

– Não é verdade e você sabe disso. Eu só estou de saco cheio de conversar sobre o mesmo assunto todas as vezes. Não dá, entende? Não dá! EU ESTOU DE SACO CHEIO!

O pessoal da mesa ao lado olhou em minha direção. Eles fumando e eu falando alto. Estávamos empatados.

– Quer saber? Vou embora. Lá em casa não tem fumaça, não tem barulho, e a cerveja é de melhor qualidade. Vai ficar?

Levantei-me e fui embora. Poucos metros adiante, pisei em um cocô de cachorro. Merda… Eu não aguento mais essa conversa sobre ter que comprar um cachorro. Cachorro é para quem tem casa! Não consigo imaginar um cachorro em um apartamento.

Na frente do meu prédio, três vira-latas dormindo. Qual a história desses carinhas, hein? Vivem como? Nasceram onde? Já tiveram casa? Estariam com fome ou com sede? Frio?

Puta que pariu… Peguei uma vasilha daquelas de sorvete com água e outra com ração. Por que eu tenho ração em casa? Minha filha me ensinou que já temos vários cachorros. Eles moram nas ruas. Para que eu preciso comprar um?

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10 meses…

Desligo o telefone perplexo. Encontrar-me depois de 10 meses? O que ainda temos para dizer um para o outro? De qualquer maneira, fiquei curioso e resolvi pagar para ver.

Ela estava mudada, diferente. Continuava bonita. O rosto tenso com um certo ar de desespero, entretanto, era algo novo. Quase não a reconheci.

– Sei que você não deve querer me ver nem pintada de ouro, mas preciso te contar o que está acontecendo comigo.

Como assim? Virei psiquiatra, psicólogo? Na dúvida, me recostei na cadeira e comecei a comer o couvert.

– Bem… Sei que nosso final foi meio estranho…

Eufemismo puro! Terminou comigo me entregando pessoalmente uma carta, mudou de casa, de telefone, em uma época em que não existia nem celular para todos e a Internet estava começando. Não foi meio estranho. Foi totalmente estranho. Eu diria até cruel.

– Depois de você, tive 2 namorados…

Para quem escreveu na tal carta que precisava ficar sozinha, no mínimo algo curioso.

– O primeiro fazia faculdade comigo. Você sabe… Eu fiquei sem Internet um tempão, e em um dia em que nós transamos, aproveitei o banho dele para ir no seu site. Vi uma poesia que escreveu que era obviamente para mim. Caí no choro. Ele me flagrou chorando em frente ao computador. Sabia que você era meu ex. Terminou comigo.

Ela realmente estava perturbada. Ainda não estava claro o porque dela estar me contando tudo aquilo, mas a pastinha com as torradas estava uma delícia!

– Depois, comecei a namorar outro cara. E aí, em um dia que ele estava me deixando em casa, você passou do outro lado da rua dividindo o guarda-chuva com aquela piranha da sua amiga! Sempre soube que vocês tinha um caso. Aquilo foi só a confirmação. Sem perceber, para ver exatamente se era você com aquela sua “amiga” (faz o sinal de aspas com as mãos), empurrei o meu namorado para trás. Ele quis entender o que estava acontecendo. Falei a verdade. Ele ficou com raiva e se afastou de mim.

Não… A minha amiga não era uma piranha. Era minha amiga mesmo. Estávamos apenas dividindo o mesmo guarda-chuva. Estávamos voltando da faculdade e estava chovendo. Qual a importância disso? Que diferença isso fazia? Eu estava perdido, mas optei por uma pizza. Ela disse que não queria comer.

– A verdade é que desde que me separei de você, minha vida parou. Eu me afastei de você porque não queria me prender a ninguém. Deu tudo errado! Está dando tudo errado! Eu não sei mais o que fazer!

A pizza estava uma delícia. Não nego que vê-la sofrer daquele jeito, se desfazendo em lágrimas, despertou um lado sádico meu que prefiro deixar adormecido.

– Entenda, Nina. Eu gostava de você. O que está me dizendo agora era tudo que eu queria ouvir há 10 meses. Agora, isso não faz o menor sentido. E não é porque estou namorando… Estou solteiro. Só que nossa história ficou no passado…

– Tem certeza? O que eu faço, então?

Pedi ao garçom para fechar a conta e fui leva-la em casa. Estava me sentindo poderoso!

– Não quer subir?

Aceitei o convite. Como era de se imaginar, transamos. Vimos um pouco de TV, e logo em seguida me preparei para ir embora.

– Seu telefone continua o mesmo? Posso te ligar amanhã?

– Me ligar? Eu fiz isso com você para que sinta o que eu senti. Não quero mais falar com você. Não quero mais te ver. Nossa história acabou há 10 meses!

E no meio de um choro compulsivo e de pedidos para reconsiderar minha decisão, fui embora quase que sorrindo.

Eu odeio esse meu lado sádico.

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