A flor

Uma vez, antes de sumir no mundo, ela deu uma flor para minha mãe. Uma daquelas que vem em um vaso pequeno. Uma violeta. Ela quis agradecer a minha mãe por tê-la recebido em sua casa. A flor era cor de rosa, talvez arroxeada. Algo assim. Homens não costumam ser bons com cores.

Todo dia eu via minha mãe conversar com a tal flor. Nada de anormal. Ela sempre dava bom dia para as plantas da casa. Só que no caso dessa flor, eu sentia que era diferente. Como tinha sido um presente, a sensação que eu tinha era de que havia algo de especial entre as duas. Não sei explicar ao certo o que, mas sei que havia.

Confesso que eu passava ao lado da tal flor e pensava em joga-la no lixo. Só que quando eu chegava perto dela, eu simplesmente não tinha coragem. Não seria justo fazer nada contra ela, até porque eu sabia que ela havia sido dada de coração. Eu tinha certeza disso.

E os dias se passaram… As semanas se passaram… Os meses se passaram… Talvez uns 5 ou 6 meses. Eu não fazia ideia que uma flor dessas poderia durar tanto! E eu fui me acostumando… Não dava bom dia para ela, mas era uma lembrança que me fazia sorrir.

Um dia, porém, ao chegar perto de minha mãe, percebi que ela estava entristecida. Olhei para o vasinho e percebi que a flor estava seca. E eu perguntei o óbvio:

– O que houve com ela? Morreu?

E minha mãe me olhou nos olhos, colocou a mão no meu peito como só uma mãe sabe colocar, e me disse:

– Mas ela está viva aqui, bem dentro do seu coração.

E nesse dia, depois de tantos anos, eu finalmente descobri que meu coração era e é um jardim. E minhas lágrimas o regaram. Lágrimas represadas. Simplesmente lágrimas.

Depois disso, vi muitas flores. Há flores aqui e ali. É só saber procurar. Mas daquela flor, que sequer era minha, eu nunca mais me esqueci, e sei que, de alguma forma, ela ainda vive dentro de mim.

Papo sério

Nos encontramos no calçadão da Praia de Icaraí. A fisionomia dela estava fechada. Nos sentamos em um dos bancos de concreto para conversar.

– Há algo que está me incomodando… Você disse que ela pode ter te procurado por conta dos seus posts a meu respeito no seu blog. A sensação que eu tenho é que você, de alguma forma, está fazendo mais do mesmo. O que você pretende com isso? Atrai-la novamente? Quer que ela venha atrás de você?

– Não é nada disso! Não mesmo. Eu comecei a escrever da gente no blog porque eu estava feliz, porque a minha vida estava indo em frente. O meu blog sempre foi um lugar onde expressei o que estava sentindo, o que estava vivendo. O que eu disse é que ela pode, por conta do que postei sobre nós, ter vindo atrás de mim… Só cogitei essa possibilidade.

Ela me olhava com incredulidade. Não sentia confiança no que eu dizia. Era compreensível.

– O blog é seu. Sei o quanto ele é importante para você, mas se ponha no meu lugar! Eu não quero isso para a minha vida! Gosto do que você escreve, não se engane. Você consegue capturar a essência das nossas conversas, das coisas que já vivemos juntos. Não tenho como negar isso. Mas supondo que a gente passe o Réveillon juntos, qual será o próximo passo? Escrever sobre os detalhes da nossa noite? Não quero isso! Não aceito! Estou me sentindo uma espécie de isca e não gosto disso. Eu sou uma mulher livre e desimpedida. Minha vida é um livro aberto para nossos amigos, para quem nos cerca. Sem querer ser pretensiosa, se quiser falar de mim, escreva uma poesia, poste uma música ou algo do tipo. Falar do que fazemos ou mesmo se estamos juntos ou não é algo que não aceito, e se você quiser continuar a trilhar esse caminho, fará isso sozinho.

Ela tinha razão. Coloquei-me no lugar dela e consegui entender a exata dimensão do que ela estava dizendo.

– Você não é uma isca! Não na minha cabeça, mas eu entendo o que diz e concordo. De verdade.

– Então, ponha um fim nessa novela. Não quero a minha vida exposta. Não quero que ninguém saiba de qualquer coisa que seja sobre nós dois através do seu blog. Quem tiver que saber algo de nós dois, saberá.

– Nós dois? Isso quer dizer que…

Fui interrompido. Ela estava perdendo a paciência.

– Corte o mal pela raiz! É isso que eu quero e essa é uma condição para qualquer outro passo adiante.

Ela se levantou. Eu me levantei também. Era chegado o momento de eu dizer um sim ou um não. Eu estava reticente por conta do prazer que escrever me trazia, mas era impossível negar que ela tinha mais do que motivos para se colocar de maneira contundente.

– Ok. Você tem a minha palavra. Posso só fazer um último post sobre isso? É que há leitores que estavam realmente gostando do que eu estava escrevendo. Eu te mostrei as mensagens. Você mesma as viu!

– Sim, eu sei. A história dos morangos veio até mim enviada por uma amiga que nem sabe de nós dois. Não nego que sorri ao recebe-la, mas não é o momento… Não sei o que a vida reserva para nós, mas pelo menos no seu blog, é preciso que isso acabe agora mesmo. Escreva algo sobre isso quando chegar em casa e pronto.

– Farei isso. Pode estar certa.

– E outra coisa… Por que retirou os textos que fez para ela? Você não viveu tudo aquilo? Ela, então, define o que fica ou não no seu blog?

– No momento, acho o mais adequado a ser feito, mas novamente você tem razão.

– Deixe que as pessoas saibam quem você é e o que você sente! Não percebe que é justamente o que você é e sente que me faz estar aqui? É o seu passado e você é a soma de tudo isso que viveu. Não se puna por isso! Eu li coisas lindas naquelas poesias! Eu vi um homem se entregando por completo para uma mulher! Que mulher não quer isso? Azar o dela se não percebeu ou entendeu quem você é. Azar para uns, sorte para outros. A vida é assim. Não mude! É só o que te peço! Não deixe que ela o defina!

– Sim… Obrigado por ter me dito isso. É bom ser compreendido.

– Já consigo até imaginar essa história sendo contada para os seus amigos e eles dizendo: “Tinha que ser com você, Fábio!” É isso que te faz ser o Fábio!

Eu sorri. A fisionomia dela ficou mais leve. Creio que a minha também, apesar de ter sido tocado profundamente pelas suas palavras. Ela conseguia me ver, me enxergar além do óbvio, e me fez sentir um orgulho profundo de mim mesmo, de quem eu sou, do que eu sinto.

– Vamos lá Beira Mar encomendar o que vamos ter para o nosso Réveillon?

– Quer dizer que vamos passar juntos a virada?

– Você já sabia que sim, seu tonto! Eu só precisava tirar isso do meu peito.

E fomos caminhando decididos na direção da Beira Mar. Se tudo daria certo? Eu não tinha a menor ideia. Nenhuma! Eu queria ao menos tentar.

– Você tem talento – ela continuou – É inegável. Poderia escrever um livro se quisesse. Um romance baseado em fatos reais, por exemplo. No meu caso, me ver através de seus olhos me deixou encantada… Você conseguiu me capturar em palavras. Percebeu detalhes sobre mim que nem eu mesma conhecia. Se for o caso, continue a escrever e não publique. E um dia – é meu ego e meu lado mulher falando alto agora, portanto, ignore – publique tudo de uma vez!

Fiquei ruminando a ideia enquanto caminhávamos. Tive que fazer uma pergunta…

– E se eu fosse publicar um livro, você teria alguma sugestão para o título?

Ela parou de andar, e apesar de estar usando uma máscara, consegui ver que estava sorrindo. Olhou nos meus olhos e disse:

– Daniella.

– Que pretensiosa! – soltei uma gargalhada e continuei minha caminhando em direção a esse novo mundo sem qualquer tipo de promessa ou garantia, mas cheio de possibilidades.

Canalha

Acordei incomodado. Eu precisava fazer uma ligação.

– Oi! Eu estou na rua. Posso te ligar em seguida? – pelo barulho, ela parecia estar em algum lugar muito movimentado. Quase não conseguia ouvi-la.

– Eu estou ligando para dizer que aceito – disse eu rapidamente, na expectativa que ela não desligasse o telefone.

– Aceita o quê? Do que você está falando?

– Eu aceito passar a virada do ano com você, ué!

– Do que você está falando? Eu não te chamei para passar a virada do ano comigo! – a surpresa podia ser percebida em sua voz.

– Então, eu estou me convidando! Alô? Você está me ouvindo? – e a ligação caiu.

Caixa postal… Achei que tinha falado demais. Foi o que me deu vontade de fazer. Fiz sabendo que poderia ouvir um não. Paciência. Quem não arrisca, não petisca.

Cerca de 5 minutos depois, o telefone tocou. Eu atendi logo no primeiro toque. Finalmente eu conseguia ouvir a sua voz com clareza.

– Então, você está se convidando para passar o Réveillon comigo e ainda alega que eu o convidei? Estou falando com o mesmo cara que esteve na minha casa na sexta-feira, que disse que precisava viver um luto? – o tom da voz dela tinha notas de surpresa, raiva e sarcasmo. Pelo telefone, eu realmente não conseguia entender o que ela estava sentindo.

– Sim. Você me disse que iria na casa dos seus pais e depois iria para casa. Então, pensei que poderíamos passar a virada juntos. Talvez você tenha alguma festa para ir… Não sei… Mas, se não tiver nada para fazer, está feito o convite.

– E o tal luto? Não vai respeita-lo? – agora, eu tinha certeza. Era puro sarcasmo, deboche.

– Olha… Eu já estou de luto faz muito tempo. Entre idas e vindas, cheguei aos meus 49 anos sozinho. Não quero perder mais um segundo da minha vida sequer! Estou de saco cheio! – nem eu me reconheci ao telefone. Parecia um garoto empolgado com a possibilidade de fazer algo que nunca tinha feito antes. E, de alguma maneira, era exatamente isso que estava acontecendo. Eu estava ao menos tentando retomar as rédeas de minha vida.

– Eu estou com vontade de te xingar! – disse ela no meio de uma risada – Posso te ligar mais tarde? Eu realmente estou enrolada…

– Sim ou não? – perguntei afoito.

– Racionalmente, um não… Mas pela sua cara de pau, vou pensar o seu caso.

– Isso é um sim? – perguntei de maneira incisiva. Houve uma pausa.

– Canalha! – não me senti ofendido. O tom da voz dela demonstrava que ela estava gostando do que ouvia. Pelo menos era assim que eu estava entendendo a sua reação.

– Então, o que iremos fazer?

– Deixa eu pensar… Podemos nos falar amanhã para acertar os detalhes? Hoje, o dia está realmente complicado para mim.

– Tudo bem. Quando puder, me liga.

Desliguei o telefone sentindo algo diferente. Pela primeira vez em muito tempo eu tinha partido para o ataque. A vergonha de fazer a ligação não foi forte o suficiente para me impedir. Havia vontades, sentimentos, desejos e sonhos represados, reprimidos. A vida não podia ser tão complicada como parecia. A coragem venceu o medo. Eu realmente queria que 2021 seja um ano completamente diferente. Mais fácil, mais leve, mais feliz. Disso e somente disso eu tinha certeza: arriscar-me era preciso.

Coca Zero

– São 01h28… Estou cansado. Vou dormir.

– Já? É Natal! Desce… Estou passando aí!

– Não! Estou cansado… De verdade. Não estou muito bem…

– Seu apartamento é o …, né? Vou tocar esse interfone até você descer! Deixa de frescura!

Desci. Ela chegou 2 ou 3 minutos depois. Era puro ânimo e eu era puro “enfim”. Eu estava pensativo. Queria ficar sozinho. Precisava ficar sozinho.

– Então… Peguei várias sobras da casa da minha mãe… Quer comer alguma coisa?

– Algo doce. Acho que minha glicose está baixa…

– Serve rabanada?

Comi quieto. Fui sentindo uma onda de calor tomar o meu corpo. Vinho demais me dá sono e os goles da Ceia de Natal tinham me deixado mais introspectivo que de costume.

– Estava uma delícia! Sua mãe quem fez?

– Que nada! Beira Mar! Minha mãe está cansada… A idade pesa nesses momentos…

Havia uma pequena árvore de Natal em um canto cheia de cartões natalinos. Nem sabia que ainda existiam. Os Correios ainda entregam cartões de Natal em tempo ou seriam de 2019?

Ela acendeu um cigarro. Ofereceu-me um trago. Aceitei. Deu vontade de fumar. Coisa de momento.

– Então… Parece que as coisas não deram muito certo do lado de lá…

– Você sabe que não fui atrás dela… Ela veio atrás de mim. Talvez tenha vindo apenas porque eu estava com você. Talvez tenha vindo por maldade, não sei. A maneira que tudo terminou me dá náuseas! Fiz de TUDO para dar certo. Estou com a consciência absolutamente tranquila. Mas não quero mais falar disso – afirmei resoluto – É parte do meu passado. Algo que eu quero e vou esquecer.

– Não quero que fale disso. Eu só sinto. Sinto muito… Talvez seja difícil para você acreditar, mas é a verdade.

– Eu sei – foi o que saiu de meus lábios enquanto eu fitava o chão.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Peguei um cigarro para mim. Ela entrou e eu fiquei na varanda desperto pela nicotina, pensativo como antes. Incomodado de alguma forma e tentando entender o porquê de eu estar ali.

Ao longe, ouvi o barulho de uma lata se abrindo. Pensei que era uma cerveja ou algo parecido, mas era uma Coca Zero.

– Toma… Vai te fazer bem.

– Eu agradeço, mas no fundo estou precisando dormir…

– Já coloquei um travesseiro e um cobertor no sofá. O controle do ar está na mesinha de centro. Qualquer coisa, eu estou no meu quarto. Boa noite!

E após um beijo na na minha testa, ela entrou para dentro do quarto rapidamente. Fechou a porta. Fiquei surpreso. Não entendi nada. Tentei me acertar no sofá, mas algo me incomodava… Levantei-me e fui até o quarto dela. Bati na porta. Ela me disse para entrar.

– Por que você me trouxe até aqui? Da última vez que nos falamos eu fui claro que…

Ela se levantou abruptamente e pôs os dedos em meus lábios, me silenciando.

– Eu também não sei porque te procurei e menos ainda porque fui te buscar. Foi algo mais forte que eu. De alguma forma, é bom ter você por perto. As coisas não aconteceram do jeito que eu queria, mas você sempre foi 100% honesto comigo e isso é raro. Você tinha um sonho e foi atrás dele.

Fiquei em silêncio. Eu não sabia o que dizer.

– Ainda pensa nela?

– Não posso… Não devo… Não quero. Chega.

– Entendo. Não diga mais nada, então… Vá descansar. Levante esse cabeça! Você seguiu seu coração. Eu também sou assim… Eu também sigo o meu. Boa noite!

Dei nela um longo abraço, um abraço sentido. Pelas mãos, ela me levou até o sofá e me cobriu. Passou a mão na minha testa, me encarou por alguns segundos e retornou para o quarto.

Logo depois, fui fumar mais um cigarro. Tomei mais uma Coca Zero. Deitei-me no sofá da sala e revi uma série de fotos. Reli conversas. Revi contatos. Tudo era muito recente e ainda mexia muito comigo. E por fim, adormeci, mas não antes de apagar qualquer traço que fosse do meu celular. Removi do meu blog tudo que encontrei sobre ela. Tudo guardado em um local seguro que eu não visitaria nunca mais. Disso eu tinha certeza. Esse foi o presente que me dei de Natal.

Ao acordar, havia um bilhete em cima da mesinha de centro.

– Fui almoçar na casa de uma tia. Há mais rabanada na geladeira. Fique bem! Um beijo.

Escrevi um obrigado bem grande com minha caligrafia horrenda no tal bilhete. Não comi nada. Fui para casa e novamente adormeci. Ao acordar, escrevi esse texto, ainda sem entender tudo o que estava acontecendo. Havia muitas coisas acontecendo. O tempo vai colocar tudo no seu devido lugar. É com isso que eu conto. Vou seguir em frente, sem olhar para trás por um instante que seja. Jamais.

Flashbacks

O tempo quente de mais uma tarde escaldante em Niterói tornava quase impossível uma caminhada no fim de tarde. O suor ardia os olhos. As lentes dos óculos embaçavam. A respiração ofegante do passo acelerado era sufocada por uma máscara. E para piorar, as pessoas não conseguiam andar em linha reta, pois as bicicletas, cachorros e corredores estavam sempre na iminência de causar um acidente. Caos no calçadão da Praia de Icaraí. Puro caos.

Eu a vi de longe conversando com um homem alto, queimado de praia. Resolvi frear meu passo. Eu não sabia quem era e não queria ser invasivo.

– Vem cá, Fabio! Deixa eu te apresentar… Esse é o Guilherme. Guilherme, esse é o Fabio.

Pensei em estender as mãos para um cumprimento, mas isso não seria aceitável em tempos de pandemia. Com a máscara no rosto, sequer conseguia sorrir para dizer algo do tipo “prazer em te conhecer”. Tive que apelar para o “Fala, Guilherme! Beleza?” Ele respondeu de maneira educada e alegre, me convidando para jogar uma partida de tênis de praia. Eu falei que já tinha jogado tênis tradicional e disse que minha filha já tinha pensado em fazer aulas na praia, mas declinei educadamente o convite. “Quem sabe outro dia?”, ele disse. Para minha surpresa, ele chamou um professor (sim, há aulas de tênis de praia na Praia Icaraí) que me entregou um cartão oferecendo suas aulas. Quando ficou sabendo do interesse da minha filha, disse até que ela poderia fazer aulas de cortesia por conta de eu ser “amigo do Guilherme”. Não entendi nada, mas agradeci pela gentileza. Coisa difícil nos tempos de hoje.

Era visível que ela tinha bastante intimidade com o Guilherme. Isso não me incomodava de forma alguma, mas percebi que eles estavam falando sobre um assunto sério. Preferi prestar atenção em um jogo de tênis de praia que estava em andamento. Não tinha nenhum bobo jogando. O nível era bem alto por sinal. Era visível que jogavam com frequência.

Após alguns instantes, ela se despediu do Guilherme e eu acenei. Mais uma vez, ele me convidou para aparecer lá outro dia e apontou para a minha pele: “Você está precisando de Vitamina D!” Soltei uma risada e fomos caminhando. Ele tinha razão. Eu estava precisando de uma cor.

– Gente boa esse cara… Quem é o seu amigo? – perguntei de maneira inocente.

– É meu ex-marido. E sim, ele é muito gente boa.

Fiquei em silêncio. Passou um flashback pela minha cabeça sobre o meu divórcio. Ela não se deu conta, mas eu a invejei por alguns instantes. No fundo, queria que meu casamento tivesse terminado assim, mas sei que não há regras quando o assunto é uma separação. Há pessoas mais maduras, outras menos maduras e… FODA-SE. Eu estava feliz do jeito que eu estava e isso bastava para mim.

– Qual a altura dele?

– 1,92 ou 1,93. Algo assim.

– E agora você dá para um cara com a mesma altura que você? – perguntei sem fazer ideia de qual seria a resposta dela.

– Mesma altura coisa nenhuma! Tecnicamente, eu sou 2 cm mais alta que você. Se eu colocar um salto então… E sim, eu dou para você. Dou com vontade. E altura não é tudo, bobinho, até porque não te chamo para trocar as lâmpadas da minha casa…

Creio que não preciso mencionar o quanto me senti poderoso após ouvi-la. “Eu realmente devo ter os meus paranauês”, pensei.

Chegamos até o prédio dela. O porteiro já sabia o meu nome. Entregou uma encomenda que a aguardava e abriu a porta do elevador. Ela pediu para eu apertar o botão do andar, pois estava com as mãos ocupadas carregando a tal encomenda. Meti as mãos entre as suas pernas e perguntei: “Esse?” Ela deu uma risada e apontou com o rosto para uma câmera dentro do elevador. Eu acenei para a câmera. Pura palhaçada! Rimos juntos. O sorriso dela era aberto, franco, e eu obviamente me ofereci para carregar a encomenda. Cavalheirismo sempre.

– Quer água de coco? – ela me perguntou já se servindo.

– Quero uma cerveja. Tem?

Ela me ofereceu uma Heineken e eu comecei a falar sobre o poder da cerveja na recuperação pós treino, e que os jogadores do Bayern de Munique eram obrigados a beber todos os dias. Pequenas quantidades, claro.

– Deixa eu ver se eu entendi… Você anda, anda, anda e depois toma cerveja para sua plena recuperação pós treino? Você é muito cara de pau!

– Mas é científico! – eu exclamei em minha defesa, fingindo estar indignado.

– E quem disse que seu treino acabou? Pro banho! Agora!

Matei a cerveja em um gole só. Fomos para o banheiro. E lá ficamos por um bom tempo… Realmente, o meu treino não tinha acabado. No final, eu estava exausto. Ela me olhava e ria… “Agora sim, pode tomar quantas cervejas você quiser, cara de pau! Até eu vou beber! Estou precisando me recuperar!”

E lá fomos para a sala. Lynyrd Skynyrd no Spotify. Quem é de Niterói sabe que é quase obrigatório ouvir as músicas da banda. Ela resolveu me acompanhar na cerveja. Cerveja com a tal encomenda que tinham deixado para ela na portaria: uma espécie de cesta de frios que iam do presunto de parma ao queijo brie, passando por torradas, geleias e um mix de nuts. Tive outro flashback. Esse mais prazeroso, que me roubou um sorriso interno. Lembranças, memórias e histórias. Havia um dantesco acervo delas dentro de mim e novas eram criadas a todo instante. Eu estava vivo, mais vivo do que nunca.

Conversa vai, conversa vem, e tive que tocar novamente no assunto.

– Dadas as devidas vênias, a doutora deveria saber que a cerveja é mencionada até mesmo no Código de Hamurabi…

– Devo ter faltado a essa aula. Provavelmente, estava tomando cerveja com o pessoal da faculdade – e começou a rir sem parar. Ela estava começando a ficar alta e eu apenas no início de minha “recuperação pós treino”.

No total, foram umas 15 latinhas de cerveja. Ela desabou no sofá com a cabeça no meu colo e o cafuné a fez dormir. Nem parecia aquela mulher brava que se mostrava nos tribunais da vida. Ela era única e ao mesmo tempo como outra qualquer, querendo ser tratada como uma mulher de verdade. Apenas isso. E sim, eu sabia que a minha cara de pau ajudava muito nesse processo. Não era algo pensando ou raciocinado, que fique claro. É o meu mais puro instinto.

Depois de um certo tempo, me levantei para ir embora. Ela nem se mexeu. Já estava me preparando para ir em silêncio, quando ela disse:

– Vai embora sem se despedir?

Fui no quarto e peguei um travesseiro e uma coberta para ela. O ar condicionado estava implacável. Depois de um beijo, disse bem baixinho no ouvido dela:

– Se me arrumar uma escada, eu troco até as lâmpadas, tá?

Ela me deu um beijo sôfrego seguido de uma risada silenciosa, mas que dizia tudo. Tudo. Dessa vez, não esperou nem eu chegar em casa. Simplesmente dormiu e eu simplesmente dormi também. O treino foi realmente exaustivo.

Dona Maria, a iludida

Vamos supor que um produto custe USD 1 (1 dólar americano) no mercado internacional. É uma commodity qualquer. O produtor dessa commodity olha para o mercado interno, ou seja, para o Brasil, e percebe que pode vender o produto por R$3,00. Tudo bem. Afinal de contas, 1 dólar está valendo R$3,00. Para o produtor, é absolutamente indiferente vender no Brasil ou para o exterior.

Entretanto, por algum motivo, o dólar sobe para R$5,00. A cotação internacional do produto, entretanto, permanece a mesma: 1 dólar. E o produtor pensa: “Poxa, se eu vender o meu produto no mercado externo, vou ganhar R$5,00 ao invés de R$3,00. Vale muito mais a pena, até porque as peças de reposição para a máquina que fabrica esse produto também ficaram mais caras, pois elas são importadas. Vou exportar minha produção.”

Enquanto isso, o dono de um mercado qualquer no Brasil precisa fazer um pedido do tal produto. Liga para o produtor e pergunta o preço. O produtor diz que agora o preço é R$5,00, pois ele vai exportar toda a produção. O dono do mercado fica indignado, mas fica sem saída: precisa pagar R$5,00 no produto ou não ter o produto em seu mercado. Ele até liga para outro produtor para verificar se é um caso isolado, mas não: todos os produtores subiram seus preços.

Dona Maria, que sempre acompanhou os preços dos produtos (adora ir ao mercado), fica horrorizada quando se depara com a subida do preço do produto no mercado. Como ela não entende nada de Economia (e não tem obrigação de entender), ela lembra de uma mensagem que recebeu de uma tia do WhatsApp tia dizendo que “os donos de mercados precisam ser mais patriotas”. Ela faz um escândalo no mercado. Diz que é um absurdo. Chama o dono do mercado de ladrão. Diz que nunca mais vai por os pés naquela espelunca e vai embora animada, certa de ter cumprido o seu dever cívico. Lembrou até dos tempos em que fazia o mesmo enquanto “Fiscal do Sarney”, mas preferiu ignorar a lembrança. “Outros tempos… Nada a ver…”, pensou.

Vai em outro mercado em seguida. Ela quer comprar barato. Ela não é otária. E no outro mercado, para sua surpresa, o preço também subiu. Ela chega a conclusão que todos os donos de mercado são todos ladrões. Sem saída, compra o produto pelo preço novo. É um produto essencial.

Furiosa, ela não não se contém. Conta para as amigas que a culpa é dos que disseram que era para deixar a economia para depois. Ela mesma ficou em casa se borrando de medo da doença, pois perdeu um primo para a COVID-19 (ela chora todos os dias quando lembra do quão jovem ele era – maldita doença!). Mas isso não interessa! Ela conversa com um dos sobrinhos que diz que o mal do Brasil são os comunistas e o vírus chinês. O irmão diz que é tudo culpa dos governadores e prefeitos. Falam mal do Mandetta, do Drauzio Varella, da China… Mais uma vez xingam os donos dos mercados. Vendidos! Comunistas! Aproveitadores!

E enquanto isso, na China, que pagou 1 dólar pelo produto, está tudo bem. O produtor brasileiro está feliz porque recebeu mais pelo seu produto. Dona Maria não consegue comprar mais a mesma quantidade do produtos que conseguia antes. A aposentadoria dela não foi reajustada. Só os preços dos produtos que subiram. “Esses donos de mercado são todos uns vagabundos! Eles me pagam!”

Clichê

– Ah! Deixa disso… Ainda nem chegamos na metade…

– Você é doido, menino! Já fomos e voltamos esse calçadão duas vezes!

Ser chamado de menino na minha idade é um privilégio. E sim, eu sou viciado em andar. Há dias em que ando 20 Km. Fone de ouvido, músicas escolhidas a dedo no Spotify (do clássico ao metal), e caminhadas que parecem não ter fim. O visual da praia, o sol, o suor, a brisa do mar e até mesmo o cansaço me ajudam a pensar sobre a vida, refletir sobre o passado, encontrar a melhor maneira de viver o presente e planejar o futuro. É sem dúvida alguma um dos maiores prazeres cotidianos.

Deixamos o calçadão e fomos até a casa dela. Antes de subir, pedi ao porteiro a mochila que eu tinha deixado na portaria. “Vim preparado” – afirmei cinicamente. “Cara de pau” – foi a resposta que ela me deu enquanto encarava o porteiro, que fingia que não estava entendendo nada. Confesso que, no fundo eu me sentia orgulhoso de ser chamado de cara de pau. Nas circunstâncias, parecia que a minha cara de pau era realmente muito bem vinda. Era a faísca, talvez a pimenta, que só incendiava ainda mais os nossos encontros despretensiosos e nem por isso menos sôfregos.

Mas ela também tinha as suas armas. Nas audiências, comparecia sempre impecavelmente vestida. Unhas bem feitas com tonalidade discreta, óculos daqueles que parecem não ter armação, maquiagem na medida certa e com o cabelo preso em uma espécie de coque complexo. Cheguei a perguntar o porquê do cabelo preso nas audiências e ela me respondeu de uma maneira que nunca esqueci. Tirou os óculos, soltou o cabelo, olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Nos tribunais da vida, aprendi que ser discreta é algo bem vantajoso. No mundo machista em que vivemos, antes de ser mulher, preciso ser uma advogada.” Não a culpo. Ela realmente é daquelas que passa e faz pescoços virarem, ainda mais com os cabelos soltos.

Ela foi tomar banho e eu fui para a varanda ver a rua. Com um copo d’água nas mãos, fiquei admirando o vai e vem das pessoas e dos carros até que, mais uma vez, ela me deu um susto. Era a sua especialidade.

– Vai tomar banho, vai… Há coisas melhores para você ver aqui dentro de casa…

Saí correndo para o chuveiro. Tomei um banho caprichado. Eu sabia o que me esperava. Uma mulher linda e cheirosa, enrolada em uma toalha, me apressando para tomar banho? Certeza não era para vermos uma filme.

– Gosta de morangos?

Foi a pergunta que ouvi ao sair do banho. Eu disse que sim balançando a cabeça, atônito diante do que eu estava presenciando. Ela estava nua, sentada na beirada da cama, comendo morangos. As frutas passeavam pelo seu corpo e terminavam na sua boca. A minha garganta ficou seca. Eu fiquei paralisado e resolvi observar a cena por mais alguns instantes, enquanto as frutas eram literalmente vítimas de abuso: mordidas, lambidas, beijos, chupadas, e passadas com uma sensualidade absurda pelo seu corpo e por entre suas pernas escancaradas. Ela estava toda melada e eu tinha certeza de que os morangos não eram os únicos responsáveis por aquela situação, sobretudo por conta dos seus gemidos e da sua pele completamente arrepiada. O corpo dela brilhava refletindo a meia luz do abajur.

– Vai ficar só vendo?

Eu não respondi. Ela estava gostando do que estava fazendo. Ela estava se exibindo. Sim, era um show privê. Meu. Só meu. Todo meu.

– Agora, você vai ter que vir até aqui… Acabei de perder um morango…

Suas mãos entre as suas cochas indicavam com clareza por onde eu deveria começar a busca. Tive que intervir. Fui obrigado.

Acho que nunca comi tantos morangos na minha vida. Os lençóis manchados, tudo revirado… Havia morangos no meu cabelo, no dela também… Enfim, outro banho se fez necessário. Água morna, novos gostos, novos cheiros… Começamos tudo de novo. Ela era imparável e isso me tornava impossível.

O espumante rosé que eu levei (eu disse que tinha ido preparado) fez aqueles momentos para lá de especiais parecerem clichê. Eu não me importava. Ela também não. Lembramos do filme “Nove e Meia Semanas de Amor”, com a Kim Basinger e o Mickey Rourke, e caímos na gargalhada. Não era muito difícil rir ao lado dela.

Ainda assim, fiquei com fome. Os morangos não foram suficientes. Pensamos em pedir algo, mas acabei lembrando que as vans que vendem lanches haviam voltado a funcionar naquela semana depois da liberação da Prefeitura. Ficaram 5 meses impedidas de trabalhar. Eu entendia os motivos da proibição, mas nem por isso deixava de ser algo trágico.

– Bora comer um cachorro quente podrão? – sugeri, eufórico.

E lá fomos nós. Salsicha, milho, ervilha, uva passa, azeitona verde, ovo de codorna, maionese, mostarda, ketchup, batata palha e queijo ralado. Cada cachorro quente era literalmente uma bomba calórica absurdamente gostosa! Quando terminamos, demos uma volta no quarteirão para fazer a digestão e voltamos para a casa dela.

– Amanhã eu acordo cedo. Você fica? – disse ela com os olhos pregados, visivelmente cansada.

– Já passamos dessa fase, né? Sei que você quer dormir… Vou para casa terminar de ver uma série no Netflix. Se eu aguentar, claro… Você acabou comigo – ao ouvir isso, a sua fisionomia mudou: debochada, sorridente e vitoriosa, e assim disse tudo que precisava ser dito.

Ela me deu um beijo e esperou eu entrar no elevador. Aguardou eu chegar em casa e mandar uma mensagem dizendo que tinha chegado bem. Dormiu logo em seguida. E eu fui escrever… Melhor assim para não deixar de registrar nenhum detalhe.

Lagunitas

O sábado chegou leve depois de uma noite muito bem dormida: quase 12 horas de sono sem nenhum pit stop. Há tempos um sábado não chegava com um compromisso para a noite. E não, não era uma festa infantil como de costume. Era um encontro para o qual eu havia sido convidado. Algo pessoal e intransferível. Eu já estava desacostumado e só de pensar nisso eu sorria… Meu coração acelerava!

Mandei uma mensagem para ela pelo Telegram dando bom dia. Perguntei se eu deveria levar algo para o nosso encontro à noite e a resposta foi firme: “Não. Você é meu convidado. Você vem, né?” Tudo que fui capaz de dizer foi um “Óbvio!”, que foi respondido com um emoji de sorriso. Eu consegui vê-la sorrindo do outro lado da tela. Eu também sorri.

Por algum motivo, ainda assim eu sentia que tinha que levar alguma coisa para o nosso encontro. Eu não sabia exatamente o quê. Perto da casa dela, havia um quiosque que vendia flores. Comprei um buquê bem colorido de flores do campo. Gosto de rosas, mas me pareciam muito formais para o momento. Eu queria algo bem informal e flores do campo sempre me passaram essa sensação. Eu precisava compartilhar a minha alegria.

19:55. Eu estava cinco minutos adiantado. Puxei conversa com o porteiro. Dei boa noite para um casal de idosos, e exatamente às 20:00 pedi para que minha presença fosse anunciada. Ele sorriu e disse para eu subir. Não dava mais para fugir, pensei eu, e também pensei que tudo que eu não queria era fugir. Eu sentia frio na barriga. Estava parecendo um adolescente. Mais um motivo para me fazer sorrir.

Não precisei tocar a campainha. A porta já estava entreaberta. Eu ofereci as flores a ela, ou melhor, pedi para segura-las porque eu tinha que tirar os sapatos, tirar a máscara, passar álcool em gel… Coisas da pandemia.

– São para você – disse eu enquanto entrava só de meias sala adentro para abraça-la. Abraço daqueles de urso, sem pressa. Sem nenhuma pressa. Tempo suficiente para o perfume dela ficar em mim. Nada doce. No ponto. Na medida. Aliás, ela é toda na medida, mas ninguém precisa saber disso. Só eu.

A cozinha era do tipo americana, e me sentei em um banco que me fazia sentir em um bar (saudades disso!!!). Ela preparava algo para comermos enquanto falávamos sobre a nossa semana. Antes que eu me desse conta, ela me ofereceu um copo de cerveja. Um copo apropriado para uma IPA. E o cheiro também também era de uma IPA. A temperatura perfeita. Como assim?

– Esqueceu que estou no seu Instagram? Lagunitas! – disse ela enquanto me mostrava a garrafa meio que fazendo pose de modelo. Eu decidi parar de sorrir de vez em quando e ficar só em um sorriso contínuo. Eu também estava recebendo flores naquele momento. Certeza.

– Mas vem cá… Esse encontro não era para ser sem álcool? Pelo menos foi essa a impressão que eu fiquei… – perguntei.

– Deixa de ser bobo, vai… O problema era a Tequila. Hoje, você vai de cerveja e eu vou de vinho. Assim, não vamos poder culpar a bebida por qualquer coisa que aconteça… – disse ela com a cara mais cínica do mundo.

Não me aguentei. Levantei rapidamente e a segurei pela cintura. A beijei com fúria. Ela merecia. Eu também. Ela tentou dizer algo. Eu a calei com beijos e a fui conduzindo até o sofá.

– Mas eu ainda não terminei a tábua de frios… – disse ela, com a respiração ofegante.

– E por que não podemos começar pela sobremesa? – retruquei.

E ela se entregou por completo. Eu também. Viramos um só de todos os jeitos e formas. De vários jeitos e formas. O perfume dela virou o meu perfume. O meu perfume virou o perfume dela. As roupas ficaram pelo chão. Os nossos desejos no corpo um do outro. Incrível. Inesquecível. Maduro. Safado. Quente. Suado. Sem pressa.

– E a tal tábua de frios? Bateu uma fome… – perguntei depois de um tempo. Eu tinha perdido a noção do tempo, inclusive.

– Fique aqui… Deixa que eu vou buscar. – ela me disse com os olhos brilhando, absolutamente radiante. A silhueta de seu corpo nu caminhando até a cozinha era deslumbrante. Simplesmente deliciosa.

– Você está me acostumando mal, sabia?

– Estou conseguindo atingir o meu objetivo, então! – disse ela em tom provocador.

Mais uma cerveja, mais uma taça de vinho. A conversa corria leve e solta. Piadas provocantes e pausas… Longas pausas onde as bocas se ocupavam com assuntos mais carnais e de forma alguma menos importantes. Era uma troca intensa de palavras, fluidos, energia, vida. Tudo muito real e intenso. Todos os sentidos mais do que aguçados.

Só depois de muito tempo me dei conta que havia uma playlist tocando. Anos 1980. The Smiths, The Police, The Cure, The Cult, Aerosmith, Bon Jovi. Tudo de bom. Tudo muito, muito bom. Cheguei a pensar que havia algo errado de tão perfeito que tudo estava, mas de dentro de mim surgiu uma voz muito contundente que acabou com todas as minhas dúvidas: “eu mereço”. E é verdade. Eu reconheço. Eu mereço.

Ela adormeceu nos meus braços e então dei-me conta de que já era Dias dos Pais. Peguei o telefone para enviar uma mensagem para a minha filha dizendo que eu chegaria mais tarde, mas ela interveio.

– Fica? – disse ela com um olhar irrecusável.

E eu fiquei (que sofrimento ficar!). Avisei a minha filha que chegaria pela manhã. Respondi a um inquérito antes de desligar o telefone (a relação da minha filha comigo é algo maravilhoso!), que terminou com um emocionante “Feliz Dia dos Pais!”

O dia começou como a noite terminou. Creio que não preciso entrar em detalhes. Ganhei uma escova de dentes e uma toalha. Tomamos café juntos. Ela foi visitar os pais. Eu fui me encontrar com a minha filha. Por volta das 16h00, uma mensagem no meu Telegram: “Feliz Dia dos Pais! Final de semana que vem tem mais!”. Nos falamos por 5 minutos ao telefone. Eu liguei. Ela precisava saber o quanto estava me fazendo feliz.

Dá para ser melhor do que isso? Não sei. Farei de tudo para descobrir. Prometo. Prometo para mim mesmo.

Tequila

Nós olhávamos o pôr do sol da marina. Nas mãos, uma garrafa de Tequila daquelas que são vendidas a preço de ouro, muito embora sejam de prata (sem trocadilhos). Na minha cabeça, o momento pedia nada menos que uma añejo. Paciência.

“Vamos ver que aguenta mais shots?”, com direito à mãos cheias de amendoim e água entre um shot e outro, claro. Combinado.

Chegamos até o terceiro shot falando da vida, de assuntos completamente aleatórios. O sol já havia se retirado. Havia alguns mosquitos, mas hey… Histórias reais não são perfeitas.

No terceiro shot, paramos. A minha responsabilidade era grande. Eu tinha que, no mínimo, empatar. Felizmente, ela disse que não sabia como a Tequila agia no corpo dela, e achou que estava tudo indo bem demais. Fácil demais. Fascinante demais. Eu só concordei. De fato eu estava sentindo o mesmo.

O vento fazia seu cabelo castanho abraçar sua face. Deixava-me hipnotizado de alguma forma. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar, e ouvia atentamente cada palavra que ela dizia. Cada sílaba, cada vogal, cada consoante… Eu ouvia também a respiração dela, e o vento gelado no tímido inverno do Rio de Janeiro fez nossos corpos se aproximarem por instinto. Sobrevivência, achava eu. Eu estava enganado.

Sem perceber, eu estava a poucos centímetros da sua boca. Lábios carnudos, cheios de vida. Deles saíam palavras que me embebedavam, me hipnotizavam. E de repente me dei conta que meu corpo todo era só ouvidos. Ouvidos só dela. Querendo ou não eu era dela pelo menos naquele momento, muito embora não me desse conta disso.

E eu tentei roubar um beijo, muito embora não seja possível roubar aquilo que já era meu. E ela retribuiu. Os hálitos inflamáveis explodiram, até que sua mão direita segurou o meu queixo e ela me disse: “Se importa se continuarmos isso sem a Tequila?”

Eu concordei, claro. Pensei que havia avançado algum sinal vermelho, mas continuamos a conversar. Depois de algum tempo, cada um foi para a sua casa de Uber, e eu achei melhor não tocar no assunto, pelo menos não naquela noite. Melhor deixar para pensar nisso depois da Tequila ir embora do meu corpo.

No domingo, decidi fingir que nada havia acontecido. Eu lembrava do beijo, dos cabelos, dos lábios carnudos, de tudo, mas achei melhor afundar meus pensamentos e desejos em alguma série do Netflix. Qualquer uma. Melhor. Menos perigoso.

Na segunda-feira, ela me ligou e eu não atendi. O dia foi muito corrido. Sem perceber, meu telefone acabou ficando no modo silencioso, e tudo que me restou foi enviar uma mensagem via Telegram dizendo que eu não tinha me dado conta da ligação dela. A minha mensagem foi visualizada e ignorada com sucesso.

Hoje, terça feira pela manhã, o telefone tocou novamente. Era ela e eu estava em uma reunião de trabalho. Por instinto, coloquei o meu headset no mudo e atendi a ligação.

Ela não me disse oi. Só me disse o seguinte: “Sábado, na minha casa, sem Tequila?” Percebi, então, o tamanho do peso que eu carregava em minhas costas e disse um firme sim. Eu merecia o sim. Ela também. Voltei para a reunião de trabalho com frio na barriga. Radiante. Feliz.

Ainda é terca-feira. No sábado, não vai haver Tequila. Só ela. E no que depender de mim, vou tomar um porre disso. Nada melhor que se embebedar sem uma gota de álcool sequer.

Vim trazer verdades 18

– Nossa… Você me enlouquece, me deixa sem ar… Fico até com a sensação de que vou desmaiar… Nunca senti as coisas que sinto com você… Pode estar certo disso!

Qualquer homem com um mínimo de experiência ouve essas frases com cautela. Podem ser ditas apenas para deixar o homem feliz. Por outro lado, fazer amor é muito mais do que uma coisa carnal. Quando há amor, carinho, confiança, cumplicidade, intimidade, entrega e coisas do tipo, a coisa toda acontece em outro patamar. E sim, eu também sentia o que ela sentia, e achava tudo entre nós muito natural diante do amor que sentíamos um pelo outro.

Como era muito frequente ouvi-la dizer essas coisas (todas as vezes), um dia eu resolvi falar mais sobre o assunto.

– Da maneira que você fala, parece até que tenho algum tipo de super poder. Não tenho. E te digo mais… Tudo que acontece entre a gente, que de fato é maravilhoso, é algo só nosso, que já existia em você, que já existia em mim. O amor que sentimos um pelo outro faz as coisas acontecerem dessa forma.

– Mas se já existia, por que demorou tanto tempo na minha vida para eu sentir algo assim? Nunca senti nada nem perto disso… Tudo é novidade… Tenho vontade de fazer coisas que nunca pensei que fosse fazer nada vida…

– Eu acredito – retruquei – até porque eu também sinto isso. Sinto exatamente a mesma coisa. Aliás, andei pensando sobre esse assunto esses dias e encontrei a resposta. De nada adianta um homem ter uma Ferrari se não souber como pilota-la.

– Não entendi… O que você quer dizer com isso? – ela era pura curiosidade ao fazer essa pergunta. Chegou a se afastar de mim e a me encarar para fazê-la.

– Você é uma Ferrari. Só faltava encontrar o piloto certo.

Ela me encarou por alguns segundos, e me beijou profundamente. E mais uma vez, foi tudo como nunca, como era sempre entre a gente.