Eu, peregrino

Só temos o agora,
Deixa a ansiedade lá fora,
Deixa vir o destino.

Quiçá ele é nosso?
E é justamente por isso
Que eu não procrastino.

Ainda que só por hoje,
Teu ventre é o cálice
Para onde eu peregrino.

Na pior das hipóteses,
Memórias, histórias,
Desvairado desatino.

Euforia

Entre as bolhas que murmuram
Na taça de espumante,
Vejo completamente nua
A minha alma e a tua.

Lembro-me do correr dos hojes:
Dos momentos,
Das conversas,
Do sol,
Dos ventos,
Dos aceites,
Das entregas…

No silêncio,
Ouço as bolhas do espumante
Mais ainda murmurantes,
Explodindo em meus ouvidos,
Chamando-me para aceitar o sentido
De tudo que vem acontecendo.

E agora,
Diante da taça vazia,
Aninho-me a teu corpo
E deixo-me ir
Para o amanhã,
Onde lutaremos pelo pão –
E por tudo mais que nos for
Essencial, verdadeiro e necessário –
De cada dia.

E desta vez, que nem tudo se exploda,
Só do espumante as infinitas bolhas:
Bolhas de alegria, alegria!
Posto que tu és revigorante euforia.

Carestia

Não mereces o meu tédio,
Mas minhas melhores notícias,
Que abundam todos os dias
Que anseio por estar contigo.

Não és uma opção ou uma fuga
Dos dias turvos,
Da confusão mental,
Da fumaça dos carros,
Da empáfia dos covardes,
Da verborragia dos trastes.

És uma escolha,
A visceral,
A única.

E por seres única,
Fato é que não tenho opção:
Ou entrego-me pela razão,
Ou pelos horrores de sentir
As dores da tua carestia.

Como eu sou

Deixa eu te dar um beijo de despedida,

Porque eu vou ali viver a vida

Como a gente sonhou.

Vou suar minha camisa,

E vou contar minhas moedas,

Vou procurar nos bolsos das calças

Se necessário for.

Mas não, não vou falar de saudade,

Só de felicidade, de noites viradas,

E de histórias de amor.

E só quero que quem esteja ao meu lado

Tenha o cuidado de amar não o que tenho,

Mas o homem que eu sou.

Conjugados

Há um poema
Entre tuas pernas
Que foi escrito
Com minha língua

Há um poema
Em tua face
Que foi escrito
Com tua caligrafia

Há partes que não cabem
Há partes que não entram
Cheiros e gostos rimados
Por fora e por dentro

Nestes saraus devassos
Nossa história escrevemos
Lirismo que não se cala
Que ou grita ou está gemendo.

Estranhos

É estranho ver uma estranha
Que já foi tão próxima.
É estranho não saber nada
De quem já se soube tudo.
É estranho sentir essa estranheza,
Essa completa falta de conexão.
É estranho reconhecer as feições,
E ainda assim achar que é um vulto.
É estranho que tudo seja estranho,
Onde o amor já desfilou toda sua grandeza.

É estranho.

Eu, estranho.

Você, estranha.

Nós somos estranhos
E ao mesmo tempo,
Não somos mais nada:
Sequer nos estranhamos.