Fica

Não lembro do último toque,
Nem das últimas palavras,
E nem mesmo das datas.
Só lembro das semanas acinzentadas
Que surgiram
E do coração em carne viva
Querendo sair pela boca.

Eu pensei muito no que dizer,
No que confessar
E no que esconder.
Eu pensei muito
E não cheguei à conclusão alguma.

Emudeci.

E hoje mesmo pensei no que diria
Se te visse pela rua,
Se nossos olhares se cruzassem
E nossas almas se flagrassem nuas,
E uma única palavra eu pudesse dizer:

Fica.

E essa palavra diria por mim
Absolutamente tudo.

Rear view of lonely man looking with hope at horizon with sunlight during sunset with effect of light at the end of tunnel

Todo final é triste

Os copos e os pratos ficaram sobre a mesa, porque voltaríamos para terminar o jantar. Nunca mais voltamos.

A comida, agora fria e fedorenta, terá como destino o lixo. Um desperdício diante da fome do mundo, da nossa fome em particular.

Os finais são sempre tristes. Final feliz talvez seja só a morte, porque este acaba de uma vez com toda e qualquer possibilidade de se conviver com outros finais tristes.

Mas ainda assim a morte é um final triste, porque mesmo a vida mais triste de todas, está permeada de momentos que são felizes. Incríveis. Inesquecíveis.

E talvez o amor seja justamente o espaço entre um final triste e outro. O lugar onde a comida ainda está quente e o vinho ainda não virou vinagre. Tudo no ponto e na temperatura certa. Mesa posta e exposta.

E hoje, quando lembro do nosso final triste, lembro dos momentos de amor que foram felizes. Não foram poucos. Eles eram e existem, e insistem em fazer graça, em me fazer sorrir, ainda que seja um sorriso triste.

E vou seguindo em frente, sendo feliz aqui e ali, torcendo para nunca mais ter que viver um final triste, muito embora eu saiba que essa é uma possibilidade que não existe.

Quando o amor vacila – por Antonio Bivar

Eu sei que atrás deste universo de aparências,
Das diferenças todas,
A esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
O café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
E dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
Mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
Pelo teu corpo marcado,
Pelas tuas cicatrizes,
Pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
Mesmo que por causa delas
Eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
Eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
Se a maré das circunstâncias
Não tivesse te banhado
Nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
E na vida sem tempo, quando,
Sozinha, bordo mais uma toalha
De fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
E pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
E que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
Saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
Até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
Ainda que seja através delas
Que eu me defenda,
Quando digo que te amo
Mais que o silêncio dos momentos difíceis,
Quando o próprio amor
Vacila.

Antonio Bivar
Extraído do Programa de Espetáculo do Drama – Luz da Noite – 1973

Liberdade

Liberdade não é dançar como se ninguém estivesse vendo
Mas dançar, do seu jeito, da sua maneira, com todo mundo assistindo

Liberdade não é dinheiro no bolso, restaurantes caros
Mas o direito de optar pelo churrasquinho na esquina rodeado de amigos fiéis, verdadeiros

Liberdade não é viajar quando quiser para Paris, Londres
Mas viver todos os momentos da vida cotidiana como se fossem uma viagem

Liberdade não é ter um carro caro
Mas poder ir para onde quiser, ainda que seja a pé

Liberdade não é fazer planos
Mas viver em toda a sua plenitude tudo que foi planejado

Liberdade não é esperar o momento certo para realizar o sonho
Mas se atirar de cabeça na certeza de que tudo é possivel

Liberdade não é ter a certeza de que tudo vai dar certo
Mas a capacidade de rir e aprender se algo der errado

Liberdade não é ter controle sobre tudo
Mas saber que só se pode controlar a si mesmo

Liberdade não é sobre ser aceito
Mas sobre se aceitar e ter orgulho do que se é

Liberdade não é poder “deixar para amanhã”
Mas viver o hoje como se fosse o último dia

Liberdade não é se livrar apenas de grilhões físicos
Mas sim de toda e qualquer âncora ou amarra mental

Liberdade não é poder falar o que se quer
Mas viver e sentir tudo que se pensa

Liberdade não é não ter medos ou receios
Mas a força que faz com que se vá adiante mesmo que pareça dificil

Liberdade não é ser solteiro ou casado
Mas é sobre dar voz e viver o que vem do coração

Liberdade não é ter a chave de casa
Mas é entregar a chave do seu coração na mão de alguém

E por fim, liberdade não é a percepção dos outros sobre a sua vida
Mas a capacidade de viver sua vida sem se importar com a percepção dos outros

Todos os dias
Eu escolho ser livre
Porque a liberdade não é algo que me deram
Mas sim o que eu me dei quando decidi ser feliz.

Atormenta

Repousa teus lábios nos lábios meus

E me deixa ver teu infinito.

Mostra os mares que são só teus

E as profundezas que eu agito.

Confessa os desejos que não são só meus

E admita que são infinitos.

Recebe teus mares com os mares meus:

Cala a minha boca, sente meus gritos.

Nossa Sina

Faz-se luz na noite do meu dia,
Quando desfilas calma, silenciosa,
Iluminando os alicerces de minh’alma,
Sem saber que o fazes, pois não me conheces,
Ainda assim atendes minhas lúgubres preces,
Seguindo teu destino que te funde ao meu.

Não sei por onde andas, aonde vais,
Pois também não te conheço,
Mas é inegável que tenho por ti grande apreço,
Pelo simples fato de saber que existes.
Dirijo-me para ti, de cabeça em riste,
Com meu lábaro manchado de sangue.

Açoitado fui, vítima de escárnio,
Mas ainda assim respeito as tiranias
Dos que se julgam senhores – pura verborragia!
Mesmo quando o desespero assolava meu leito,
Sonhava em ti, por ti, para que em teu peito
Pudesse alcançar a verdade por detrás.

E tu esperas por mim, sem perceber,
Caminhando os nossos turvejantes dias,
Para acabar de vez com nossa sentimental anemia.
Lembre-se que, quando chegares, nada será como antes,
E eu que ainda sou um mero cavaleiro errante,
Darei grande brado, para em nossa etérea plaga descansar.

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Pegadas no céu

Eu até me via
Do teu lado no altar
Agradecendo a Deus por tudo
Indo de encontro ao mundo
Sem precisar sair do lugar

E os meus versos repetidos
Repeti-los-ia todos os dias
Porque não eram só versos
Eram orações e preces
Agradecimentos e euforias

Havia verdade nos fartos goles
Paixão nas inesquecíveis garfadas
Desejos confessos com os olhos
Declarações em todos os gestos
Afagos entre almas apaixonadas

E nas areias vida afora
Nas pegadas que deixamos no céu
Conversas que transbordam a memória
Muitas, todas inesquecíveis histórias
De um amor que foi tudo, menos vão.