De outro mundo

Há tantas poesias e tantas memórias,
Tantas histórias que fazem o fim
Não ter fim.

E eu tinha medo disso.
Medo de ser consumido pelo passado,
Pelas recordações,
Pelos momentos muito mais do que felizes
Que vivemos juntos.

Hoje, não mais.

Aprendi tanta coisa,
Experimentei tanta coisa,
Vivi tanta coisa boa,
Cresci tanto a teu lado…
Como posso ignorar isso?

O fim foi estranho –
Sabemos disso.
Foi um fim sem fim,
E assim, precisei criar um,
E nele você foi abduzida por ETs.

Talvez eles estejam fazendo experimentos
E estudando o seu DNA,
Mas os ETs gostaram tanto de você –
Feito eu –
Que decidiram não te devolver.
Eu também não devolveria,
Confesso.

Talvez você esteja me vendo de onde está,
Mas isso não importa.
A menos que os ETs tenho lavado sua memória,
Sei que lembra das coisas como eu lembro,
E isso que é o importante:
Mesmo ausente, ser presente na vida de alguém.

Que os ETs cuidem bem de você.
Você merece e sim, eu sei:
Você não é mais do meu mundo.

Anteparo

Parece que cresce
Que remexe, que tece
Que cria raízes
Mas é fotografia
De álbum antigo
De melancolia

Só que é tão presente
Que quando ausente
Não deixa nem respirar
E quando presente
Faz o não coerente
Para a razão se ausentar

Talvez seja eterno
O jeito mais que doce
De não falar de amor
De um amor tão calado,
Que berra pecados,
Que urra e canta…

A beleza de amar
O que o torpe destino
Não quis coroar
Pois nem coroa apresenta
E seu cetro só ostenta
Lágrimas de um trovador

E nesse império
De luxúria e mistério
Rego com lágrimas o que plantei
Um sopro de vida
Uma divina rotina
De carinhos não meus

Quem sabe outra chance
Outro dia, outro lance,
Com a sorte desnuda
Feito meu peito rasgado
Pelos lábios molhados
Que eu afirmo: são meus.

Que sirva de aviso –
Não há prejuízo
Em amar até morrer
Pois até no desamparo
O amor é o anteparo
Dos males do eu.

coracaopaixao

Vai ou racha

Eu sou assim mesmo
Na base do vai ou racha
Não tenho muito tato
Para lidar com o meio termo

“Como está o seu café?”
Se está meio morno
Está ruim
Se está meio ralo
Está ruim

O meio termo
É meio bom
E tudo que é meio bom
É inteiramente ruim.

A pulga

Ele não a vê. Ele só a sente na pele, por todo o corpo, na mente. Ela é dele. Ela está lá. Nunca o abandonará.

Não há remédio, reza, oração, prece, promessa, jura, simpatia, garrafada ou algo similar para dela se livrar. Ela é dele. Ela está lá. Nunca o substituirá.

A pulga atrás da orelha está presente, em todo o tempo e qualquer lugar. Ela é dele. Ele é dela. Ela é dele. Ele é dela. Ela é dele. Ele é dela…

O Louco – Khalil Gibran

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz no cimo do telhado de uma casa gritou:

“É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo.

O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.

E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.

E encontrei tanta liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Em boa companhia

Ao andar sozinho

Percebi detalhes do caminho

Fui capaz de ouvir meus passos

Observar minha respiração

E o ritmo do meu coração:

Eu me senti

 

Ao andar sozinho

Passei por flores e espinhos

Becos, avenidas e praças

Do chão batido ao asfalto

Do sapê ao concreto, do aço à lata:

Eu senti o mundo

 

Ao andar sozinho

Provei todas as cores e temperos

Beijos e abraços intensos, insossos e acesos

Camas desarrumadas e fartura sobre as mesas

Tudo passageiro com retrogosto definitivo:

Eu senti o passar do tempo

 

Ao andar sozinho

Nada controlei ou antecipei

Nada esperei e muito recebi

E com o peito inundado pela esperança

Tornei-me da minha vida autor e protagonista:

Eu me reconheci.

Eu rumo

Hoje, reparei nas nuvens

Há tempos não fazia isso

Céu azul de inverno

Nuvens como se fossem de algodão

Sendo levadas pelo vento

 

Deixou-me curioso a sua leveza

Enquanto nuvem, à mercê do vento

Indo como se soubesse a direção

Ignorando sua própria existência

Seu motivo e razão

 

Nuvens claras nos dias de sol

Escuras nos dias de chuva

Livres

Felizes

Indo para não se sabe onde

 

E pensei que eu também gostaria de ser nuvem

Eu queria ir…

Ir…

Mundo afora, sem porque ou motivação

Descobrir aonde o vento faz a curva

E ser insubstancial, nada urgente

No inverno e também no verão

 

Mas há quem nasça para ser nuvem

E há quem nasça para ser vento

 

Eu sou vento!

 

Da brisa suave

Até qualquer grande tormenta

Eu carrego

Eu levo

Eu movo e removo

Eu faço o que tiver que ser feito

Eu simplesmente não me contento.

É Deus

Já não carrego mais lembranças

Levo comigo os esquecimentos

Que insistem em dar seus ares

Vez ou outra

 

Ressignifiquei momentos

Bati prosas com o espelho

Guardei meu nariz vermelho

Fugi do circo

 

Ainda carrego certa culpa

De ter gasto tanto tempo

Admitindo o inadmissível

Vivendo a vida sem viver

 

Mas agora, vida afora

Vida aflora dos cacos de outrora

Aos poucos me reconstruindo

E meu restaurador tudo pode:

Ele é Deus.

Coração tranquilo

É fácil

Olhar para o outro

Julgá-lo e condená-lo

Sem sequer ouvi-lo

 

É fácil

Ser injusto

Fechar os olhos e ouvidos

Ignorar sentimentos e distorcer sentidos

 

É fácil

Dar as costas

Ignorar os fatos

Distorcer o passado que já serviu de abrigo

 

É fácil

Sempre será mais fácil

Eximir-se de culpa

Ferir quem já está mais do que ferido

 

Mas o tempo tudo mostra

E revelar-se-ão as respostas

As intenções e as propostas

Do fundo de um coração tranquilo

 

Se a cruz for ter amado –

Em nome de Deus, ter amado –

Ainda que o amor seja negado

Permanece vivo, sagrado e sossegado

Nos feitos e atos de um coração tranquilo.