Temporário

Eu sou
O que está por detrás
Das portas que não abro
O que não encaro
Nas janelas que embaço
As músicas que não escuto
Os petiscos que não degusto
Os vinhos que não abro
As conversas que não tenho
Os sentimentos que ignoro
E tudo mais que disfarço

Eu estou
Sem sede
Sem fome
Entalado
Mofado
Abismado
Atordoado
Disperso
Possesso
Compresso
Inconfesso
Puto!
E mais nada

Eu estou
O reverso
Eu estou
Ao contrário
E diante
Desse corolário
Eu estou morto
Mas esse óbito –
Valha-me, Deus! –
É temporário.

Inconveniente

Falta-me inspiração
Porque nada me falta
Ou se me falta algo
Disso não me dei conta

Sinto-me estranho:
Sinto falta de sentir falta

Pois bem…

A plenitude e eu
Somos péssimos amigos
E ela só me visita
Quando eu não a procuro
E teima em aparecer
Quando não é chamada

Abusada!

Mas já que chegou do nada
Toma comigo um café
E aproveita a sua estada
Prometo trata-la bem
Ainda que não seja minha convidada.

Ademais

Quando olho para meu passado
Percebo os momentos exatos
Em que fiz demais
Tentei demais
Falei demais
Demais…

Não mais!

Porque quem eu era
Já não mais sou
Mas ainda sou
E ainda sinto
Sinto muito
Ademais.

Saint Patrick’s Day e Heineken

Sempre fui o maior propagandista da Heineken, até mesmo quando ela não era conhecida no Brasil. De alguma forma, a bendita holandesa tinha conquistado o meu coração, e como eu viajava muito mundo afora, tinha virado meu padrão de cerveja, que eu pedia sem surpresas em qualquer lugar que fosse.

Observação: Me arrependo muito de ter feito tanta propaganda. No início, por volta de 2010, meus amigos odiavam. Achavam amarga demais. Hoje em dia, todo mundo só quer saber de Heineken e o preço dela disparou no Brasil. A Heineken virou uma espécie de “cerveja ostentação”. Há gente, inclusive, que bebe Heineken sem gostar de Heineken. Vai entender…

E lá estávamos nós, eu e ela, bebendo Heineken em um Saint Patrick’s Day. Estávamos no Madero, que oferecia chopp da Heineken e da Amstel (que também é da Heineken). Sem a gente se dar conta, uma equipe da Heineken chegou até o Madero para distribuir brindes nesse dia, o que faz todo o sentido por conta da Heineken ser uma “cerveja verde” (as latas e garrafas são verdes).

Conversa vai, conversa vem (não faltava entusiasmo, assunto e nem vontade de estar ali), e percebi que havia uma fotógrafa batendo fotos de nós dois. Era uma fotógrafa da equipe da Heineken. Fui até ela para perguntar o motivo das fotos, e ela me disse que seriam usadas no site oficial da Heineken no Brasil para falar da campanha que eles estavam promovendo.

– Olha, infelizmente você não vai poder usar essas fotos…

– Mas por quê? – a fotógrafa me perguntou surpresa.

– É que trabalhamos na mesma empresa… Não é algo que queríamos deixar exatamente público…

– Nossa… Mas vocês estão tão animados e formam um casal tão bonito… Uma pena… – e começou a apagar imediatamente as fotos de sua câmera profissional. Estava visivelmente frustrada.

Não cheguei a ver as fotos. Eu mesmo fiquei triste com o pedido que precisei fazer. Não queria, mas nem sempre a vida é como a gente quer. Mesmo assim, saímos cheios de brindes da Heineken do Madero. Definitivamente, uma noite especial.

E por que estou contando tudo isso?

1) Para que conheçam o Saint Patrick’s Day – mais detalhes aqui.

2) Para dizer que a Heineken continua sendo a cerveja não artesanal que mora em meu coração.

3) E para contar que quando você está feliz, as pessoas percebem. A nossa aura muda de alguma forma. Ficamos iluminados por assim dizer. Contagiamos os outros. Viramos até modelos por conta disso. 🙂

Bebam com moderação e em casa (nada de festinhas e bares por conta da pandemia). E, sobretudo, sejam felizes! Transbordem felicidade! O mundo fica muito melhor assim.

Cheers!

Boa mesa

Tínhamos essa mania louca
De olhar um para o outro
Em lados opostos da mesa
E nos confundir com comida

Poderíamos até culpar o vinho
Mas tornou-se um hábito
Ver a mesa posta
As vontades expostas
E a comida quase intocada, fria

A fome?
Saciada, todavia.

Não sou em vão!

Admiro tanto os poetas
Ao ponto de não me considerar um

Leio coisas que me desnudam
Que desnudam os outros
Métricas, rimas
Tudo perfeito
Nem mais, nem menos
As coisas como são

Mas eu não sei como são as minhas coisas
Só sei que são

E talvez ser poeta seja isso –
Não sei –
Falar das coisas como as vejo
Como as sinto
Como com elas pelejo

E esse meu esforço pagão
Há de fazer sentido
Na vida, em algum vão perdido
Das minhas coisas como são

É uma forma de dizer –
E como eu preciso dizer –
Não sou em vão!

Quase um velório

Feito vela que vejo acesa
Que traz você em sua chama
Ora sinuosa, ora imóvel
Me iluminando
Me queimando
Feito milhões de sóis

À luz desta vela eu sigo
Velando dia e noite
Ainda que sem voz
Até que a chama se apague
E tudo mais se cale
E fiquemos em definitivo a sós.