Decerto

Há coisas que são só para os olhos

E há aquelas coisas

Que ousam –

Que pousam! –

No ventre,

No útero,

No nascer,

No adeus,

Em Deus,

 

Há coisas –

E de todas essas coisas –

Há o grito,

Calmo ou aflito,

Onde te penumbro,

E nunca te ofusco.

 

Há luz,

Há verdade,

Há claridade

Na cerca que não cerca,

No abraço que não prende,

Na doença que não e moléstia,

Na ausência que é presença

Farta e certa.

 

E tudo

No momento certo,

Quer seja no coração que sangra,

Ou no que o orgulho lacra –

Aberto! –

Renasce por suas próprias forças,

Posto que o amor

Ressurge e urge

No presente fingido,

Cujo futuro –

Decerto –

É comunhão,

Entrega,

Vida,

Sublime abnegação,

Água no deserto.

Janelas

Entre tantos parapeitos,

Por que escolheste pousar justo neste?

Justo nestas janelas,

Nas minhas janelas,

Que para mim eram só mais umas janelas –

Entre tantas outras –

De onde eu via o mundo,

E de onde eu não imaginava

Que tu me vias.

 

Abriste meus olhos –

Sim, as tais janelas –

E enxergou-me por dentro,

Enquanto eu sorria do lado de fora.

 

Deixei que o fizesse sem pressa –

Mas também sem demora –

Porque eu não saberia descrever

Tudo que dentro de mim ficou

E nunca foi-se embora.

 

E desde então,

Minhas janelas seguem abertas para o mundo,

Em todo e qualquer segundo,

E de todo e qualquer jeito.

Pois sempre que pousas

No meu parapeito

Convido-te a entrar

Para repousar,

E para te aninhar

Bem dentro –

No centro –

Do meu peito.

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Manteiga

Eu só cresci te amando,

E quero que isso fique claro.

 

Não há choro ou velas,

Porque ninguém morreu.

É que de amor não se morre:

De amor se vive.

 

Percebe a sutil diferença?

Amor é aquela risada

Carregada de sacanagem

Que só a gente consegue entender.

É o olhar e dizer:

É ali que queremos

E é ali que chegaremos.

 

Não pelos outros,

Tudo por você,

Por mim,

Por nós.

Porque no mundo estamos a sós

Bombardeados por olhares

De quem nossos sapatos não calça.

 

Porra!

O mundo não quer saber

Se vamos conseguir ou não!

A lenda é nossa,

A história é nossa.

Era para a gente escrever o livro

E depois, só depois,

Pedir perdão!

 

A quem,

Eu juro que não sei.

Desde quando se pede desculpas

Por viver justo o que não é em vão?

 

E é assim,

Puro coração,

O dia-a-dia de quem ama.

Não, não há ilusão.

A resposta vem do útero do coração.

Essa coisa não se importa

Se a gente acredita ou não!

Essa coisa é

E o tempo todo diz.

 

Eu só cresci te amando,

E durante esse processo,

Acabei me reencontrando.

Te vi e me vi tão perfeitos,

Alma na alma,

Peito no peito,

Feito propaganda de margarina,

Mas só que nós somos pura, saudável,

E francesa manteiga.

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É preciso!

É preciso se permitir sentir

Longe dos olhos e das bocas dos outros

Longe das fisionomias

E da linguagem corporal

Que sem saber dos fatos, julga

 

É preciso olhar para dentro

E de dentro olhar para fora

Ver como só se pode ver

Quando as luzes se apagam

E todo mundo já foi embora

 

É preciso crer na intuição

Ouvir a voz do coração

E sentir-se dono do sim e do não

E pensar não no caminho

Mas no que faz chegar ao futuro

 

É preciso saber o que é preciso

É preciso saber o que é da alma

É preciso saber que o tempo passa

É preciso saber que tudo muda

 

Menos aquilo… Aquilo não…

Aquilo não muda

 

É preciso saber qual é o nosso aquilo

Sorrir… Viver… Ser feliz…

E transformar o aquilo no isso

Pois no fundo

Com o coração desnudo

É do isso

É de tudo isso que se precisa.

Desmascarando

Máscaras…

Já não te valem mais nada

Caíram

Despedaçaram-se

Simplesmente sumiram

 

Vi teus olhos marejados

Na despedida

As gargalhas desmedidas

Abundantes fagulhas e centelhas de vida

O teu olhar de admiração

Que fez tua alma ficar despida

Teu corpo contraindo-se em turbilhão

Enquanto repousas em mim, exaurida

 

Foram-se todas as máscaras

Mas tu não podes

E nem queres ir mais:

De que adianta ires só de corpo

E tua alma ficar para trás?

 

E quanto as minhas máscaras

Como bem sabes

Nunca as tive:

Na presença ou na ausência

No sorriso ou no pranto

O amor por ti eternamente reside.

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