Baiuca

Entrego-me a teus carinhos de sempre,

Que hoje me tocam como nunca.

Deixa-me repousar em teu ventre,

Com teus dedos em minha nuca.

Livra-me do mal que me espreita,

Cuja dor parece que não caduca.

Rogo tão só a tua presença,

Para que eu não me afogue em alguma reles baiuca.

Invariavelmente

E no final,

O rastilho falhou.

Dizem que foi obra

De Nosso Senhor

E disso eu não duvido.

Nada explodiu,

Ninguém morreu –

Doeu, mas já passou –

Que fim tudo levou?

Eu não sei

E só quando sei

É que digo.

Talvez haja explicação –

Talvez não –

Mas se esta existe,

Não está de bem comigo.

Vou ser mesmo é trovador

E falar por aí do amor,

Daqueles que ninguém

Nunca sentiu

Ou nem mesmo falou,

E que toda noite,

Invariavelmente,

Dorme comigo

E serve-me de abrigo.

Crescendo…

Ninguém jamais perdeu algo na vida por ser honesto, sincero, verdadeiro, grato, compreensivo, carinhoso, amoroso, bondoso, cuidadoso e, acima de tudo, gentil.

Muitas pessoas alegam que perderam tempo sendo assim com pessoas que não mereciam, mas eu pergunto: qual é o mérito de ser somente assim com quem também é assim com você?

A vida é uma escola e somos eternos alunos. Cada vez que somos gentis, por exemplo, mais gentis nos tornamos. Praticar o bem nos torna melhores do que já somos. Sempre.

O mundo dos outros pode não espelhar aquilo que somos ou fazemos, mas o universo… Este sim é o nosso grande espelho, e dele receberemos exatamente tudo aquilo que nele projetamos.

Nunca se decepcione. Mais a frente, a vida mostrará de forma inequívoca que tudo sempre valeu a pena. Viver vale a pena. Ser de verdade vale a pena. Sempre. 🙂

Você merece!

Se perdoe, vai…

Se perdoe e vá.

Pois a vida é curta

E o tempo é breve.

Mas as memórias e os sentimentos,

O calor e a cor dos momentos,

As nuances dos tempos,

São perpétuos

E transcendem jazigos perpétuos.

Se perdoe, vai…

Você merece.

Simplesmente vá.

Agora

Se não sentires vontade de falar comigo quando Morfeu te devolve ao mundo ou mesmo quando ele se prepara para novamente receber-te, vai-te embora.

Se a músicas que ouvimos tantas e tantas vezes juntos não te remete aos inúmeros pequenos e grandes momentos que vivemos juntos, vai-te embora.

Se a calor do sol que esquenta a tua pele não fizer com que te lembres de todas as loucuras que já vivemos na cama (e em outros lugares também), vai-te embora.

Se os aromas e gostos que tanto nos diziam não forem capazes de fazer com sintas frio na barriga ou arrepios na pele, vai-te embora.

Se eu não estiver na lista daqueles que surgem na tua mente quando estás com um problema ou simplesmente porque precisas desabafar, vai-te embora.

Talvez eu implore para que fiques. Vai me doer, vai me fazer sangrar, mas insisto: vai-te embora.

Porque há muito mais no mundo esperando por mim. Eu sei que há, pois já passei por isso antes. Talvez passe por isso novamente. Eu não sei. Só vai-te embora, porque é chegada a minha hora e a nossa hora morreu de inanição.

Mas acima de tudo, vai-te embora, porque não preciso da tua pena. Não preciso da tua misericórdia. Não preciso da tua caridade, porque sei que ainda que eu caia, jamais ficarei no chão. A verdade não é capaz de me matar. Nunca será.

E se assim for, vai-te embora, porque a tua presença impede o milagre do porvir e de tudo que preciso para viver e me sentir vivo.

Eu quero tudo e quero muito. E quero agora, porque eu vivo e sou o agora.

E agora, vai-te embora. Sem demora. Há pressa diante do que a vida ainda tem para mim.

Anil

Volta e meia,
Visitas-me em sonhos.

Interagimos,
Nos sentimos –
Existimos! –
Pelo menos durante a madrugada anil.

E quando o dia seguinte se acorda,
Fica a presença,
O perfume,
O toque…
Fica até a tua voz!

Fica tudo de quem para sempre se foi,
Mas que de mim nunca partiu.

Autossabotagem

E se…
Vai que…
Quem sabe?
Será?
Talvez…

No mundo das escolhas,
No palco das ilusões,
No futuro que se altera
Diante do sim e do não,
A vida segue resoluta,
Diante da amarga autossabotagem
Que é não tomada de uma decisão.

Qualquer coisa
É só culpar o destino
E deixar tudo por isso mesmo:
Café frio sobre a mesa
Adoçado com lágrimas ácidas e salgadas
Que brotam do coração.

A felicidade dá medo;
Todo o resto não.

Orvalho

Vapor de água que se condensa

E escorre por entre tuas pernas.

Todos os dias tu me orvalhas;

Todos os dias eu me hidrato;

Todos os dias és um fato;

Um oásis que me inunda e se esbarra

Em tudo que de mais sacro há em mim.

Minha seiva,

Meu tormento,

Meu alimento:

Bebo-te,

Trago-te,

Fodo-te…

Dia após dias,

Do início ao fim.