Sem palavras

Você me conquistou no dia em que eu precisei ir
E sem palavras você me disse: “eu te espero”

Acabei por voltar de onde nem era o meu lugar
E sem palavras você me disse: “eu te quero”

E por fim, trocamos olhares tomando vinho no chão da sala
E sem palavras você me disse: “eu te amo”

Estou até agora sem palavras
E eu não sou de ficar sem palavras

Mas mesmo que eu tivesse todas as palavras
Meu coração resiste e ao mesmo tempo insiste
Para que eu lhe diga sem palavras: “eu também”.

Punas-me!

Silêncio…

Só consigo sentir os teus gemidos
Tuas coxas selaram meus ouvidos

Falar eu não consigo
E ainda assim com fúria te bendigo

Por que fazes isso comigo?

Teu ventre é um perigo
Mereço de fato este castigo?

Mereço
E pior do que isso:
Quero sempre mais

Punas-me!

NUNCA

Eu me lembro do quanto era fantástico fazer amor com você
Você dizia e fazia que me amava, e eu a amava integralmente, totalmente –
Parecia que de fato nos amávamos –
E todas as vezes que nos deitávamos era assim

TODAS

Cada toque meu em seu corpo, por mais safado e absurdo que fosse
Também era sempre um profundo gesto de amor e reverencial respeito
Fui fiel a você em toda e qualquer circunstância
Mais do que isso, fui fiel a mim e a meus sentimentos
Você era para mim a personificação do sagrado feminino

SEMPRE

Mas, se aquela com a qual me deitei tantas vezes era só uma projeção ou espelhamento dos meus desejos
Uma persona criada para tirar de mim o que eu sou capaz de ser e fazer somente quando amo e acredito que sou amado
Sou obrigado a reconhecer que eu jamais me deitei ou fiz amor com você
E as consequências disso são inevitáveis e inadiáveis:
Em tempo algum me teve ou foi por mim amada de verdade: sequer sei quem é você

NUNCA.

Soberana

Ela não pediu minha permissão
Só segurou na minha mão
E me fez olhar para frente

Não me pediu explicação
Sem nenhum porém ou senão
Acalentou minha alma descrente

Não tocou meu corpo em vão
Fez novamente bater meu coração
Disse-me tudo que realmente sente

Invadiu-me a felicidade do seu condão
Mostrou-me que nada foi em vão
E que tudo pode um homem valente

Homem
Ela me teve como homem
E ela em mim se fez mulher
Do tipo que sabe o que quer.

Quase nada

Procurei em tuas palavras
Algo que fizesse sentido
Abraço ou ombro amigo
Não encontrei nada

Olhei para o vazio
Para o leito de um rio
De onde tudo já jorrou
E no qual não corre nem mais água

Não é que tenha dado em nada
Tudo deu e tudo foi
O antes, o durante e o depois
Esperanças embalsamadas

Afasta-me o tempo
Derruba-me sem alento
E o que ficou para comer
Foi a poeira da estrada

Nas idas e vindas
Das eternas despedidas
Restou só um amor
Que não vale nada.

Sejamos crianças para sempre!

Na medida em que vamos ficando adultos, nossa visão muitas vezes se turva. Que nós sejamos para sempre feito as crianças dessa foto, e que nossa conexão com o outro seja sempre no nível da alma.