Peito aberto

És assim:

A última coisa que penso antes de morrer

 

Morro todas as noites

Ressuscito todos os dias

E da gaveta do meu necrotério pessoal

Onde permanecem insepultos

Tanto o bem quanto o mal

Levanto-me e não me encontro

No obituário do jornal

 

E nesse estado de inexistência e torpor

Morto e roto

Liberto do amor

Não sinto tua falta

De fato, nada sinto

Pois lá

Seja lá onde esse lá for

Nem tu nem eu existimos

 

Dia e noite

Noite dia

Vida sem sorte

Abraça-me a morte

Nua e fria!

Esquece-me a vida

Sufocante agonia!

 

Inexistência de tristeza e alegria

Eu diria

Não fosse esse implacável despertador

Que todo santo dia

É meu desfibrilador

E que me lembra de sentir dor

Cirurgia de peito aberto de saudade

Sem nenhuma anestesia.

homem-necroterio-010116

Anagnórise – Face a Face

Parte I

 

Politomia: palavras, sentimentos, indagações

Pilares de sustentação do porvir

 

No vôo torto daqueles

Que querem

Que desejam

Que perguntam

Que questionam…

 

Buscam-se

Acham-se

Perdem-se

Encontram-se

Tocam-se

Devoram-se

Repelem-se

Atraem-se

Riem

Choram

Lamentam

Contemplam

É chegado o derradeiro

Momento

 

Não há fuga possível

Não há clemência

Não há coup de grâce

Há confronto

Há enfrentamento

Há tempestade

Há tormento!

 

Tudo acontece tão rápido

Ao ponto do futuro

Já ter se passado

As palavras

Os sentimentos

As indgações

Inundam

Fervilham

Borbulham

E aumentam!

 

São muitas

Todas as coisas

São brutas

Precisam de luz

Feito mariposas

E rodopiam

Pois eis que não havia

Plano de vôo algum!

 

Os cheiros

Os gostos

A textura

O calor

O suor –

DESEJOS –

Tudo desesperador!

Tudo queima!

Tudo tem rubor!

 

Tortura

Comichão

Sem nenhum pudor

A culpa

A desculpa

Longa metragem

Insuportável terror!

 

E nessa politomia

De vidas nada vazias

Chega o sono…

E vai-se logo em seguida

Medo da noite

Brutal açoite

Nenhuma alforria!

 

O teto não fornece respostas

E nem mesmo poesias

Logo logo chegam

Os primeiros sinais do dia

Que iluminam

A cama vazia

Abarrotada de

100 milhões

De tons cinzentos

Sem nenhuma anestesia.

casaval1

Navegação