Você não é uma “receita de bolo”

Depois de ler alguns (vários!!!) livros de autoajuda, cheguei a uma conclusão decepcionante: muito se fala em melhorar os defeitos, e pouco se fala em fortalecer ou mesmo identificar as qualidades de um determinado indivíduo.

Vamos começar pelo básico: ninguém é perfeito. Logo, todos possuem defeitos e qualidades. Não há um único ser humano que só tenha defeitos ou que só tenha qualidades. O seres humanos são completamente híbridos. Defeitos e qualidades em maior ou em menor grau rpresentam o indivíduo e o fazem único.

Dito isso, desde quando ser do jeito A ou B passou a ser norma? Como dizer se a introversão ou a extroversão, que fazem parte do temperamento básico, são defeitos ou qualidades? Vai depender do contexto. Vai depender de quem observa. Não há certo ou errado. Há somente o que se é.

Os livros de autoajuda parecem mostrar que há uma espécie de “receita de bolo” ou arquétipo que torna uma pessoa mais ou menos sociável, mais ou menos atraente, mais ou menos correta, e por aí vai. Não é meu objetivo travar uma batalha com Jung, mas fato é que arquétipos são limitadores e geram a sensação de inadequação que muitos vem sentindo durante esse período turbulento da história da humanidade.

Dito isso, resta uma pergunta importante: quais são os seus defeitos e quais são as suas qualidades? O que te faz único? Em um relacionamento afetivo, por exemplo, será uma determinada característica de sua personalidade algo bom ou ruim? Obviamente, não há resposta correta e também não há “receita de bolo” que resolva isso.

E sabendo de seus defeitos e qualidades, por que parece que o foco, em geral, é apenas nos seus defeitos? Por que você se importa tanto com os defeitos dos outros? Não seria mais sadio e produtivo estimular o que as pessoas tem de melhor e, em momento oportuno, conversar sobre o que pode ser melhorado? Infelizmente, foco nos defeitos parece ser uma espécie de obsessão, tanto para quem tem os defeitos como para quem aponta os defeitos. Juízes não togados de porra nenhuma, por assim dizer.

E por que é importante, então, saber quais são os seus defeitos e qualidades? Porque partindo do pressuposto que não há “receita de bolo”, o que pode ser considerado um defeito por uns, pode ser considerado uma qualidade por outros. E se você não tiver a consciência de seus defeitos e qualidades, estará eternamente nas mãos de quem tem observa. Estará a mercê de julgamentos de pessoas que pouco ou nada conhecem sobre você ou sua vida, mas que se apressarão em defini-lo ainda que não tenham embasamento para isso.

Conheça-se. Reconheça-se. Não deixe que ninguém o culpe pelo que não é culpa sua ou que tente transformar em defeito o que é qualidade (e vice-versa). Se a beleza está nos olhos de quem vê, esteja sempre a procura de quem vê as suas qualidades com bons olhos, e que compreenda e ajude com seus defeitos.

Em tempo: o mundo seria um porre de todas as pessoas fossem iguais. Ainda bem que não há “receitas de bolo”. Que o “gado” fique com os arquétipos!

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La Campanella, de Liszt, por Nobuyuki Tsujii

Quando tudo parecer que vai dar errado ou já estiver dando errado, e quando parecer que o universo está conspirando contra você, abra os braços e grite do lugar mais alto que encontrar:

“FODEU!!!”

Poucos entendem o poder libertador que tem esse grito. Primeiro, porque ele libera toda a carga negativa que está dentro de você, e segundo porque reconhecer que você está com problemas é o primeiro passo para se livrar deles.

Nunca chegamos até o fim do poço da noite para o dia. É óbvio que não estou falando de tragédias primárias (acidentes, homicídios, algumas doenças, etc.), mas, em geral, nós somos cúmplices dos nossos problemas, e de uma forma ou de outra diretamente responsáveis por eles.

Sabe aquela pessoa que não te respeita? Algum dia, ela te faltou com o respeito pela primeira vez. Talvez por amor ou por pura baixa auto-estima, você tenha simplesmente ignorado isso. Achou que ia melhorar com o tempo? Se deu mal, né?

E do seu emprego, você reclama muito? Uma bosta, né? Chefe chato, ambiente pesado, salário baixo… É um martírio sair da cama para trabalhar! Quer arrumar outra coisa logo só para reiniciar o ciclo de lamentações, não é mesmo?

A vida é assim. Em geral, pouco fazemos por nós mesmos. Ao invés de darmos um basta em relações nocivas, procuramos desculpas para prosseguir e assumimos até mesmo culpas que não temos! Reclamamos do nosso emprego, mas não tentamos nos qualificar, mudar nossa maneira de ver e se relacionar com a empresa, e muito menos consideramos como poderia ser pior estar de fato desempregado.

Da mesma forma que não se faz um perdedor da noite para o dia, um vencedor também não se faz de repente. A grande diferença é que o vencedor é persistente, tenaz, e não se conforma com os limites a ele impostos, quer seja pela vida ou pela sociedade. Ele corre atrás. Ele faz acontecer. Em geral, os grandes vencedores perderam muito e abriram mão de muita coisa para chegar onde chegaram. Com certeza não foi obra do acaso.

E por que eu disse tudo isso? Para você pensar antes de gritar o tal “FODEU!!!”. Ainda pode e piorar, e mesmo assim sair dessas situações só depende de você.

Apresento-vos o pianista Nobuyuki Tsujii. Muitos se referem a ele como o pianista cego japonês. E desde quando isso é importante? Ele é um fenômeno, e a intepretação dele dessa obra é a melhor que já vi.

Com vocês, Nobuyuki Tsujii. Ao invés de gritar “FODEU!!!”, ele tomou as rédeas de sua vida e dentro de suas limitações, muito maiores do que as da grande maioria que reclama, conseguiu ser transformar em um virtuoso. Lembre-se SEMPRE disso!

P.S.: Na verdade, a obra original é de Paganini. Liszt fez um estudo em cima dessa obra, e ele mesmo jamais consegui toca-la no andamento correto. Enfim… É material para poucos.

Vada a bordo, cazzo!

É comum, e diria que até natural, que em algum momento da vida, a busca de um sentido, de uma razão, se torne uma espécie de tônica em sua vida. Afinal, qual é o sentido disso tudo? Para que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Por que nada parece fazer sentido? Por que ainda há gente que vota no PT?

Não tenho uma resposta definitiva, mas a analogia de imaginar-se em um navio diante de mar turbulento parece ser bastante apropriada. Visibilidade próxima do zero. A chuva, o vento, e a proximidade com rochedos fazem a parecer que não é possível ter controle algum sobre a embarcação, e que é obrigação cartesiana o contentamento com os rumos e destinos reservados pela tempestade, sejam eles bons ou ruins.

E eis que então, como que em um passe de mágica, dos porões inundados do navio surge uma faísca que religa os motores. As luzes se restabelecem. As cartas de navegação reaparecem e, de alguma forma, começam a fazer sentido. E não por sorte, um farol ilumina o horizonte, indicando de maneira clara e inequívoca para onde o navio deve prosseguir.

Surpresa! VOCÊ é o capitão de sua vida. Se decidiu ou foi forçado a enfrentar mares turbulentos, lembre-se que ainda assim VOCÊ está no controle. O farol nada mais é que o seu objetivo maior, onde você realmente quer e precisa chegar. É a SUA felicidade. Faça o que for necessário para alcanca-la. Lembre-se apenas de que há outros em busca de suas respectivas felicidades também. Jamais passe por cima destes.

P.S.: Francesco Schettino, ex-comandante do navio Costa Concordia, foi condenado a 16 anos de prisão por causa do naufrágio do cruzeiro no qual morreram 32 pessoas, em janeiro de 2012. Além da “barbeiragem” de ter conduzido o seu navio até os rochedos, Schettino abandonou a embarcação, a sua tripulação e todos os passageiros a sua própria sorte logo após o acidente. Não seja um Schettino em sua vida. Vada a bordo, cazzo!

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/comandante-do-costa-concordia-e-condenado-16-anos-de-prisao.html

Mudanças

Mudanças é tudo que podemos esperar da vida. Elas chegam quando menos esperamos, e temos que nos adaptar, e mesmo improvisar para seguirmos adiante. Durante este processo, sentimos um pouco de tudo: raiva, frustração, tristeza, alívio. Não negar estes sentimentos é fundamental. Deixe que eles venham. Sinta-os. Procure suas causas. Cuide deles. Fazem parte de você. Nega-los é negar-se. Não enfrenta-los é privar-se do melhor que a vida tem a nos oferecer, que é a nossa evolução enquanto pessoas, no nível moral e espiritual.

Não temos controle algum sobre estas mudanças. É claro que podemos decidir se vamos dormir até mais tarde ou ir para a academia, mas de acordo com o nosso livre arbítrio, o que controlamos é como recebemos as mudanças, e não as mudanças propriamente ditas. Cabe a nós decidir se a mudança é uma oportunidade de crescimento ou motivo para nos afundarmos na amargura e na depressão.

É claro que é mais fácil falar do que fazer. Crescer dói, e não dói pouco! Amizades serão desfeitas e outras amizades surgirão. Pessoas se aproximarão por um breve tempo e depois desaparecerão. Desafios insolúveis serão vencidos e outros tantos desafios aparecerão. Tudo tem um propósito, quer o conheçamos ou não.

E aí? Vai deixar a banda passar ou vai fazer parte dela? Não lamente pelo que fez! Só erra quem algo tenta fazer! E mesmo assim, será que foi realmente um erro? Não deixe que os outros determinem as suas qualidades e seus defeitos. Somente você é conhecedor do que se passa na sua alma, no seu coração.

Que o universo traga para suas vidas experiências que os tornem melhores. É o que desejo para os amigos ou não.

Uma semana abundante para todos!

Trilha sonora recomendada:

Postado originalmente no Facebook em 03/08/2015