Nunca se deu conta

Nutria grande paixão
Por livros

E ela lia
Lia
Lia
Lia…

Ora chorava
Ora sorria

Dia após dia
Dia e noite
Noite e dia

Nunca se deu conta
De que era um livro
Escrito com seu sangue
Com sua caligrafia –

Letras
Palavras
Frases
Parágrafos
Capítulos
Que de seus dedos
Escorriam –

E que eu queria
Minuciosamente
Vagarosamente
Lê-la.

Missa pre mortis

Anota, grava

Com tinta que não se apaga

Escreva você mesma

Para que reconheça a caligrafia

 

De pé em sua cova rasa

A paz do dia-a-dia dia após dia

Os sinos ressoam ao longe

Requiem da sua nababesca hipocrisia

 

Anota, grava

Quem sabe lerá um dia?

Analfabetismo sentimental é grave

E não se cura com música ou poesia.