Canalha

Acordei incomodado. Eu precisava fazer uma ligação.

– Oi! Eu estou na rua. Posso te ligar em seguida? – pelo barulho, ela parecia estar em algum lugar muito movimentado. Quase não conseguia ouvi-la.

– Eu estou ligando para dizer que aceito – disse eu rapidamente, na expectativa que ela não desligasse o telefone.

– Aceita o quê? Do que você está falando?

– Eu aceito passar a virada do ano com você, ué!

– Do que você está falando? Eu não te chamei para passar a virada do ano comigo! – a surpresa podia ser percebida em sua voz.

– Então, eu estou me convidando! Alô? Você está me ouvindo? – e a ligação caiu.

Caixa postal… Achei que tinha falado demais. Foi o que me deu vontade de fazer. Fiz sabendo que poderia ouvir um não. Paciência. Quem não arrisca, não petisca.

Cerca de 5 minutos depois, o telefone tocou. Eu atendi logo no primeiro toque. Finalmente eu conseguia ouvir a sua voz com clareza.

– Então, você está se convidando para passar o Réveillon comigo e ainda alega que eu o convidei? Estou falando com o mesmo cara que esteve na minha casa na sexta-feira, que disse que precisava viver um luto? – o tom da voz dela tinha notas de surpresa, raiva e sarcasmo. Pelo telefone, eu realmente não conseguia entender o que ela estava sentindo.

– Sim. Você me disse que iria na casa dos seus pais e depois iria para casa. Então, pensei que poderíamos passar a virada juntos. Talvez você tenha alguma festa para ir… Não sei… Mas, se não tiver nada para fazer, está feito o convite.

– E o tal luto? Não vai respeita-lo? – agora, eu tinha certeza. Era puro sarcasmo, deboche.

– Olha… Eu já estou de luto faz muito tempo. Entre idas e vindas, cheguei aos meus 49 anos sozinho. Não quero perder mais um segundo da minha vida sequer! Estou de saco cheio! – nem eu me reconheci ao telefone. Parecia um garoto empolgado com a possibilidade de fazer algo que nunca tinha feito antes. E, de alguma maneira, era exatamente isso que estava acontecendo. Eu estava ao menos tentando retomar as rédeas de minha vida.

– Eu estou com vontade de te xingar! – disse ela no meio de uma risada – Posso te ligar mais tarde? Eu realmente estou enrolada…

– Sim ou não? – perguntei afoito.

– Racionalmente, um não… Mas pela sua cara de pau, vou pensar o seu caso.

– Isso é um sim? – perguntei de maneira incisiva. Houve uma pausa.

– Canalha! – não me senti ofendido. O tom da voz dela demonstrava que ela estava gostando do que ouvia. Pelo menos era assim que eu estava entendendo a sua reação.

– Então, o que iremos fazer?

– Deixa eu pensar… Podemos nos falar amanhã para acertar os detalhes? Hoje, o dia está realmente complicado para mim.

– Tudo bem. Quando puder, me liga.

Desliguei o telefone sentindo algo diferente. Pela primeira vez em muito tempo eu tinha partido para o ataque. A vergonha de fazer a ligação não foi forte o suficiente para me impedir. Havia vontades, sentimentos, desejos e sonhos represados, reprimidos. A vida não podia ser tão complicada como parecia. A coragem venceu o medo. Eu realmente queria que 2021 seja um ano completamente diferente. Mais fácil, mais leve, mais feliz. Disso e somente disso eu tinha certeza: arriscar-me era preciso.

Anagnórise – Entreato

“Sem Parte” ou “O Todo”

Quando se tocam

Já não são mais um

Já não sabem quem são

São um único corpo

E um único coração

Que pulsa

Que contrai-se

Contorce-se

Ao som da TV

Que não se sabe

Porque está ligada

Não é fuga

Da realidade

É realidade

Nua e crua

É verdade

Ele e ela

Sombras nuas

E em cada toque

A sedução

Se seduz

Se entrega

E o puro prazer

Alcança:

Há esperança

Há ritmo

Há dança

Entre gemidos e sussuros

O travesseiro esconde

O rosto

Que desfigura-se

De prazer

E com a cama inundada

Vão de puta a fada

De cavalheiro a canalha

Tudo em busca

Do prazer

Da paixão

Do amor

Do ser

Da felicidade

Do viver

E oferecem-se

Querem mais!

Querem sentir nos ouvidos

As sacanagens que irão

Fazer

Ter

Ser

Beber

Sorver

Cada gota

Feito loucos

Extravagâncias que poucos

Conhecem ou irão

Conhecer

Tem cheiro do quê?

Vinho, queijo

Fluidos

Sexo

Sexo

Sexo

Tem nexo

É o mais puro reflexo

Do que são

Do que plantaram

Do que um dia

Colherão

E tudo isso se baseia

No respeito

No amor

Não faz sentido

Se assim não for

Não se consegue com outros

Só se forem os dois

Pelos dois

Feito em um

Juntos

E 110% unidos

Bombardeiam-se

Os sentidos

O gozo tonteia

Desnorteia

Pausa…

Deixam o fôlego renascer!

E depois disso

Nada foi ou jamais será

Como antes

Quem com o prazer

Consegue juntar o amor

Fica imortal

Não sente dor

Viciado

E como faz bem esse

Vício!

Não é sacrifício:

É amor!

Entendam…

Aceitem, por favor!

E mesmo sendo carnal

É espiritual

São almas que se acodem

E o eterno amor elas descobrem

Não se separam

Não há como

Nem mesmo durante o sono…

Que sono?

São a soma de tudo

Ao ponto de se tornar nulo

O direito de adormecer

Sim…

E ainda que o tempo se vá

O que foi para sempre será

Gravado por dentro

Não é tormento

É alento

Não é areia

Para ser levada pelo

Vento

É amor

É para agora

Para ontem

Hoje

Amanhã

Todo momento

Nos amamos

Confesso-te

Confessa-me

Do que somos

Nós dois precisamos

Esse fluido vital

Nos faz vivos

Precisamos e merecemos

Viver.

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