1 – Gula

Nunca me cansei de te comer

Muito menos de te beber

Gosto de abundantes farturas

Não por vício

Mas por opção

Te comer e te beber

É sempre muito bom

 

Ao ponto de assar, quase doer

Nenhuma sobra

Nenhum resto

E apesar disso

Eterno “enterro dos ossos”

Eterno comer e beber

 

Sim, é putaria

Mas quem disso vai saber?

É algo nosso

Prognóstico?

Comer e beber

Até morrer

Causa mortis?

Banquete de prazer.

101d7a8e291baa27670fd7b1a905d679

1 – Gula

2 – Avareza

3 – Luxúria

4 – Ira

5 – Inveja

6 – Preguiça

7 – Orgulho

Efeito borboleta

Ouvi aquela música

Coloquei aquele perfume

Senti aquele cheiro

Fui naquele restaurante

Pedi aquela comida

Senti aquele gosto

Tomei aquele café

Vi aquele filme

Tomei aquele banho

Usei aquele sabonete

Folheei aquele livro

Pensei naquele assunto

Dormi daquele jeito

Sonhei aquele sonho

 

Sim…

Você sabe do que estou falando

Estava comigo para todos os efeitos

A saudade me faz replicar de longe

Todos os nossos cotidianos e banais feitos

 

Eu confesso! Eu confesso!

 

Meu maior e mais grave defeito

É deseja-la rotineiramente

No futuro do pretérito do presente perfeito

Nua…

Totalmente nua…

Batendo asas no meu leito.

331847679_22e0fbc742_b.jpg

Um belo vestido

Um belo vestido

Uma bela festa

A melhor bebida

A melhor comida

 

Um coração rouco

De tanto gritar por socorro

Um coração morto

Apesar de ainda vivo

 

Esconda-se no perfume, na maquilagem

No sorriso plástico, no corpo perfeito

Esconda-se, não deixe que eu ache

Para que se desnude sem rodeios

 

E por fim, quando o cansaço chegar

Sozinha ou acompanhada

Em todo e qualquer lugar

Um nome e um amor que consome

Que chegou sem pressa e sem avisar

E sem permissão ou consentimento

Decidiu que vai ficar.

cover_vestidos_contraste_natureza_moda_tramp-41.jpg

Deliberadamente

Sou um náufrago

Tu és meu mar

Estou a tua inteira mercê

Que tudo decidas para onde me levar

 

Seja longe ou perto

O destino já é incerto

Sobreviver já seria muito

Viver, então, algo fortuito

 

Não me resta mais nem esperança

Esta é sempre  a primeira que morre

Peço que sejas amável, porém

Enquanto sangue dentro de mim ainda corre

 

Mas estarei feliz

Se dessa vida eu me for

Partirei deliberadamente afogado

Inundado pelo teu amor.

mulher nua chuva

Inevitável

Não seria minha se fosse fácil
Queria eu, ainda assim, que fosse
Se prefiro salgado ou doce?
Tanto faz… Sirva-me.

Quero café, almoço e janta
Quero lanches e também –
A fartura e a abundância desse alguém
E os sorrisos, os lábios etílicos.

Sim, você me deixa embriagado
Por mais que eu coma – não surte efeito!
Sua glicose exijo por direito
Que não tenho, mas finjo que não sei disso.

Quanta hipocrisia para uma só poesia!
Por que metáforas para falar de sexo,
Se só faz sentido ou passa a ter nexo,
Imaginar-me dentro de você?

E ainda assim você é iguaria…
Daquelas que se viaja para comer,
Daquelas que ardem e fazem arder,
Daquelas que eu quero todo dia.

Essas linhas merecem, por certo
Um final para lá de épico e apotético
E ainda que seja conto de fadas ou sonho erótico
É verdadeiro – sabemos disso.

Permita-me tentar.

Você é inevitável e sabe disso
Não ouso listar suas qualidades
Vai que deixo a lista pela metade?
Imperdoável erro de criança.

Vai que com sua pedagogia
E com sua risada um pouco recatada
Consegue resgatar uma alma desgarrada
Que apaixonou-se… Que apaixonou-se.

Você é inevitável – já disse isso
Algumas coisas eu recito e repito
E mesmo diante desse amor aflito
Não canso de pensar em te comer.

Vulgar eu sou? Talvez.
Mas você sabe o que estou oferecendo
Vem para mim, agora, voando, correndo
Também sou inevitável – eu sei disso.

frase-a-prudencia-so-serve-para-adiar-o-inevitavel-mais-cedo-ou-mais-tarde-acaba-por-se-render-jose-saramago-128454