Eu não te dei nada

Eu não te dei asas;

Tu já as tinha.

Talvez dobradas,

Amarrotadas,

Mas contigo já estavam.

 

Eu não te dei sorrisos;

Tu já os tinha.

Talvez acabrunhados,

Pensando-se exagerados,

Mas contigo já estavam.

 

Eu não te dei suspiros;

Só ajudei-te a desengaiola-los.

Eu não te dei prazeres;

Só ajudei-te a vivencia-los.

 

Eu não te dei nada,

Porque de fato era do nada que precisavas.

 

Só olhei-te com os olhos e lentes do amor,

E de dentro do teu coração,

Estas e milhares de outras sementes brotaram.

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Decerto

Há coisas que são só para os olhos

E há aquelas coisas

Que ousam –

Que pousam! –

No ventre,

No útero,

No nascer,

No adeus,

Em Deus,

 

Há coisas –

E de todas essas coisas –

Há o grito,

Calmo ou aflito,

Onde te penumbro,

E nunca te ofusco.

 

Há luz,

Há verdade,

Há claridade

Na cerca que não cerca,

No abraço que não prende,

Na doença que não e moléstia,

Na ausência que é presença

Farta e certa.

 

E tudo

No momento certo,

Quer seja no coração que sangra,

Ou no que o orgulho lacra –

Aberto! –

Renasce por suas próprias forças,

Posto que o amor

Ressurge e urge

No presente fingido,

Cujo futuro –

Decerto –

É comunhão,

Entrega,

Vida,

Sublime abnegação,

Água no deserto.

Janelas

Entre tantos parapeitos,

Por que escolheste pousar justo neste?

Justo nestas janelas,

Nas minhas janelas,

Que para mim eram só mais umas janelas –

Entre tantas outras –

De onde eu via o mundo,

E de onde eu não imaginava

Que tu me vias.

 

Abriste meus olhos –

Sim, as tais janelas –

E enxergou-me por dentro,

Enquanto eu sorria do lado de fora.

 

Deixei que o fizesse sem pressa –

Mas também sem demora –

Porque eu não saberia descrever

Tudo que dentro de mim ficou

E nunca foi-se embora.

 

E desde então,

Minhas janelas seguem abertas para o mundo,

Em todo e qualquer segundo,

E de todo e qualquer jeito.

Pois sempre que pousas

No meu parapeito

Convido-te a entrar

Para repousar,

E para te aninhar

Bem dentro –

No centro –

Do meu peito.

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Manteiga

Eu só cresci te amando,

E quero que isso fique claro.

 

Não há choro ou velas,

Porque ninguém morreu.

É que de amor não se morre:

De amor se vive.

 

Percebe a sutil diferença?

Amor é aquela risada

Carregada de sacanagem

Que só a gente consegue entender.

É o olhar e dizer:

É ali que queremos

E é ali que chegaremos.

 

Não pelos outros,

Tudo por você,

Por mim,

Por nós.

Porque no mundo estamos a sós

Bombardeados por olhares

De quem nossos sapatos não calça.

 

Porra!

O mundo não quer saber

Se vamos conseguir ou não!

A lenda é nossa,

A história é nossa.

Era para a gente escrever o livro

E depois, só depois,

Pedir perdão!

 

A quem,

Eu juro que não sei.

Desde quando se pede desculpas

Por viver justo o que não é em vão?

 

E é assim,

Puro coração,

O dia-a-dia de quem ama.

Não, não há ilusão.

A resposta vem do útero do coração.

Essa coisa não se importa

Se a gente acredita ou não!

Essa coisa é

E o tempo todo diz.

 

Eu só cresci te amando,

E durante esse processo,

Acabei me reencontrando.

Te vi e me vi tão perfeitos,

Alma na alma,

Peito no peito,

Feito propaganda de margarina,

Mas só que nós somos pura, saudável,

E francesa manteiga.

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Em vão

Vem cá…

Vem me falar

De tudo que você acha

Que não precisa dizer

 

Lembra?

Antes de tudo eu era amigo

Abrigo…

O bom dia

O boa noite

E tudo mais que precisava ser

 

Deixo assim

Nas tuas mãos

O direito de ser feliz –

Ou não!

 

Mas se quiser me falar

Do seu coração

Continuo por aqui

Depende só de você

Confessar-se

Ou deixar o momento ir-se em vão.

Teu olhar

Teu olhar

Este que fazes sem forçar

Que é tímido e discreto

Obsceno e direto

Misterioso e incerto

Um convite

Ou uma forma de torturar?

 

Cabelos que cobrem

O que precisa ser descoberto

Lábios que explodem

Que fascinam por completo

Presença que avassala

Água cristalina no deserto

 

E nesse meu sonho que tu és

Que vem, que vai

Devoro teus mistérios

Na certeza de que muitos são

Sem contar com aqueles

Que guardas a 7 chaves no seu coração

 

O que pretendes?

Onde estás?

Para onde vais?

Talvez assim eu te encontre

Quer seja por mero acaso

Ou por seguir teu cheiro

 

Desejo-te

 

E meu desejo é mais que verdadeiro.

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