Neve em pleno verão

Como de costume, sentou-se na mesa de seu bar favorito junto com seus amigos e olhou a seu redor para fazer uma espécie de reconhecimento de terreno. Bem a sua frente, uma duas ou três mesas depois, ele se deparou com uma mulher olhando fixamente em sua direção.

Seus olhos e seus cabelos compridos eram negros como uma noite sem lua e sem estrelas. Sua pele era branca como neve. Absurdamente bonita, tal como uma deusa nórdica. Parecia ter 30, 35 anos no máximo. Movia-se com delicadeza e classe. Falava com desenvoltura. Conversava com uma amiga, mas seus olhos estavam bem longe daquela conversa. Era algo tão contundente que era impossível de não ser notado. Os olhos dela o convidavam para chegar mais perto. Ele se sentia hipnotizado. Era praticamente impossível resistir, até porque ele não tinha intenção alguma de fugir daquela deliciosa e inesperada situação.

Era um bar cheio de pessoas bonitas e bem arrumadas, e justamente por isso ele resolveu fazer um “teste de sanidade” com um de seus amigos.

– Me faz um favor? Há uma mulher bem aqui na minha frente…

– Ela não para de olhar para você – respondeu o seu amigo, interrompendo-o.

Ele se deu conta, então, de que precisava fazer algo. Como ela estava acompanhada de uma amiga, sua aproximação tinha que ser estratégica. “Talvez quando a amiga dela for ao banheiro”, pensou. Sabia que não poderia vacilar ou hesitar. Precisava agir rapidamente. Era muito óbvio que os todos homens do bar haviam notado-a. Impossível não nota-la. Impossível.

E assim foi. Quando a amiga se levantou presumidamente para ir ao banheiro, ele imediatamente se levantou também. Sua missão era clara. Ele precisava se apresentar e entender o que estava acontecendo. Foi em direção à mesa e no momento em que iria falar com ela, a amiga retornou. “Esqueci meu celular!”, disse ela. Ele pensou em passar direto. Não deu tempo. Antes que ele pudesse desviar sua rota, a mulher o segurou pelo antebraço delicadamente e olhou bem no fundo de seus olhos.

– Não vai se apresentar? – o coração dele disparou. Por alguns instantes, sentiu como se tivesse esquecido o próprio nome.

– Seu nome é… – ela insistiu. E ele fez o que sabia fazer de melhor: sorriu de volta.

– Antes de eu dizer meu nome, me ajuda com uma coisa? É impressão minha ou você estava olhando na minha direção desde que cheguei aqui?

– Eu sei o seu nome. Não precisa me dizer – sua voz era doce e suave, talvez mais hipnótica ainda que seu olhar – E sim, eu estou olhando para você desde que chegou aqui. Você não se lembra de mim?

Ele reparou bem na fisionomia dela e não se lembrou de nada. “Como eu posso não me lembrar de uma mulher bonita como essa? Ela deve estar brincando comigo. Só pode!”

– Vou ser muito sincero… Eu não lembro. Tem certeza que sou eu? Não sou de me esquecer de uma fisionomia, ainda mais de uma mulher tão bonita quanto você…

– Eu entendo… Você estava acompanhado no dia – ela disse sorrindo.

– Que dia? – ele estava começando a ficar angustiado.

– Eu estava sentada em um bar com um amiga… Falando nisso, deixa eu te apresentar essa minha amiga.

A amiga dela estava voltando. Deu um oi meio sem graça e disse que estava indo embora. Chamou-a para ir embora com ela.

– Vou ficar – disse ela olhando fixamente nos olhos dele.

Elas se despediram e a conversa recomeçou.

– Eu estava sentada em um bar com uma amiga. Não era essa. Era outra. Isso faz uns 3 ou 4 anos, eu acho. Veio até a nossa mesa um morador de rua perguntar se tínhamos algo para dar para ele e fomos interrompidas pela dona do bar, que pediu para ele se afastar. Depois, ela veio até a nossa mesa e disse que não podia dar muita ideia para esse pessoal, porque eram ladrões disfarçados. E foi aí que você disse…

– “Não é porque ele é morador de rua que é ladrão”! E depois, ofereci algo para ele comer e disse para ele se sentar no bar.

– Então, você se lembra?

– É claro que eu lembro! Mas foi isso que fez você reparar em mim? – ele perguntou meio desconfiado.

– Sim! Exatamente isso. Havia um monte de gente no bar. Ninguém falou nada. Nem eu mesma. E você fez questão de se manifestar. Isso me deixou encantada… Achei uma atitude muito masculina… Forte! Coisa rara de se ver nesse dias – os olhos dela brilhavam mais do que nunca. Eram verdadeiros ímãs.

Ele pediu licença e foi até sua mesa pegar o seu copo. Voltou, sentou bem em frente a ela, e ambos embarcaram em uma conversa que durou horas e algumas Heineken. Ambos estavam bebendo com moderação. Ele tinha a sensação de que era o que deveria ser feito. Queria manter as coisas sob controle. Ao que tudo indicava, ela também.

Havia uma empatia, uma espécie de conexão bem fora do comum entre os dois. Descobriram que tinham amigos em comum, hábitos em comum, gostos em comum, até que foram surpreendidos pelo dono do bar dizendo que estavam fechando.

Ele olhou a sua volta e se deu conta que seus amigos tinham ido embora. Aliás, todos tinham ido embora. Só ele e ela estavam no bar. Mais nenhum cliente.

– Vamos continuar a conversa em outro lugar? – ele perguntou com assertividade. A resposta dela o surpreendeu.

– Para onde você quiser! – e enquanto falava, ela mexia em seus cabelos que exalavam um perfume maravilhoso. Ela estava completamente solta e entregue aquele momento e ele também.

– Há um bar perto daqui que fecha mais tarde. Dá para a gente ir andando. Me dá o braço. Andar de salto é complicado…

– Um cavalheiro… Viu como não dava para esquecer?

De braços dados, foram caminhando pela madrugada. Seus corpos agora estavam bem próximos e não havia mais uma mesa entre eles.

Andando ao lado dela, ele se sentia bem como há tempos não se sentia. A diferença de idade entre eles era de 10 anos, mas naquele momento não fazia a menor diferença. Eram apenas um casal feliz, cheio de uma intimidade, de uma cumplicidade que havia sido construída do zero em função de algo que ele mal se lembrava.

Os braços dados e o pele com pele estavam exacerbando a libido dos dois. Era fácil perceber isso pela maneira como eles se olhavam. Uma tensão sexual gigantesca estava sendo criada aos poucos, sem pressa.

Sentaram-se no outro bar e pediram mais uma Heineken, mas dessa vez ele se sentou ao lado dela. Elogiou o seu perfume, e ela ofereceu o seu pescoço sob a alegação de que seria mais fácil sentir o cheiro naquele local. Enquanto ele ia em direção ao pescoço dela, a sua boca interrompeu o seu caminho.

Não se beijaram. Explodiram. Perderam-se nos beijos. Esqueceram do mundo. Até que ela, completamente fora de si, o empurrou, olhou bem dentro de seus olhos e disse:

– Some comigo daqui agora!

– Vou chamar um Uber…

– Não! – ela interrompeu – Eu moro perto daqui. Vamos andando!

Ele obedeceu, obviamente. Foram os 200 metros mais longos da vida dos dois. No silêncio das ruas vazias durante a noite, eles paravam de 10 em 10 passos para mais beijos, mais carícias, mais mãos perdidas, mas sempre com destino certo. A situação beirava o desespero. Nenhum dos dois fazia questão alguma de disfarçar as suas intenções.

– Eu jurava que você estavam sem sutiã, mas de calcinha…

– Sim… Eu estava… Está na bolsa agora.

“Foi por isso que ela quis ir ao banheiro antes caminhar para casa”, pensou.

E aquela situação enlouquecedora continuou até a chegada ao prédio dela. E assim também foi na portaria do prédio. No sofá da portaria. No elevador. E quando a porta da sua casa se abriu, com um só gesto ela ficou nua na sua frente. A garganta dele ficou seca. Ficou extasiado com a perfeição do que via à meia luz. Definitivamente, uma deusa. Uma beleza única, rara, divinal.

– Vem! Eu sou tua!

E assim foi. Ele foi dela e ela foi dele por incontáveis horas. Amaram-se loucamente. Os primeiros raios de sol mostraram corpos arranhados, lanhados e um cheiro incrível de sexo, felicidade e realização no ar.

– Você é uma mulher incrível – disse olhando para o rosto dela, em tom de desabafo.

– Você fez de mim uma mulher incrível – respondeu enquanto aninhava-se no peito dele.

E ficaram ali, em silêncio. Dormiram exaustos por alguns instantes. Até que ele se levantou e começou a se preparar para ir embora. Ela fez um chá e ofereceu um café para ele. Trocaram mais algumas palavras antes da despedida.

– Então… Você vai me dar o seu telefone? – ele perguntou enquanto se encaminhava para a porta.

– Já está na inbox do seu Instagram… – o seu sorriso e a maneira como ela o olhava pareciam de uma menina peralta, daquelas bem arteiras.

– Você foi meu presente de aniversário, sabia?

– Era seu aniversário hoje? Eu não sabia… – suas mãos seguravam o queixo dele com carinho, com doçura.

– Não… É nessa semana. Presente adiantado! Me dá um abraço?

E se abraçaram longamente. E na mente dele, uma música que parecia representa-la: Lady Of The Snow, do Symphony X. Ele tinha certeza que a música era sobre ela.

No caminho até sua casa, acrescentou a seu repertório de crenças que não deveria mais fazer caridade ou se posicionar diante de qualquer injustiça “apenas” porque era o que Deus esperava dele, mas porque nunca seria capaz de prever quem se inspira ou mesmo repara em suas atitudes. Fazer o bem definitivamente era algo que compensava. E ele olhou para o céu e agradeceu a Deus.

Intuição

– Eu sei, mas você precisa fazer uma escolha. A gente não pode ficar nessa para sempre, concorda? – os olhos dele estavam fixos no horizonte. Ao fundo, as nuvens cinzentas por sobre a praia davam um tom de mistério aquela conversa difícil e necessária, ao menos para ele. O tom de sua voz era suave, mas também era firme. Ele precisava de algumas respostas, bem óbvias e ao mesmo tempo essenciais. Ela parecia não se dar conta disso.

– Eu não sei o que dizer… – ela fitava o chão enquanto respondia. Os braços estavam cruzados. O corpo todo retesado. Sua mente girava diante das incertezas que se agigantavam dentro dela. “Eu não sei… Eu não sei… Eu não sei… ” Era tudo que ela conseguia dizer no momento. Tinha plena noção do quanto estava insegura por conta de seu último relacionamento. Pensar em viver algo tão doloroso novamente simplesmente a paralisava. Ela não conseguia pensar em recomeços. Ainda estava sendo açoitada pelo fim.

– Bom… Isso para mim é uma resposta. Não vou insistir mais, apesar de gostar muito de você. A gente se esbarra por aí. Qualquer coisa, me liga.

Ela ainda tentou dizer algo, mas ele já estava com os fones no ouvido. Já tinha a resposta que precisava. Ficou decepcionado, mas engoliu a verdade em seco de uma só vez. Foi embora sem olhar para trás.

Chegou em casa e foi tomar um banho. Se serviu com um pouco de água de coco e pegou o telefone. A indecisão dela era uma decisão na visão dele. “Já passei por isso antes e aprendi a lição”, disse para si mesmo diante do espelho, fazendo força para acreditar em suas próprias palavras. Por conta disso, até para provar que era capaz de esquecer tudo aquilo, resolveu responder a uma mensagem que recebera mais cedo no WhatsApp.

“Oi! Tudo bem? Ainda está valendo o convite?”

A resposta veio em menos de 30 segundos.

“Sim! Faz tempo que não como aquela pizza! Você me encontra lá em 1 hora?”

“Com certeza! Bjs!”

Ela mandou um coração de volta. Ele sorriu.

Foi um sorriso conflitante, hipócrita. Um sorriso de quem sabia que não precisaria passar a noite sozinho, mas que também sabia que não era com aquela mulher que ele gostaria de estar. Na prática, ele estava fugindo deste e de outros encontros. Apesar de não estar oficialmente namorando, não gostava de sair com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Era algo dele. O seu coração era assim. Ele era assim. “Pelo menos ela foi sincera. Logo, caminho aberto para a próxima. Para as próximas.” Nem ele mesmo acreditava em suas palavras.

Se encontraram no restaurante como combinado. Ela tinha um olhar de femme fatale. Na cabeça dele, ela era uma devoradora de homens. Ele seria apenas mais um. Ele via isso como algo bom: nenhuma expectativa é o equivalente a nenhuma frustração.

– Então… – ela disse – Finalmente resolveu atender ao meu convite… Eu já estava quase desistindo.

– Nada… Só estava meio atarefado – os olhos dele estavam dentro do decote dela. Era impossível não notar a fartura daqueles seios.

– Aposto que tem a ver com a sua namorada… Como é mesmo o nome dela? – o tom da voz dela era de deboche.

– Eu não tenho namorada. E eu não estaria aqui se tivesse uma. Vamos beber o quê?

Apesar dele não ter namorada, o comentário mexeu com ele. “Eu não tenho namorada, mas gosto de uma pessoa. Isso vai muito além de um título ou estado civil “, pensou.

– Eu tenho uma sugestão. A gente come algo mais leve… Tipo uma burrata. E depois a gente vai para um lugar mais calmo. Pode ser?

– O quê? – ele estava olhando para o cardápio enquanto ouviu o convite. Ficou olhando para ela como se não estivesse entendendo nada, muito embora fosse capaz de compreender exatamente o que estava acontecendo.

– Deixa disso… Faz 3 meses que quero sair com você. Olha a nossa idade… Não vamos perder tempo com formalidades, vai…

– Mas e a pizza? Eu estou com fome! Eu quero comer pizza! Garçom, quero uma burrata. Qual pizza você me recomenda? Sim! Pode ser essa! Deve ser deliciosa! Tudo bem com você se eu pedir essa? Ok. E o vinho vai ser… Aquele ali da outra mesa. O que aquele pessoal está bebendo…

A cardápio virou a sua tábua de salvação. Lembrou da série Seinfeld e das argumentações absurdas entre os personagens. Era assim que ele estava se sentindo.

Eles riram muito durante o jantar. Comeram a burrata, tomaram vinho, comeram pizza… Teve até sobremesa! Ela ainda insistiu algumas vezes no “a gente vai para um lugar mais calmo”. Ele insistiu nas desculpas no maior estilo Seinfeld. Em alguns momentos, teve até vontade de rir. Quem sabe em outros tempos, em outro lugar. Quem diria não para essa mulher? Ele disse da forma mais educada que conseguiu. Afinal de contas, nunca se sabe do futuro.

Despediram-se. Nada de “até manhã” ou “depois a gente se fala”. Ela foi para a casa dela. Ele foi para a casa dele. Se ela ficou chateada, ele não percebeu. Se sentiu bem por ter sido fiel a seus sentimentos e isso não tinha preço.

Ele ligou a TV e resolveu verificar as suas mensagens no WhatsApp. Uma delas dizia:

“Pensei muito na nossa conversa de hoje de tarde. Eu estou gostando de você e isso me deixa insegura. Sei que você não tem obrigação de entender isso. Me liga quando puder.”

Ao invés de responder à mensagem, preferiu ligar. Já eram 3 horas da manhã. Ela atendeu com voz de sono já pedindo desculpas.

– Eu queria me desculpar pelo que te disse hoje na praia…

– Eu que deveria pedir desculpas pelo ultimato… – disse ele interrompendo-a com delicadeza.

– Digamos que seu ultimato me fez perceber algumas coisas… Sendo uma delas que não estou disposta a ficar longe de você – sua voz era um misto de malícia e sensualidade. Ela estava se confessando e pelo que ele sabia dela, falar de sentimentos era algo que ela realmente tinha dificuldades em fazer.

– Quer dizer que ultimatos funcionam, professora? – o comentário sarcástico a fez rir justamente por conta dela ser formada em Relações Internacionais e ministrar aulas sobre o tema.

– Depende… – a risada veio acompanhada de uma explicação – Desde que a outra parte não entenda como um blefe e não esteja disposta a encerrar as conversações, funciona sim.

– Eu não estava blefando.

– Eu sei.

Imediatamente, ele foi até a geladeira e abriu uma garrafa de espumante. Ele precisava comemorar. Em ambos os casos, em episódios completamente distintos, seguiu a sua intuição e ouviu o seu coração. Na praia, foi embora no momento certo. Na restaurante, foi fiel a seus sentimentos. Sentiu orgulho de si mesmo. Sorriu.

Os dois dormiram juntos em casas separadas naquela noite. As negociações avançariam pela manhã. Diplomatas em missão de paz, por assim dizer. A esperança parecia estar vencendo o medo.

E a pizza? A pizza estava deliciosa. A vida estava deliciosa.

Ele

“And you shook me all night long
Yeah, you shook me all night long…”

AC/DC no máximo no som do carro. Depois de uma sexta-feira típica no trabalho, tudo que passava pela sua cabeça era uma cerveja bem gelada. E sim, ele sabia exatamente onde encontrar essas cervejas e não era em nenhum bar.

O convite na parte da manhã tinha sido claro: cerveja gelada, boa conversa e… Bom, ele sabia como as noites com ela terminavam. Isso o fazia sorrir e ansiar por esses replays, que estavam se tornando cada vez mais frequentes. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Estranhou o seu pensamento. Não estava acostumado com a nova vida. Tinha planos para um futuro que acabou não se contretizando, e apesar da alegria que estava sentindo, sabia muito bem que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua. “Paciência!”, pensou. Ligou o foda-se.

Já chegou na casa dela abrindo uma cerveja. Encurralou-a na parede (enquanto o cachorro dela tentava subir pelas suas pernas), beijou a sua boca, passou as mãos pelo seu corpo, e encheu o ouvido dela sacanagens de todos os tipos. Ela, por sua vez, retribuia da maneira que sabia: simplesmente se entregava e o deixava determinar o ritmo. E assim foram parar embaixo do chuveiro, feito adolescentes no cio, completamente eletrizados.

Chamava a atenção dele a diferença de idade entre os dois: exatos 19 anos e 8 meses. Ela achava o máximo e dizia que a maturidade dele era tudo que ela queria. Ele a achava o máximo e dizia que a inocência dela era tudo que ele queria. Ele não era tão maduro e nem ela era tão inocente. Ambos se completavam de alguma forma e isso que importava: estavam em constante estado de euforia.

Volta e meia, quando estava longe dela, ele se perguntava sobre o futuro. Não queria magoa-la. Não queria ser magoado. Entretanto, diante desses questionamentos, sempre chegava à conclusão de que tudo que ele havia planejado, de uma forma ou de outra, havia transformado em algo diferente. Isso era muito óbvio principalmente em se tratando de sua vida amorosa. Portanto, decidiu não planejar absolutamente mais nada. Decidiu viver dia após dia e isso de fato era tudo que importava. Pelo menos era isso que ele repetia para si mesmo dia e noite, noite e dia.

Lá pelas tantas, decidiram continuar a ver uma série no Netflix: The Crown. Ela ficava impressionada com a beleza e o requinte da monarquia, e ele assustado com os sacrifícios que precisavam ser feitos para manter as aparências. Ele já havia vivido aquilo de alguma forma, e entendia perfeitamente que o preço das aparências pode ser travesseiros cheios de lágrimas. Viam a mesma série por prismas diferentes e isso não os incomodava.

O cachorro incomodava. Latia de madrugada do nada. Estava acostumado a dormir com a dona, e com certeza ficava com ciúmes quando o seu lado da cama estava ocupado. Nesse dia em especial, o cachorro o acordou e ele acabou ficando sem sono. Foi no Facebook, no Instagram, no WhatsApp. Nada de diferente. Tudo tranquilo, tirando um grupo onde se discutia quem era o menos pior: Lula ou Bolsonaro.

Começou a vagar pelos seus emails. Encontrou um cheia de juras de amor. Acabou buscando pelo nome da remetente, e encontrou tantos outros emails cheios de juras de amor. Por algum motivo ainda mantinha esses emails, mantinha também as fotos, as mensagens… Tinha profundo respeito pelo que havia sentido e pelo seu passado. Lembrou-se mais uma vez que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua, e isso de certa forma o acalmava. “Nunca dependeu só de mim. Eu fiz tudo que podia.” Ele tinha certeza absoluta disso.

Acabou adormecendo com o celular nas mãos. Acordou sobressaltado com o despertador que nem era para tocar no sábado. Antes que se desse conta, ela já estava dando bom dia para ele de uma forma para lá de inusitada… E lá foram para o banheiro. Adolescentes no cio. Era sempre assim. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Sim, ele gostava de profundidade. Era inegável. Gostava de olhos nos olhos, de declarações românticas. Gostava de achar que tinha muito a perder. Gostava de amar. Essa era a única lacuna que havia em seu peito. Sentia falta de amar. Por mais que negasse, sentia. E quando aceitava esses sentimentos, entendia o porquê de guardar tais mensagens. Eram mensagens de amor, amor que ora lhe faltava. E sim, tinha que ser um grande amor. Será que era só isso ou será que ainda amava? Não quis entrar nessa “areia movediça”. Calou seus pensamentos e sorriu. Felicidade instantânea, real e imaginária ao mesmo tempo.

Tomou café e foi nadar no clube. Foi sozinho. Aproveitou para fazer uma sauna. Encontrou um grupo de amigos fazendo churrasco. Tomou todas. Marcou 300 eventos e se comprometeu a fazer uma porrada de coisas das quais jamais se lembraria. Era esse o objetivo. Quando se deu conta, o clube já estava fechando e seu celular não tinha nenhuma mensagem. Nenhum “Oi! Como você está?”. Só mais um convite para emendar em mais uma noite regada a muita cerveja e sexo. Mais nada. Absolutamente nada. E isso era tudo que lhe faltava.

Ela

Ela acordou cedo como de costume. Seus olhos não disfarçavam a noite mal dormida. Nada que um bom banho, um bom café da manhã e uma boa maquiagem não pudessem resolver. Ela já estava acostumada.

Dormir mal tinha virado rotina. A insônia não aparecia para o mundo, obviamente. Ninguém sabia dela. Para todos os efeitos, ela era uma mulher bem sucedida, livre, desimpedida, com uma carreira brilhante, e cheia de pretendentes de todos os tipos. Todos a queriam e ela sabia muito bem disso. Ela era muito cobiçada e isso de alguma forma a confortava.

Ao chegar no escritório, assinou documentos, reviu planilhas, deu ordens, falou no telefone, fez reuniões presenciais e virtuais… Tudo como de costume. Parou apenas para almoçar um prato fit providenciado pela sua secretária. Pensou até em ir para a academia antes de chegar em casa, mas foi interrompida por um de seus clientes que a convidou para um happy hour. Meio sem saber o que fazer, ela simplesmente aceitou o convite. Afinal de contas, era sexta-feira.

Foram parar em um restaurante suntuoso e ficaram na área do bar. Ele, muito galanteador, ofereceu a ela uma bebida. Ela educadamente recusou. Não era seu perfil beber com clientes e apesar de reconhecer que ele era um homem muito bonito e elegante, manteve-se fiel a seus princípios.

Ele pediu uma cerveja. O barman disse que a cerveja escolhida estava em falta, e ofereceu outra que ele aceitou contrariado, tal como se fosse um especialista no assunto.

Uma long neck em uma garrafa verde foi entregue nas mãos dele. Ela conhecia aquela garrafa. Conhecia aquela marca. Conhecia o gosto, o cheiro. Preferiu afastar esses detalhes de sua cabeça e focar na conversa. “Quem sabe não é a oportunidade de fechar mais algum grande negócio?”, divagou animada.

Então, ele engatou em uma fala cansativa, se vangloriando de seus feitos com a visível intenção de impressiona-la. Ela, por sua vez, não conseguia tirar da sua cabeça as lembranças que estavam associadas aquela cerveja. E ele não a ajudava em nada nesse sentido. A conversa morna embalou o seu cansaço, e mesmo sem se dar conta, ela ficou introspectiva e ausente. Presente fisicamente. Sua alma, nem ela mesma sabia aonde estava.

– Eu não gosto muito dessa cerveja… Prefiro a Stella. Essa aqui é muito forte.

“Não! Essa cerveja não é forte ou mesmo mais forte. Ela só é mais amarga. Inclusive, ela é uma cerveja com menos calorias que as demais.” Mesmo sem estar bebendo, ela começou a lembrar do que tinha aprendido sobre essa cerveja, e os brindes com essa mesma cerveja que a fizeram lembrar de sorrisos, que a fizeram lembrar de conversas… Ele havia ido longe demais mesmo sem ter se dado conta disso. Ele havia disparado nela gatilhos terríveis e insuportáveis.

Ela fingiu receber uma ligação e se afastou. Foi para o canto do bar para falar mais à vontade. Retornou em seguida dizendo que tinha recebido um telefonema de uma prima. Falou a primeira coisa que surgiu em sua mente. O homem ainda se ofereceu para leva-la em casa, mas ela recusou a oferta. Ela precisava sair daquele restaurante rapidamente. Ela estava sem ar, sufocada.

Chamou um Uber. Sentiu um aperto no peito, arrepios pelo corpo, e um desconforto inexplicável. Abriu o WhatsApp. Adicionou um novo contato porque ainda se lembrava do número do telefone apesar de ter feito de tudo para esquece-lo. Se deu conta que permanecia bloqueada.

Ainda a caminho de casa, as lágrimas já escorriam pelo seu rosto. O motorista do Uber perguntou se ela estava bem, e ela apenas balançou a cabeça dizendo que sim. Ela sabia que não estava, mas era teimosa demais para admitir aquilo. “Eu estou bem… Só preciso de um bom vinho e de um banho.”

Ao subir no elevador, no espelho reparou na sua maquiagem borrada, nos seus olhos e nariz vermelhos, no rosto inchado. Se perguntou o motivo de estar assim, e muito embora soubesse da resposta, simplesmente se negou a aceita-la.

Abriu a porta de seu apartamento, tirou os sapatos, jogou a bolsa e as chaves sobre a mesa, e foi imediatamente para o bar. Pegou uma garrafa de vinho e uma taça. Abriu a garrafa de maneira atabalhoada e foi para o quarto. Encostou-se na cabeceira da cama, serviu-se com o vinho e depois de um farto gole foi mais uma vez para o WhatsApp. Ela permanecia bloqueada. Ela achava um absurdo estar bloqueada. “Como ele teve a audácia de fazer isso?”, perguntava-se alterada.

Começou a varrer a sua galeria de fotos, seus emails, mensagens arquivadas. Não havia nada. Ela mesma tinha apagado tudo. “Não é possível! Devo ter me esquecido de apagar alguma coisa!”. A ansiedade havia tomado conta dela e ela não conseguia pensar em mais nada de uma forma minimamente ordenada.

Depois de mais alguns goles de vinho, resolveu ir até o Facebook. A foto dele era a mesma de antes, de quando eles estavam juntos, mas ele não era nem mais seu amigo. A mesma coisa no Instagram. Ela o excluiu. Ela o bloqueou. Mas ela queria saber dele. “Sexta-feira… Aonde ele está? Será que está na cama com outra? Será que ele teria a audácia de fazer isso?”

Partiu em busca de um celular antigo. Lá, ela tinha certeza de que havia conversas arquivadas. Colocou o celular para carregar e foi beber mais um pouco de vinho, na esperança de que o álcool fizesse o seu coração bater de maneira compassada. “Preferia cerveja… Sujeito sem classe!”

Ela sabia o motivo de estar bloqueada. Ela tinha iniciado tudo isso. Ela o bloqueou, o excluiu, o afastou. Ela achava que tinha se libertado. “Ele era um escroto previsível. Ele e aquela maldita cerveja que ele bebia!”

Sim, ele era previsível. Era daqueles que tinha a coragem de dizer para Deus e o mundo que beber aquela cerveja ao lado dela era a melhor coisa do mundo. “Maldito! Repugnante! Cretino! Com quantas ele esteve depois que eu o expulsei de casa? Deve estar falando da cerveja com elas… Que ódio!”

O celular antigo deu sinal de vida e ela foi busca-lo na tomada. Derrubou a taça de vinho no chão, que se espatifou deixando um rastro cor de sangue. Cortou-se levemente tentando juntar os cacos. Nem percebeu. Queria mesmo era o celular, e encontrou o que tanto procurava: milhares de mensagens arquivadas. Tediosos “Bom dia!!!”, enervantes “Cadê você?”, insuportáveis “Durma com Deus!” e repetitivos “Eu te amo!”. E na tentativa de dispersar as necessidades represadas, minimizava os feitos dele: “Ele era um babaca repetitivo. Ele dizia essas merdas todos os dias. Insuportavelmente insistente! Inconveniente! Chato!”

E ele a ouvia por horas! Dava as suas opiniões. Nem sempre sabia o que dizer, mas sempre tentava ajudar de alguma forma. Um homem comum, daqueles que acha que a mulher dele é a mulher mais importante do mundo, e que faz de tudo que está a seu alcance para faze-la feliz.

Ela se lembrava das ligações dele. Algumas ela nem atendia. Ela sabia que ele ligaria de novo. Ela achava que ele era uma espécie de cão adestrado. E lá estavam as ligações perdidas dele no celular antigo. Eles deviam se falar umas dez vezes por dia. Era tudo insuportavelmente previsível. Era tudo… Um saco!

E ela encontrou uma foto dos dois. Uma que ela curiosamente se esqueceu de apagar. Ele nem era tão bonito, mas era bom de papo. Ela nem se reconheceu na foto. Estampava um sorriso enorme e estava com uma porcaria de um copo de cerveja em sua frente em um boteco, comendo carne de sol com aipim. Logo ela, a que não bebe cerveja. “Que foto é essa? Por que nela eu pareço estar tão feliz? Por que não estou assim agora?”

E voltou para as redes sociais no seu telefone atual. Foi no Facebook de amigos dele para ver se encontrava algum vestígio. Qualquer coisa que fosse! Queria saber se ele estava vivo! Nada! Até porque ela mesma excluiu todos os amigos dele. Ela fez questão de apagar todo e qualquer vestígio da passagem dele na sua vida.

Ela levou sua mão até a boca como que se estivesse assustada com o seu choque de realidade. Sentiu o gosto de sangue, e foi então que se deu conta de que havia cortado o dedo nos cacos da taça. Começou a beber o vinho direto da garrafa. Sentiu calores. Ficou nua. Ficou com raiva. Ficou excitada. Gozou pensando nele. Uma, duas, três vezes. “Por quê? Por que ainda lembro de você? Por que ainda sinto as suas mãos no meu corpo e desejo você dentro de mim? Por quê? Filho da puta! Desgraçado!”

Embriagada, pensou em ligar para ele. Desistiu. Já era tarde. Sem saber o que fazer, ajoelhou-se no chão, ainda nua, ainda encharcada, e começou a rezar desesperada. Lembrou-se de Deus. Sentiu-se ridícula. Finalmente, sentiu-se. Era exatamente disso que precisava.

Foi até o banheiro tomar um banho sentindo como que se uma lança atravessasse seu peito, vivendo a plenitude do futuro que criou para si mesma. Viu-se sozinha como nunca havia se visto. Tentou lembrar o porquê de tê-lo mandado embora. Não conseguiu. Lembrou-se apenas de todos os motivos que não havia visto ou se negado a ver para nunca tê-lo deixado ir, e do quanto ele pediu inúmeras vezes para ficar. Ele a amava profundamente e sempre fez questão de deixar isso claro em atitudes e palavras.

Repetiu seu nome em voz alta. Lembrou-se de como ele a chamava e do dialeto que a intimidade entre os dois havia criado. Ouviu perfeitamente a voz dele chamando seu nome e confessou para si mesma: “Eu o mandei embora porque eu o amava. Ele me deixava vulnerável. Eu ainda o amo enlouquecidamente. Só sei disso e de mais nada.”

E foi dormir. Dormiu bem. Dormiu abraçada com a verdade. Depois de muito tempo, dormiu finalmente bem acompanhada.

Salvando vidas

E aí, duas senhoras de 70 e poucos anos se encontram enquanto estão atravessando a rua. Se abraçam e se beijam exatamente no meio da rua. “Quanto tempo!” Eu estava atravessando junto e prestando atenção na alegria delas. Algo bonito de se ver. Cabelos brancos… A amizade parecia ser antiga e preciosa.

O sinal estava aberto para os carros, mas não havia nenhum por perto. Só que depois do abraço, dos beijos e de uma pequena conversa entre as duas, um ônibus dirigido por um “piloto” surgiu do nada. Sim, o sinal permanecia aberto para os carros e elas estavam bem no meio da rua.

Meio que no reflexo, abraço as duas senhoras (o objetivo não era fazer um ménage) e as puxo para a calçada. Uma delas grita: “Tarado!” O marido de uma delas, que já estava do outro lado da rua (cagou para a esposa), gritou com a bengala em punho: “Fique aí que vou te pegar, seu pervertido!” Aproveitei que havia várias pessoas indo na direção que eu tinha que ir, e feito um bandido, tirei o meu casaco bege para ficar com minha camisa branca e não ser reconhecido. Acelerei o passo e me certifiquei que não estava sendo seguido. “Ufa! Da próxima vez, dou um empurrão ou uma banda ao invés de um abraço.”

Se alguém conhecer essas senhoras, favor explicar que eu só estava querendo salvar a vida delas, ok?

contos-de-fadas-tricae

E eu achando que estava ajudando…

Voltando da academia, me deparei com uma senhora com óculos escuros, cabelos muito brancos, e muito esguia. Como estava com uma muleta em um dos braços, um carrinho de compras no outro (daqueles de rodinhas que se leva para o supermercado) e de óculos escuros, foi instintivo perguntar se ela precisa de ajuda atravessar a rua já segurando em um de seus braços. E ela me respondeu:

– Precisar de ajuda eu não preciso. Estou só esperando o sinal fechar. Mas diante de tanta gentileza, agora eu faço questão.

Havia algo na voz dela. Um carinho diferente, angelical. Não me contive. Fui às lágrimas. E enquanto esperávamos o sinal fechar, sem olhar para mim, ela me perguntou:

– Por que você está chorando?

E eu respondi:

– Não sei explicar… Eu simplesmente fiquei emocionado com a maneira que a senhora falou comigo…

Eu não sabia mais o que dizer. O sinal abriu, e enquanto caminhávamos, ela me disse o seguinte:

– Não importa se vêem ou aceitam as suas gentilezas. Deus sempre vê tudo.

E aquela voz doce e serena, se transformou em alento. Minhas lágrimas secaram. Quando eu a deixei do outro lado da rua, agradeci de maneira humilde. E ela mais uma vez me surpreendeu:

– Eu que ganhei o meu dia.

Acho que nunca ganhei tanto fazendo tão pouco. E eu achando que estava ajudando…

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