Em boa companhia

Ao andar sozinho

Percebi detalhes do caminho

Fui capaz de ouvir meus passos

Observar minha respiração

E o ritmo do meu coração:

Eu me senti

 

Ao andar sozinho

Passei por flores e espinhos

Becos, avenidas e praças

Do chão batido ao asfalto

Do sapê ao concreto, do aço à lata:

Eu senti o mundo

 

Ao andar sozinho

Provei todas as cores e temperos

Beijos e abraços intensos, insossos e acesos

Camas desarrumadas e fartura sobre as mesas

Tudo passageiro com retrogosto definitivo:

Eu senti o passar do tempo

 

Ao andar sozinho

Nada controlei ou antecipei

Nada esperei e muito recebi

E com o peito inundado pela esperança

Tornei-me da minha vida autor e protagonista:

Eu me reconheci.

De flor em flor

Desejando o bem

Sigo meus caminhos

E ainda que toda e cada rosa

Tenha seus espinhos

Gotas de sangue –

Imperceptíveis! –

Escorrem de meus dedos sem dor

 

Mas o perfume da flor

Ah! Esse sim é como o amor!

Maior do que tudo –

E ainda mesmo que seja tudo –

É único de flor em flor.

Rosa-vermelha_Black-beijo_Papel-de-Parede

Vida post mortem

Já dissemos tudo

Já dissemos nada

Já planejamos tudo

Já planejamos nada

E nossa roda gigante

Com aclives e declives

Dignos de um conto de fadas

Navegamos por risos e lágrimas

Nunca dantes defloradas

E entre ervas daninhas

Monstros e espinhos

Nos perdemos no caminho

Mas insistimos nesta telúrica

E epopéica jornada

 

Dissemos não para o sim

E sim para o não

Acorrentados pelos grilhões amor

Quer seja no prazer ou na dor

Edificamos nossas próprias prisões

Cativos de nossos próprios corações

Somos os sobreviventes

Crentes e carentes

Desse nosso mundo real

Em nada imaginário

 

Que a felicidade nos alcance

Que tudo seja vida post mortem

E que o medo seja esperança

Que sobre em nós a alegria das crianças

Quer seja nas madrugadas fogosas

Ou em para lá de inesquecíveis prosas

Nosso amor é assim:

 

Nunca talvez!

 

Há dias que não

Há dias que sim.

index

Algodão doce

Que me tirem tudo

Menos o meu direito de sonhar

Momentos melhores virão

E sonhos não serão mais sonhos

E eu os poderei tocar

 

Eu faço questão de muito

Mas meu muito é imaterial

E ainda assim é intenso, extenso

É de tirar o fôlego

É de me mostrar que sou mortal

 

E assim, eu erro acertando

E acertando, também por vezes erro

É que o sonho, sempre presente

Nunca, jamais ausente

Eu copiosamente venero

 

E se tropeço e caio

Se sou ferido por espinhos

Levanto-me sujo de sangue

Disfarço e sigo adiante

Meu expurgo faz parte do meu caminho

 

Só peço humildemente a Deus

Que esses sonhos me trouxe

Que alegre meu coração amuado

Pois eu sei que lá, quando eu chegar

Todas as nuvens serão de algodão doce.

1304489906_cotton_candy_clouds_by_emerald_depths-d3fjlfe