Menininha

Eu te chamava assim

Não tinha a ver com a tua idade
Mas com a santidade
Com que eu te olhava
Com que eu te via

Tu eras
Quem eu queria cuidar
E em ti me achar
Mais homem
A cada dia

Não se tratava
De domínio
Mas de fascínio
Admiração
Respeito
Amor
Afeição
Amor

Já disse amor?

Eras tudo
E hoje –
Eu mudo –
Nada muda
Nada mudou

Sinto saudades
Dos fins de tarde
Onde eras uma menininha
E eu
Todo teu

Sinto saudades
Que algumas vezes arde
Feito chama invisível
Atemporal
Que nunca queimou
Ou doeu

Posto que o amor
É assim:
Menininha para mim
Mulher infinita
Amor da minha vida
Não há lágrimas
Em teu nome:
Só bem querer.

Dia das Mães – 2020

Eu tenho inveja das mulheres, confesso. Nunca poderei ser mãe. Deus não deu a mim a missão de gerar uma vida. Forneço só uma semente. Indispensável, eu sei, mas eu jamais serei o solo sagrado que gera e que nutre uma nova vida. Jamais.

Não há no vocabulário palavras suficientes para descrever o milagre da maternidade. Para mim, é a prova de que Deus existe e de que ele é bom. Não é a prova de que homens e mulheres são iguais, mas a prova de que as mulheres são o sagrado, o elo e o canal entre o universo e o mundo em que vivemos.

Portanto, no dia de hoje, quero agradecer a minha mãe por ter me deixado vir ao mundo. Agradeço a mãe da minha filha pelo maior presente que já recebi em minha vida. E por fim, agradeço a todas as mães, na certeza de que a a própria humanidade não existiria sem a aceitação dessa sua missão divina.

Feliz Dia das Mães! Para você que é mãe, para você que quer ser mãe. Para as mães que choram as perdas dos filhos. E para que fique claro, eu me rendo: vocês são absolutamente sensacionais! Vocês são a vida!

Ciclo viciado

Não amo-te apenas quando estou ébrio:
Apenas me eviscero
Diante dos teus olhos
Quando estou

Sou assim

A culpa
É inteiramente tua:
Teus fluidos
É que me embebedam

Releia a poesia
Até nunca chegar ao fim.

Quanto vale um abraço?

A roupa nova
O carro importado
A viagem para a Europa
A próxima mansão pós moderna…

Ficou tudo para depois

Precisou um vírus
Parar o mundo
Para pararmos
Para ver
Que parados
Nada temos
E sequer
Conseguimos ser!

Só precisamos de um abraço
Um abraço…
Que nos devolva os laços
E o prazer de poder viver
Sem de quase nada precisar
E ao mesmo tempo –
De volta –
Nos ter.

COVID-19: ciência, cautela e prudência

Há tempos, li um estudo em que se afirmava categoricamente que canhotos tinham maiores chances de morrer de infarto agudo do miocárdio. Era um estudo sério, feito em uma universidade conceituada. Eu, como canhoto, fiquei assustado. Tempos depois, foram olhar com mais detalhes o grupo que o cientista utilizou para fazer o estudo. Era de uma cidade na Inglaterra (não me lembro ao certo). A média mundial é de 1 canhoto para cada 10 habitantes. Na cidade específica onde foi conduzido o estudo, era algo como 2,5 para cada 10 habitantes. Logo, como ele utilizou uma média ponderada para chegar até os resultados, inferiu que os canhotos tinham mais chances de morrer. Não havia viés político ou algo do tipo. O estudo foi feito através de uma metodologia científica padrão. Entretanto, a amostra (grupo) era “viciado”. Logo, o cientista chegou à conclusões equivocadas.

Fast forward, aqui estamos no presente diante de um inimigo desconhecido. Diversas tentativas para tratar as vítimas do COVID-19 estão caminhando em paralelo. Algumas parecem mais promissoras do que outras. Entretanto, como todos os estudos ainda são extremamente recentes, o passar do tempo é que vai validar a eficácia de cada uma das alternativas. Dito isso, ressalto que, em tempos de “desespero”, tudo vale. Afinal de contas, se a vida já está por ser perdida, que diferença faz?

Há algo que me incomoda, entretanto. Dizem que administrar a cloroquina logo no início da doença evita que pacientes evoluam para um quadro mais grave. Eu entendo e reconheço isso como uma possível verdade. Por outro lado, só para citar um exemplo brasileiro, uma família com 10 pessoas (da minha cidade), sendo a mais idosa com 90 anos, foi infectada pelo COVID-19, não foi tratada com cloroquina, e todo mundo sobreviveu. Então, surge uma pergunta: se a cloroquina tivesse sido ministrada para os 10 membros dessa família logo no início da doença, e os 10 tivessem sobrevivido (como sobreviveram), seria esse caso contabilizado como um êxito do fármaco?

Ciência, cautela e prudência. É tudo que eu peço.

Bônus: vídeo em inglês que ilustra bem o que eu penso, do ano de 2016.

Inside your insides

I am present
But I am not public

I am here and there
Everywhere
Present
But not public

Memories
Dreams
Stories
Shivers
Chills
Fevers
Always present
But not public

You see, my darling
This is how it goes:
I don’t have to be public
To be present
And being present
Deep inside
Your insides
Requires much more depth
Than being public.