Estiagem

E essas coisas

Que eram poucas

E eram tantas!

 

Cheiro de terra fértil

De flores

Aromas

Cores

Sabores

 

Sombra da árvore

Onde eu descansava

Sombra da árvore

Que eu protegia

Era ali que eu me achava

Era ali que eu me via

 

E dessas coisas tantas

Ficaram coisas poucas

E o rio que já correu em meu rosto

Diante da estiagem

Se esvazia.

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Inexclicáveis

De todos os clicks e likes que já recebi

Quantos tantos outros deixei de receber

Por serem inexclicáveis?

Quantos foram sorrisos?

Quantos foram saudade?

Quantos foram desejos?

Quantos foram vontades?

Quantos foram orgasmos?

Quantos foram queijos e vinhos?

Quantos foram café?

Quantos foram eus desobrigados?

Quantos foram paixão?

Quantos transbordaram?

Quantos foram o infinito?

Quantos foram liberdade?

Quantos foram amor?

Quantos ainda hoje são

Quantos simplesmente são

Independentemente do que se diz que é?

Quantos…

Quantos…….

Quantos………….

Tudo é tão inexplicável

E a vida assim

Seguindo

Morrendo

E vivendo

Em verdades

Inexclicáveis.

Cravo & Canela

Reparei nela…

Comecei pela canela

Depois, café com pó de canela

Mais tarde, óleo de canela

E canela em pau

Obviamente

Só pra ela

Posto que eu cravo

Que nela vigorosamente canela.

A voz do coração

Há poesia em tudo

E se tudo já é uma poesia

Deve o poeta ficar mudo?

 

Não que me falte vocabulário

Mas como definir em palavras

O sorriso de uma criança

A leveza de uma bailarina

O vôo de um pássaro

O cheiro de uma rosa

A graça de uma joaninha

As nuvens

O céu

O vento

O mar

O amar

A vida…

 

Eu contemplo

E quando ouso escrever

É só para mostrar

Do que meu coração é feito

 

Tentar redefinir o perfeito?

Lamento

Mas nem de longe eu tento.

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Teu olhar

Teu olhar

Este que fazes sem forçar

Que é tímido e discreto

Obsceno e direto

Misterioso e incerto

Um convite

Ou uma forma de torturar?

 

Cabelos que cobrem

O que precisa ser descoberto

Lábios que explodem

Que fascinam por completo

Presença que avassala

Água cristalina no deserto

 

E nesse meu sonho que tu és

Que vem, que vai

Devoro teus mistérios

Na certeza de que muitos são

Sem contar com aqueles

Que guardas a 7 chaves no seu coração

 

O que pretendes?

Onde estás?

Para onde vais?

Talvez assim eu te encontre

Quer seja por mero acaso

Ou por seguir teu cheiro

 

Desejo-te

 

E meu desejo é mais que verdadeiro.

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Meu Anjo da Guarda

Todo meu 19 de Agosto é dia de reflexão. Meu irmão estaria fazendo 42 anos, mas um câncer o levou quando ela tinha apenas 8 anos de idade. Eu tinha 12 na época.

Falar sobre os 2 anos em que ele ficou doente é algo que não me leva a lugar nenhum. Até porque a ida dele para o céu foi uma libertação. Entretanto, a vida continuou para a minha família, e os efeitos da sua morte prematura ficaram em todos nós.

Lembro que no dia que ele faleceu, 10/11/1984, meu pai e minha mãe disseram que “ele tinha ido para o céu”. E eu respondia: “Não. Meu irmão morreu!” Os eufemismos naquele momento eram detestáveis. Eu queria sentir com toda a intensidade a partida de meu irmão. E foi assim que eu fiz.

Nada foi o mesmo depois disso. Meu pai tentava fingia que nada tinha acontecido, e acabou falecendo aos 61 anos, absorto pelas dores da morte de seus filho. Minha mãe, ainda viva (graças a Deus!), foi pelo caminho contrário. Falava da morte dele com desenvoltura e desapego. Entretanto, suas feições nunca esconderam a dor que ela ainda carrega no peito. Não é para menos: mãe é mãe.

Eu? Sinto a presença de meu irmão todos os dias. No dia de hoje, especificamente, fecho para balanço. Sinto que converso com ele de alguma forma, e aproveito o dia para refletir sobre a vida. Também sinto um turbilhão de sensações: morreu ou foi para o céu? Só sei que de fato ele não está por aqui, mas fui pego de surpresa no dia de hoje.

– Pai, é possível que o nosso anjo da guarda mude durante a vida?
– Não sei, minha filha… Não sei… Mas por que a pergunta?
– É que o Tio Felipe é seu anjo da guarda agora.

Ela com 10 anos… Eu com 46. A abracei e chorei em seus ombros. Minha filha me deu hoje um presente que esperei durante muitos e muitos anos. Consegui finalmente acreditar que meu irmão está vivo e de fato no céu.

Obrigado, Senhor Meu Deus, pelo presente que recebi no dia de hoje! Obrigado por ter me dado uma filha tão maravilhosa! E obrigado a você, Felipe Ottolini, por todos esses anos que me guardou. E que tudo continue assim.

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