Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill

Seis anos do blog! :)

O blog nasceu para falar de política, mas que acabou virando uma colcha de retalhos: poesias, contos, crônicas, músicas… Um pouco de tudo, sempre de peito aberto e com muito amor no coração. Tudo visceral. Tudo de verdade.

Meu MUITO OBRIGADO a todos que me leem e a que interagem comigo de alguma forma. Que Deus abençoe as suas vidas e a vida das pessoas que vocês amam. Saúde!

Um grande beijo! ❤

Eu te recomendo

Apesar de a gente não ter dado certo, eu te daria uma carta de recomendação sem pensar duas vezes.

Você foi meu sangue e minha alma, meu amor e minha vida, e foi por tanto tempo…

Como não falar bem de uma das melhores coisas que já me aconteceram?

E não, isso não quer dizer que não mais te amo. Pelo contrário. Quer dizer apenas que te quero feliz, feliz como eu sempre te quis, quando você estava do meu lado. Amar não é isso?

Eu te amo de alguma forma. Em algum tempo e em algum espaço ou lugar. Eu não seria quem eu sou sem você. Eu não seria o que eu sou sem o que nós fomos.

Eu te amo. Saiba disso. Lembre-se sempre disso. É uma verdade eterna e inabalável, inquebrável. Você não é algo do qual eu queira me desfazer. Eu me lembro de você. Eu me lembro de nós. Eu me lembro de tudo. Você não é algo que eu queira ou precise esquecer.

O teu cheiro

O teu cheiro era bem mais que teu perfume, que ficava entranhado nas minhas roupas e em todo o meu corpo.

O teu cheiro perfumava o meu quarto, a minha roupa de cama, as minhas toalhas, o meu colchão.

O teu cheiro ficou no meu carro e vai passear e trabalhar comigo.

O teu cheiro era a certeza de que eu tinha encontrado a minha fêmea.

O teu cheiro era como nenhum outro.

E teu cheiro passou a ser o meu cheiro.

E hoje, ainda que distantes, eu te exalo pelos meus poros.

O teu cheiro foi o amor que ficou em mim.

A mala

Demorei a desfazer a minha mala, porque eu sabia que desfazê-la era o mesmo que desfazer-me.

Fui tirando as peças de roupa e revivendo histórias, memórias. Deparei-me com porvires que nunca virão e com garrafas de vinho que jamais serão abertas. Brotaram declarações de amor tarja preta, beijos esquecidos e orgasmos retorcidos, sepultados sem choro e nem vela.

No fundo da mala, uma medalha de Nossa Senhora de Fátima e um paninho da minha filha, daqueles que crianças usam para dormir. Toda vez que eu viajava, ela colocava o paninho na minha mala e me dizia: “Leva esse paninho para você não se esquecer de mim!”

Fitei a medalha e levei instintivamente o paninho até meu rosto. Respirei fundo e me dei conta de que tudo que realmente importava na minha vida estava ali. Tudo vivo. Tudo sagrado. Tudo resguardado.

Fiz uma prece e usei o paninho para enxugar algumas lágrimas que insistiram em rolar pela minha face. Agradeci pela minha vida, pela vida da minha filha, pelo que deu certo e até mesmo pelo que deu errado. Simplesmente agradeci. Entreguei-me, por fim, a minha realidade burlesca.

Da alça da mala, retirei a etiqueta da companhia aérea. Lembrei-me do voo turbulento e da volta antecipada. Lembrei-me da turbulência em minha vida, mas voar continuava a ser uma necessidade premente. Não era opção. Era vocação. O próximo destino? Nas mãos de Deus.

Fechei a mala e a guardei em um canto do quarto. Coloquei a medalha na minha carteira e o paninho sobre meu travesseiro. Fui dormir mais tranquilo. Naquele dia, encarei o meu medo e ele covardemente me disse adeus.