Decerto

Há coisas que são só para os olhos

E há aquelas coisas

Que ousam –

Que pousam! –

No ventre,

No útero,

No nascer,

No adeus,

Em Deus,

 

Há coisas –

E de todas essas coisas –

Há o grito,

Calmo ou aflito,

Onde te penumbro,

E nunca te ofusco.

 

Há luz,

Há verdade,

Há claridade

Na cerca que não cerca,

No abraço que não prende,

Na doença que não e moléstia,

Na ausência que é presença

Farta e certa.

 

E tudo

No momento certo,

Quer seja no coração que sangra,

Ou no que o orgulho lacra –

Aberto! –

Renasce por suas próprias forças,

Posto que o amor

Ressurge e urge

No presente fingido,

Cujo futuro –

Decerto –

É comunhão,

Entrega,

Vida,

Sublime abnegação,

Água no deserto.

É preciso!

É preciso se permitir sentir

Longe dos olhos e das bocas dos outros

Longe das fisionomias

E da linguagem corporal

Que sem saber dos fatos, julga

 

É preciso olhar para dentro

E de dentro olhar para fora

Ver como só se pode ver

Quando as luzes se apagam

E todo mundo já foi embora

 

É preciso crer na intuição

Ouvir a voz do coração

E sentir-se dono do sim e do não

E pensar não no caminho

Mas no que faz chegar ao futuro

 

É preciso saber o que é preciso

É preciso saber o que é da alma

É preciso saber que o tempo passa

É preciso saber que tudo muda

 

Menos aquilo… Aquilo não…

Aquilo não muda

 

É preciso saber qual é o nosso aquilo

Sorrir… Viver… Ser feliz…

E transformar o aquilo no isso

Pois no fundo

Com o coração desnudo

É do isso

É de tudo isso que se precisa.

Em vão

Vem cá…

Vem me falar

De tudo que você acha

Que não precisa dizer

 

Lembra?

Antes de tudo eu era amigo

Abrigo…

O bom dia

O boa noite

E tudo mais que precisava ser

 

Deixo assim

Nas tuas mãos

O direito de ser feliz –

Ou não!

 

Mas se quiser me falar

Do seu coração

Continuo por aqui

Depende só de você

Confessar-se

Ou deixar o momento ir-se em vão.

Dia do Idoso

Eu vi minha bisa, meus avós e avôs, envelhecendo. Vi meu pai falecer antes de envelhecer. E hoje vejo minha mãe envelhecendo.

Já perdi muita gente boa por conta da idade. Rugas… Marcas das lutas, da coragem, que jamais serão disfarçadas pelo tempo.

E quando falo de coragem, é porque carrego comigo esses exemplos. Os que vieram antes de mim eram corajosos. Eram bravos! Eram luz na minha vida! E na sua humildade, escondiam imenso saber.

Quem me conhece sabe que tenho um fraco (muito forte) por crianças e idosos. Crianças por serem o futuro, e idosos por carregarem o que nem imagino ser o seu passado.

Escolham um idoso qualquer na rua. Reparem bem! Percebam a fragilidade do corpo (na maioria dos casos), mas não os julguem por isso. Cada idoso já tem a sua própria história, e não nego que esse tempo todo na Terra me fascina.

A senhora maltrapilha, talvez já tenha sido madame. O senhor que fala sozinho, talvez já tenha ensinado muita gente a falar. O idoso cadeirante, que não consegue sequer fazer suas necessidades sozinho, talvez já tenha salvo a vida de muitos.

E é por isso que largo o que eu estiver fazendo para ajudar os idosos. Não é só amor; é admiração; é respeito. É o reconhecimento de que correram, pularam, trabalharam, e agora só precisam de uma velhice digna.

Então, eu peço de coração: cuide sempre dos idosos. Mostre para seu filho(a) a importância que tiveram em sua vida. Não os esconda. Não os abandone. Seja por eles o que eles já foram por você.

É certo que há idosos chatos, muitos deles doentes. A gente nunca sabe pelo que já passaram na vida.

E hoje eu estou aqui, diante de TODOS os idosos do mundo, prestando a minha homenagem. Vocês NUNCA serão um fardo. E se Deus quiser, um dia, quando eu for um idoso, que eu seja honrado pelos que vieram antes de mim.

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Cravo & Canela

Reparei nela…

Comecei pela canela

Depois, café com pó de canela

Mais tarde, óleo de canela

E canela em pau

Obviamente

Só pra ela

Posto que eu cravo

Que nela vigorosamente canela.

Meu Anjo da Guarda

Todo meu 19 de Agosto é dia de reflexão. Meu irmão estaria fazendo 42 anos, mas um câncer o levou quando ela tinha apenas 8 anos de idade. Eu tinha 12 na época.

Falar sobre os 2 anos em que ele ficou doente é algo que não me leva a lugar nenhum. Até porque a ida dele para o céu foi uma libertação. Entretanto, a vida continuou para a minha família, e os efeitos da sua morte prematura ficaram em todos nós.

Lembro que no dia que ele faleceu, 10/11/1984, meu pai e minha mãe disseram que “ele tinha ido para o céu”. E eu respondia: “Não. Meu irmão morreu!” Os eufemismos naquele momento eram detestáveis. Eu queria sentir com toda a intensidade a partida de meu irmão. E foi assim que eu fiz.

Nada foi o mesmo depois disso. Meu pai tentava fingia que nada tinha acontecido, e acabou falecendo aos 61 anos, absorto pelas dores da morte de seus filho. Minha mãe, ainda viva (graças a Deus!), foi pelo caminho contrário. Falava da morte dele com desenvoltura e desapego. Entretanto, suas feições nunca esconderam a dor que ela ainda carrega no peito. Não é para menos: mãe é mãe.

Eu? Sinto a presença de meu irmão todos os dias. No dia de hoje, especificamente, fecho para balanço. Sinto que converso com ele de alguma forma, e aproveito o dia para refletir sobre a vida. Também sinto um turbilhão de sensações: morreu ou foi para o céu? Só sei que de fato ele não está por aqui, mas fui pego de surpresa no dia de hoje.

– Pai, é possível que o nosso anjo da guarda mude durante a vida?
– Não sei, minha filha… Não sei… Mas por que a pergunta?
– É que o Tio Felipe é seu anjo da guarda agora.

Ela com 10 anos… Eu com 46. A abracei e chorei em seus ombros. Minha filha me deu hoje um presente que esperei durante muitos e muitos anos. Consegui finalmente acreditar que meu irmão está vivo e de fato no céu.

Obrigado, Senhor Meu Deus, pelo presente que recebi no dia de hoje! Obrigado por ter me dado uma filha tão maravilhosa! E obrigado a você, Felipe Ottolini, por todos esses anos que me guardou. E que tudo continue assim.

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