Indo…

Vou de barco

O mar de alguma forma simula

O vai e vem quando estou dentro de ti

E aninhado em teus braços

 

Vou de avião

Para sentir aquele frio na barriga

E ver nas nuvens que vão do magenta ao cinza

Os mil tons de convites que exalam do teu corpo nu

 

Vou de trem

Quer seja em vagarosa e vigorosa Maria Fumaça

Ou um dilacerante e retumbante trem-bala

Dependendo do trajeto, da paisagem, do momento

 

Vou de carro

Para que no meio dos engarrafamentos

Eu sinta e aprecie todo tormento

Das nossas torturas autoinfligidas e para lá de lascivas

 

Vou de bicicleta

Para manter o equilíbrio necessário

E manter-me firme no nosso caminho

Nos momentos de amor cintilados de espinhos

 

Vou a pé

No calor extenuante do verão

Para sentir e ver na alma, no corpo e no coração

O calor que só a tua presença agiganta e agita

 

Mas não vou a lugar algum

Já não preciso mais ir

Preciso mesmo é estar aqui

Onde todos caminhos me levam invariavelmente a ti.

abrac3a7o

Esconde-me aí dentro

Esconde-me aí dentro

Está muito frio

Minha alma tão vazia

Há tempos que sequer sorrio

 

Esconde-me aí dentro

Não quero ser encontrado

Deixe-me sem pressa dormir

Em ti completamente enroscado

 

Esconde-me aí dentro

Proteja-me do que não sei

Sutura esses cortes profundos

De quando me autoflagelei

 

Esconde-me aí dentro

Como? Eu não sei

Só sei que dentro de ti

A paz eu encontrei.

lembrancas

Meus cachorros

– Pode encher, por favor… Do que estávamos falando mesmo?

Eu não queria falar ou ouvir mais nada. A bebida era a desculpa. Não queria ficar bêbado. Queria parecer bêbado. Era uma conversa para ser esquecida de tantas vezes que já havia se repetido.

Nada daquilo fazia sentido. A fumaça do cigarro da mesa ao lado me sufocava. O barulho dos carros ao longe. A cerveja nacional cheia de milho. Eu precisava de algum tipo de teletransporte. Precisava sumir.

– Você sempre sai pela tangente quando o assunto não agrada…

– Não é verdade e você sabe disso. Eu só estou de saco cheio de conversar sobre o mesmo assunto todas as vezes. Não dá, entende? Não dá! EU ESTOU DE SACO CHEIO!

O pessoal da mesa ao lado olhou em minha direção. Eles fumando e eu falando alto. Estávamos empatados.

– Quer saber? Vou embora. Lá em casa não tem fumaça, não tem barulho, e a cerveja é de melhor qualidade. Vai ficar?

Levantei-me e fui embora. Poucos metros adiante, pisei em um cocô de cachorro. Merda… Eu não aguento mais essa conversa sobre ter que comprar um cachorro. Cachorro é para quem tem casa! Não consigo imaginar um cachorro em um apartamento.

Na frente do meu prédio, três vira-latas dormindo. Qual a história desses carinhas, hein? Vivem como? Nasceram onde? Já tiveram casa? Estariam com fome ou com sede? Frio?

Puta que pariu… Peguei uma vasilha daquelas de sorvete com água e outra com ração. Por que eu tenho ração em casa? Minha filha me ensinou que já temos vários cachorros. Eles moram nas ruas. Para que eu preciso comprar um?

cachorro vira lata 1

Saúde em primeiro lugar

Ainda que me preocupe

Com seu bem estar geral

Não creio que ficar molhada

Cause-lhe algum mal…

 

Mesmo que esteja frio

Não é possível selar

A nascente desse rio

Nós dois sabemos bem disso.

Vinho-3

 

Transitado em julgado

Não fosse a quantidade de roupas

Que rasguei para despir-te

Eu juro que nem me lembraria

Do frio que lá fora acontecia

 

Da próxima vez

Um sobretudo sobre nada

Quem sabe?

Pois não quero causar-te

De maneira alguma

Grande prejuízo

Apenas rasgar, picotar e sublimar

O teu juízo.

gavel

 

 

Alasca

Lembra de quando vimos

O pôr do sol nascer?

Loucos

Insônia

Ar-condicionado

Edredom

Verão

Fluidos para hidratação

Fluidos para alimentação

Meia-noite

Meio-dia

Uma vida inteira

Perdemos a noção

Nunca mais a achamos

E quem disse que procuramos?

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