Quiçá

Diante do céu e do mar,

Pés nas areias do tempo,

Olhos fixos no horizonte:

Nada a temer ou lamentar.

O que é meu, meu será,

Aqui ou em outro lugar,

E o sol há de iluminar

Tudo que jaz adiante.

Ouço a brisa me lembrar

Dos abraços ainda por dar,

Dos beijos ainda distantes,

Lembrando-me do que já fui

E de tudo que existia antes.

Há vinhos ainda por tomar,

Conversas para embalar,

Segredos para confessar,

Muros para derrubar,

Pontes para edificar.

Por ora, sem demora,

As preces de outrora

Se fazem vivas na memória,

E sinto que o ontem,

Amanhã… Quiçá.

Fracionado

Mais um gole
Mais um trago
Mais um beijo
Mais um algo
Mais alguma coisa

Mais
Mais
Mais
Sempre mais

Mais para esconder meus menos
Mais para afogar o insaciável
Mais para calar os gritos
Mais para sublimar as lágrimas
Mais para esquecer de lembrar
Mais para entorpecer o coração

Mais
Mais
Mais
Sempre mais

Mais porque não sei
Viver com essa subtração
Que fez de mim uma fração
Que não me deixa ser inteiro.

Eu vou respeitar o meu coração

Eu vou respeitar o meu coração
Em qualquer situação
Em todo momento
Durante todo o tempo
Até a última hora

Nem sempre o entendo
Mas sempre o respeito
Para ele não ir embora

Guardo dentro dele coisas gigantes
Tesouros incalculáveis:
Sonhos
Pessoas
Futuro
Presente
Passado

Um pouco de tudo
Até mesmo do nada
Mas nenhum centavo
Nada do que me pode
Ser tirado

E há momentos
Em que ele não cabe dentro de mim
E foge pelas minhas mãos
Feito pichador
Que nas paredes do meu mundo
Liberta-me pintando poesias

Talvez as coisas andem
Um pouco desarrumadas
Mas nele está
Tudo que deveria estar

E quando ele se agita –
E sempre se agita –
Desarruma-me
Mas é justamente desarrumado
Completamente desarrumado
Que me sinto mais vivo
Mais no rumo
Seja lá qual rumo for

Eu já quis ter o poder
De decidir o que nele ficaria
Ou o que nele eu colocaria
Quanta hipocrisia!

Mas não…
É melhor não…
Ele tem vida própria
E eu só tenho o que chamam de razão.

Há tanta coisa acontecendo

Há tanta coisa acontecendo
E eu aqui convencendo meus desejos
A desejar quem de fato me deseja
A não andar na contramão

Há tanta coisa acontecendo
E eu receando novos beijos
Que outrora já foram meus
Que deixei na mais pura escuridão

Há tanta coisa acontecendo
E eu diante do meu espelho
Olhando dentro de mim mesmo
Dizendo não ao sim e sim ao não

Há tanta coisa acontecendo
Os convite que finjo que não recebo
Que estão ao toque dos meus dedos
Que abrandariam toda sofreguidão

Há tanta coisa acontecendo…

Eu estou acontecendo
Crescendo e me fortalecendo
Libertando-me do passado
Por respeito a mim mesmo
E ao que de mais sagrado tenho:
Meu sincero coração.

Mil sóis

Sinto a tua presença em tudo
No todo
Nas partes

Não caminho mais sozinho
E nem caminho para esquecer
Porque tudo que sei fazer é lembrar

Vivo silêncios ruidosos
De onde brotam infinitas declarações de amor
Desejos e vontades reiteradamente confessos
Saudades que não são doridas
Vida que é viva
E que me faz acreditar
Que minha própria vida
Ficou de pé e pôs-se a andar
A correr
A voar!

Não mais me anseia o futuro –
Estou ocupado demais com o presente –
Estrepitando sentimentos dormentes
Permitindo-me sentir e ir
Sem receio
Sem medo
Imerso em mim
Ardendo feito mil sóis.

Feito um bom vinho

Que o brinde distante
Se torne apenas
Mais um motivo
Para brindarmos ao vivo
Pelo que achávamos
Que tínhamos
Pelo que achávamos
Que não precisávamos

Tempos difíceis
Corações tristes
Almas amoadas…

Mas eu estou aí
Tu estás aqui
Não percebes?
É tudo temporário

E talvez seja esse
O grande detalhe:
Tudo é temporário
Nada é de fato nosso
Mas o que sentimos
É do mundo
É o próprio mundo
É a nossa vida
É a nossa coragem

E que nossos corações –
Ora desnudos –
Encontrem-se em sonhos
E que acordemos risonhos
Com menos dúvidas
E com algumas –
Ainda que poucas –
Certezas
Que espantem as tristezas
Feito fartos goles
De um bom vinho.

Duvidando

Não escrevo para ler
E lembrar no futuro
Escrevo para esquecer
Do agora
No agora

Cada gota de tinta
Cada rima
Cada verso
Cada estrofe
Fazem-me esquecer

Tudo é desabafo
Descarrego

Coisas que quis dizer
E não pude
Coisas que tentei entender
E não consegui
Coisas minhas –
Só minhas –
Palavras sobre mim
Palavras por mim

E no futuro
Ao reler o que escrevi
Tudo parecerá estranho –
Porque de mim
Serei um estranho –
Perdido
Nas minhas próprias memórias
Duvidando do meu passado
Por tê-lo documentado
E ainda assim
Não mais o sentir.

Pigarro

Estive pensando
Em mim
Em você
Em nós
Nos nós
Na garganta –
Pigarro –
Difíceis
De engolir

Coisa pouca
Eu e você
Queijos e vinhos
Nenhuma roupa
Nenhuma pretensão
Mais nada
Mais ninguém

Eu estou bem

O dulçor
E o amargor
Da saudade
Me guarnecem
Me aquecem
Feito prece
O resto
É o resto
É o momento
No tempo
Em deixar
Por decidir.