Inefável

Falar de ti é difícil,
Porque falar contigo
Sobre tudo –
É o que há de mais fácil.

Falar de ti é definir-te,
E tua natureza é indefinível,
Presente nos sorrisos que esbanjas,
Nos abraços que aquecem a alma.

Falar de ti é um vício,
E fiz disto um ofício,
Nos bares da vida te procuro,
E sorvo-te até em beijos que não são teus.

Quero-te em níveis absurdos,
Mas sei que o maior dos absurdos
É acordar e não ver-te em minha cama,
E lembrar que não sou mais teu.

Outro dia

Longe das palavras,
Longe das poesias,
Senti na minha boca
O cheiro
Que somente a ti
Pertencia.

Não me dei conta
Naquele momento,
Naquele lugar,
Que as águas
Que eu estava
A navegar
Eram de fato
De outra fantasia.

Até que ela me perguntou
Se dela eu no futuro
Me lembraria,
E foi aí que me lembrei
De que para ti
Também disse
Que não me esqueceria.

E na inocente sinceridade
Que a ti eu devia
Calei a sua boca
Como pude
Sem qualquer pudor,
Inibição,
Ou hipocrisia.

Talvez eu a ela
Ainda responda
Não hoje –
Defintivamente não hoje –
Posto que o seu mel
Da minha boca
Ainda escorria
Quando fui-me embora
Prometendo voltar
Amanhã
Ou qualquer outro dia.

Entre o esquecer
E o lembrar,
Minha boca
Permaneceu calada,
Mas chocou-me
Não ser mais teu
O cheiro que
Inebriava minha alma
E somente de ti
Verdadeiramente resplandecia.

Amar quantas vezes forem necessárias

Fala que não vai amar de novo. Jura que não vai se entregar mais uma vez. Diz que não quer nada sério. Faz promessa e tudo mais. E chega a vida, que não tem nada a ver com isso, e fala assim:

– Parou com a crise existencial? Tá aqui, ó…

E vira adolescente. Solta fogos por dentro. Volta a sonhar. Compra flores e bombons. Faz cartão. Escreve poesia. Faz juras de amor. Se entrega mais uma vez…

É possível viver sem amar? Talvez, mas as melhores histórias são as histórias de amor. Não viver essas histórias, quantas forem necessárias, é um grande desperdício. É deixar um monte de páginas em branco no livro da vida.

Viva!

Sexta-feira 13

Nada de azar

Nada de sorte

Só o que eu preciso

Para construir a minha história

E renascer de mim

Por mim

Por fim.

Vim trazer verdades 23

Todos nós temos histórias tristes para contar, até mesmo os que são felizes. Porque não são as nossas histórias que definem se somos felizes ou não, mas sim como nós contamos (até para nós mesmos) estas histórias.

De outro mundo

Há tantas poesias e tantas memórias,
Tantas histórias que fazem o fim
Não ter fim.

E eu tinha medo disso.
Medo de ser consumido pelo passado,
Pelas recordações,
Pelos momentos muito mais do que felizes
Que vivemos juntos.

Hoje, não mais.

Aprendi tanta coisa,
Experimentei tanta coisa,
Vivi tanta coisa boa,
Cresci tanto a teu lado…
Como posso ignorar isso?

O fim foi estranho –
Sabemos disso.
Foi um fim sem fim,
E assim, precisei criar um,
E nele você foi abduzida por ETs.

Talvez eles estejam fazendo experimentos
E estudando o seu DNA,
Mas os ETs gostaram tanto de você –
Feito eu –
Que decidiram não te devolver.
Eu também não devolveria,
Confesso.

Talvez você esteja me vendo de onde está,
Mas isso não importa.
A menos que os ETs tenham lavado sua memória,
Sei que lembra das coisas como eu me lembro,
E isso que é o importante:
Mesmo ausente, ser presente na vida de alguém.

Que os ETs cuidem bem de você.
Você merece e sim, eu sei:
Você não é mais do meu mundo.

Cinzeiro

Não te assustes, meu bem

Se um dia, ao acordares

Vires o meu lado em nossa cama

Frio e vazio

Fui-me

Precisei ir

 

Sem aviso formal

É fato

Mas vou-me por não me sentir útil

Vi minha vida por teu amor

Por nosso amor

Por nossos planos

Muitos, muitos anos

Ser rasgada a seco

Deixada ao vento

E com fome e frio

Perdida no tempo

Tudo feito e desfeito

Esforço impróprio

Vida pueril

Vida inútil

 

Mas declaro

Que fique claro

Que não sou algoz

E muito menos vítima

Mas eu sou fogo

Sou brasa

O combustível

O comburente

Sou a flecha

E o arqueiro

E não cigarro

Ou mero trago

Ou mesmo cinzas de qualquer cinzeiro

 

Aproveito a oportunidade

Para oferecer-te minhas sinceras desculpas

Não sei exatamente onde errei

Se foi por dar-me como me dei

Ou se foi por sonhar como sonhei

Fato é que agora sei

Que eram meus

E tão somente meus

Os nossos sonhos

E neles nos amávamos

E eu amava

Eu sempre amei

 

E na solidão agora desacompanhada

De minhas horas

Teu nome em minha memória

Saudade que condena e sufoca

Nevoeiro de lágrimas

Que derramam-se em um livro

De uma só página

Um resumo do nosso amor

“Acabou”

Era só fumaça

Mais nada.

fumo-cinzeiro-sujo-principal

História sem fim

Sonha

Deseja

Hesita

Realiza

Sai à francesa

Transforma em memória

Volta ao início da história

Sonha

Deseja

Hesita

Realiza

Sai à francesa

Transforma em memória

Volta ao início da história

Sonha

Deseja

Hesita

Realiza

Sai à francesa

Transforma em memória

Volta ao início da história

Ad infinitum…

E assim

É simplesmente

Uma história

A história

Sem fim.

ciclo