Tequila

Nós olhávamos o pôr do sol da marina. Nas mãos, uma garrafa de Tequila daquelas que são vendidas a preço de ouro, muito embora sejam de prata (sem trocadilhos). Na minha cabeça, o momento pedia nada menos que uma añejo. Paciência.

“Vamos ver que aguenta mais shots?”, com direito à mãos cheias de amendoim e água entre um shot e outro, claro. Combinado.

Chegamos até o terceiro shot falando da vida, de assuntos completamente aleatórios. O sol já havia se retirado. Havia alguns mosquitos, mas hey… Histórias reais não são perfeitas.

No terceiro shot, paramos. A minha responsabilidade era grande. Eu tinha que, no mínimo, empatar. Felizmente, ela disse que não sabia como a Tequila agia no corpo dela, e achou que estava tudo indo bem demais. Fácil demais. Fascinante demais. Eu só concordei. De fato eu estava sentindo o mesmo.

O vento fazia seu cabelo castanho abraçar sua face. Deixava-me hipnotizado de alguma forma. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar, e ouvia atentamente cada palavra que ela dizia. Cada sílaba, cada vogal, cada consoante… Eu ouvia também a respiração dela, e o vento gelado no tímido inverno do Rio de Janeiro fez nossos corpos se aproximarem por instinto. Sobrevivência, achava eu. Eu estava enganado.

Sem perceber, eu estava a poucos centímetros da sua boca. Lábios carnudos, cheios de vida. Deles saíam palavras que me embebedavam, me hipnotizavam. E de repente me dei conta que meu corpo todo era só ouvidos. Ouvidos só dela. Querendo ou não eu era dela pelo menos naquele momento, muito embora não me desse conta disso.

E eu tentei roubar um beijo, muito embora não seja possível roubar aquilo que já era meu. E ela retribuiu. Os hálitos inflamáveis explodiram, até que sua mão direita segurou o meu queixo e ela me disse: “Se importa se continuarmos isso sem a Tequila?”

Eu concordei, claro. Pensei que havia avançado algum sinal vermelho, mas continuamos a conversar. Depois de algum tempo, cada um foi para a sua casa de Uber, e eu achei melhor não tocar no assunto, pelo menos não naquela noite. Melhor deixar para pensar nisso depois da Tequila ir embora do meu corpo.

No domingo, decidi fingir que nada havia acontecido. Eu lembrava do beijo, dos cabelos, dos lábios carnudos, de tudo, mas achei melhor afundar meus pensamentos e desejos em alguma série do Netflix. Qualquer uma. Melhor. Menos perigoso.

Na segunda-feira, ela me ligou e eu não atendi. O dia foi muito corrido. Sem perceber, meu telefone acabou ficando no modo silencioso, e tudo que me restou foi enviar uma mensagem via Telegram dizendo que eu não tinha me dado conta da ligação dela. A minha mensagem foi visualizada e ignorada com sucesso.

Hoje, terça feira pela manhã, o telefone tocou novamente. Era ela e eu estava em uma reunião de trabalho. Por instinto, coloquei o meu headset no mudo e atendi a ligação.

Ela não me disse oi. Só me disse o seguinte: “Sábado, na minha casa, sem Tequila?” Percebi, então, o tamanho do peso que eu carregava em minhas costas e disse um firme sim. Eu merecia o sim. Ela também. Voltei para a reunião de trabalho com frio na barriga. Radiante. Feliz.

Ainda é terca-feira. No sábado, não vai haver Tequila. Só ela. E no que depender de mim, vou tomar um porre disso. Nada melhor que se embebedar sem uma gota de álcool sequer.

Teu olhar

Teu olhar

Este que fazes sem forçar

Que é tímido e discreto

Obsceno e direto

Misterioso e incerto

Um convite

Ou uma forma de torturar?

 

Cabelos que cobrem

O que precisa ser descoberto

Lábios que explodem

Que fascinam por completo

Presença que avassala

Água cristalina no deserto

 

E nesse meu sonho que tu és

Que vem, que vai

Devoro teus mistérios

Na certeza de que muitos são

Sem contar com aqueles

Que guardas a 7 chaves no seu coração

 

O que pretendes?

Onde estás?

Para onde vais?

Talvez assim eu te encontre

Quer seja por mero acaso

Ou por seguir teu cheiro

 

Desejo-te

 

E meu desejo é mais que verdadeiro.

um-olhar-pode-dizer-o-que-milhoes-de-palavras

Arco Reflexo

E chega a sexta-feira

As taças de vinho

A garrafa na mão

Sento-me

Bebo sozinho

Bebo-te até não sobrar

Uma gota que seja de ti

 

As unhas vermelhas

O elixir tinto

As lembranças que sinto

Os sonhos vivos

Faíscas e centelhas

 

É involuntário

Fisiologicamente necessário

 

A gota de vinho

Que escorre pelo meu peito

Tem teu gosto e cheiro…

 

Não, não há solidão!

Estou contigo

E não, não há perigo…

Sorrio –

Revejo meus lábios no teu umbigo.

beijo-no-umbigo

Denominação de Origem Controlada

Era só espumante

Que tocava seus lábios

Escorria pelo seu corpo

Por caminhos inconfessáveis

Que conheço muito…

Muito bem

E enquanto percorria

Esse relevo paradisíaco

Picos, cânions e vales…

Mudava até de nome:

Champagne!

E eu o sorvo

Ora com fúria

Ora com afeto

Até o último gole

Não deixo uma gota na taça

Que nem de longe disfarça

O serviço foi

Completo.

Champagne