Verossimilhança

Eu sou a sombra dos teus desejos
A parte deles que nunca dorme
A parte que sempre te acompanha
Por mais que o negues quando foges

Tua fuga me agiganta e de nada adianta
Fico mais forte – nunca ausente
Ainda que me renegues repetidas vezes
Faço parte de ti, sempre presente

Tua lógica não me enfraquece
Tua negação me faz rir
Não posso ser descartado, jogado fora
Por que insistes em insistir?

Se soubessem a fúria louca que tens pode dentro
Se soubessem da mulher que finges que não és
Teriam medo de ti como não tenho
Ou achariam isso tudo um grande revés?

Que sorte a minha serem tolos assim!
Deflagro-te ainda que à distância
És parte do que sou em essência
És minha mais pura e devassa verossimilhança

Não se queixes de eu existir
Sou o derradeiro conduíte da tua felicidade
Se impura fores, impura é nossa essência
Da qual nos regozijaremos por toda a só nossa eternidade.

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Noite

Noite misteriosa

Sem brilho

Jocosa

Que chuta cachorro morto

Até não haver mais corpo

Para um funeral digno

 

Noite traiçoeira

Sinuosa serpente

Sorrateira

Que inocula seu veneno

Que deixa o corpo fervendo

E parte! Sem se despedir

 

Noite chuvosa

Propositalmente onírica

Lírica

Jorrando em borbotões

Tira o ar de meus pulmões

E me afoga em minha teimosia

 

Noite inesquecível

Deliciosa gastura

Loucura!

Mas se tiver que ser

Render-se-á o alvorecer

A esta carestia mundana.

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Estou te esperando

Mais uma noite de verão,
De música, alegria e festa,
E eis que, mais do que de repente,
Um sonho, um desejo latente,
Toma conta de mim,
Da minha loucura,
E cura todas as minhas moléstias.

Invade-me uma grande luz,
E no meio de toda a multidão,
Uma grande certeza em meu coração:
Para cada amor que morre,
Um maior ainda nasce,
E seu tamanho fica evidente em minha face,
No sorriso que esbanjo, feito criança.

Ah! dona de minhas esperanças,
Onde estás agora?
Será que a nossa definitiva hora
Ainda está por chegar?
Teu maior dom é fazer com que minha espera
Seja descanso, cor, brilho – quem me dera!
Te ter aqui, agora, afinal.

Não me culpes por perceber
O que não perceberam antes,
Nos teus olhos de diamante,
O valor da minha vida,
E de tudo que eu sempre quis,
Meu Deus, como estou feliz!
Parece que vivo em um conto de fadas.

E a festa continua,
Se estende por além desta noite.
Só quero me livrar do grande açoite,
Que é viver longe das tuas risadas,
Dos teus feitiços, minha fada,
Minha fantasia, meu corpo,
Minha alma, meu destino,
Sem te ter, sou quase nada.

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Sob o Mar

Autoral das antigas. 🙂

Sob o Mar

Procurei por muito tempo um cais,
Onde eu pudesse largar meu barco,
Depois de tempestades inenarráveis,
Depois de tempestades inimagináveis,
Reais, sobretudo, dentro de mim.

O mar da vida me afogava em seus braços,
E ainda assim, apesar do meu cansaço,
Conseguia nadar, respirar, vomitar,
Só para ver novamente os olhos de cemitério
Com que me olhavam, rasgavam, ruminavam.

Novamente sim! Era essa a rotina.
Perdoar, crescer, transcender, elucidar, clarear,
Para me ver gemer, granir, gritar, ejacular de dor.
Dor, meu maior prazer era a dor.
Que ser humano pode viver se não tiver prazer?

E as ondas do mar me lavavam, me levavam,
Me consumiam, cada dia mais, sempre mais.
Os dias eram paredes de água, onde viviam dragões lendários,
Queria ser um peixe, para viver protegido em um aquário,
De água ácida, minhas lágrimas, meu pó de mim.

Minhas cinzas, então, se diluíam nessas águas turbulentas.
Vida ainda possuíam, apesar do frio cinza de seus corpos.
Já se afogaram, morreram, ressuscitaram, reencarnaram.
Intensamente são bravas, inquebráveis, etéreas, afáveis.
Miragem! Vejo uma ilha vindo para perto de mim.

Chegou, colou os cacos, juntou os pedaços,
Queimou as cinzas, transformou-as em algo desejável.
Tirou do abismo, revelou meu maior, total e único tesouro:
Sou ouro, sou raro, sou muito, sou feliz, sou louco.
Ilha, onde andavas? Tanto tempo passei sem ti.