Marco zero

E pensar que eu só queria

Saber se você me lia

Pois em cada gota de tinta

Estava um pedaço de mim

 

E pensar que eu só queria

Nas noites tão vazias

Um beijo de boa noite

Um alento para a saudade que há em mim

 

E pensar que eu só queria

Contar o passar dos dias

Para aquecê-la em meus braços

Para tê-la em mim

 

E pensar que eu só queria

Que em minha cama vazia

Repousassem seus medos e sonhos

Para que você pudesse vivê-los em mim

 

E pensar que eu só queria

Ouvir e ser ouvido

Em prosa e poesia

Para fazê-la lembrar de mim

 

E pensar que eu só queria

O que ainda quero

Nosso amor, nosso marco zero

Laços sem fronteiras

Amor

Puro e retumbante

Amor desconcertante

Sem fim.

Comigo

Não sei…

Não consigo me expressar

Deixo para que o tempo diga

O que o tempo dirá

 

Verborragicamente me calo

Silêncio…

Nem eu me aguento

Estou sem só de mim

 

Espreito a chance

Aquele peculiar instante

O tórrido romance

Do meu eu contigo

 

E eu sigo

Confiante

Perto ou distante

Carrego-te comigo.

Quase me perco de mim

E me encontro

Quando te encontro

Em cada desejo

No safado gracejo

Que só a você faz rir

 

É automático

Sintomático

Intergalático

Nunca burocrático

O sorriso que brota

E que vai de porta em porta

Querendo se mostrar

Querendo fazer o mundo sorrir

 

É contagiante

Grande feito um elefante

Raro como diamante

Droga super alucinante

Que descobrimos juntos

E para qual não há antagonista

Que vicia e conquista

E faz parar o tempo

Nos nossos momentos

Atemporalmente únicos

 

Únicos…

 

Únicos…

 

Há temporais únicos.

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Sou do avesso

Que não te esqueças de mim

Quando a noite chega

Não tenho medo do escuro

Mas fico reflexivo, taciturno

À mercê dos perigos do mundo

 

E estes me rondam

Sondam-me

Provocam-me

Para que meu pior aflore

Que se mostre e devore

Tudo do qual não careço

Ou nutra qualquer apreço

 

Sim, quase tudo tem seu preço

E eu que não estou a venda

Fui por ti do fim ao começo

E irei do começo ao fim

Cabeça erguida

Eu sou assim

Uma ovelha desgarrada

Uma alma do avesso.

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Holometabolismo

Invade-me teu silêncio

Talvez ele me diga alguma coisa

 

Nada

 

Talvez eu esteja surdo

Talvez tu estejas muda

 

Não precisas me explicar

Metamorfoseio-me

Oiças-me mudo

Eu mudo

E vôo

Pro mundo.

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Em vários mundos

Lembro-me com saudades

De todos que dessa vida sumiram

Eu sempre os carrego

Dentro de mim

 

Não são fantasmas –

Estão vivos! –

E de dentro deste mundo

Chamado dentro de mim

Jamais partiram

Jamais se despediram

Jamais disseram adeus

 

Vez por outra me recolho

E mesmo que as lágrimas corram soltas

Eu os vejo vivos e sorrindo

Provando que a morte do corpo

Não é de fato o fim

 

E é por isso que eu quero

Viver também dentro dos mundos

Que existem dentro dos outros

Pois enquanto houver lembranças

Que sejam de mim

Eu estarei vivo

Dentro de vários mundos

Sim.

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Erva-doce

O cheiro da broa de milho

O café sem pressa

A porta da rua aberta

Os vizinhos sempre bem-vindos

Era assim quando eu era menino

 

O tempo passou e, inclemente, nunca parou

 

O café agora é espresso

Os vizinhos? Desconheço

A porta da rua sempre trancada

A broa de milho é da padaria

E a violência é a notícia do dia

 

O tempo passou e, inclemente, nunca parou

 

Saudades da época em que eu achava

Que tinha tempo a perder

Do avô, da avó, dos tios, dos primos

Da sensação de não correr perigo

De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

 

Pelo menos nesse instante – agora!

Enquanto meus pensamentos vão

Para um passado distante

O tempo não foi adiante

Pelo contrário – voltou!

Sinto cheio de erva-doce.

dill