O teu cheiro

O teu cheiro era bem mais que teu perfume, que ficava entranhado nas minhas roupas e em todo o meu corpo.

O teu cheiro perfumava o meu quarto, a minha roupa de cama, as minhas toalhas, o meu colchão.

O teu cheiro ficou no meu carro e vai passear e trabalhar comigo.

O teu cheiro era a certeza de que eu tinha encontrado a minha fêmea.

O teu cheiro era como nenhum outro.

E teu cheiro passou a ser o meu cheiro.

E hoje, ainda que distantes, eu te exalo pelos meus poros.

O teu cheiro foi o amor que ficou em mim.

Questão de sobrevivência

Nossas taças de vinho
No frio do inverno,
Nossos corpos nus queimando
Feito mil sóis no verão.

O beijo na boca,
A prisão entre as coxas,
O ritmado ir e vir,
O descompassar do coração.

Lençóis ensopados,
Desejos e impropérios,
Lascívia escancarada,
Peças de roupa pelo chão.

A tontura repetida do gozo,
A entrega sem mistérios,
A respiração ofegante,
Nossos fluidos em ebulição.

Se foi esse o dia mais frio do inverno,
Me diga,
Como sobreviveremos ao verão?

Eu quero

Eu quero fazer a diferença na tua vida,
Mas não quero te mudar.

Quero ser o confidente,
O amor, amante, o amigo,
A válvula de escape diante do desastre iminente.

Quero que saibas que vou lavar a louça,
Fazer compras, fazer faxina e cozinhar,
Lavar roupa e passar,
Porque por nós posso fazer
Tudo que for necessário.

Vou trabalhar e trabalhar muito
E ainda que o dinheiro não seja muito,
Entrega e amor nunca irão faltar.

Quero andar de mãos dadas contigo
Nas infindáveis caminhadas da vida,
Onde o caminho tem mais importância que o destino.

Quero que tenhas orgulho de mim,
Do homem que invariavelmente sou
E da mulher que invariavelmente és quando estás comigo.

Mas de tudo que eu quero,
Nada é mais forte do que o te querer
E nesse querer eu realmente me defino:
Te querer é o que eu sou.

E quero que sejamos bem assim normais,
Casuais e sofisticadamente simples,
E que nosso amor seja simplesmente
A coisa mais importante que existe.

Atormenta

Repousa teus lábios nos lábios meus

E me deixa ver teu infinito.

Mostra os mares que são só teus

E as profundezas que eu agito.

Confessa os desejos que não são só meus

E admita que são infinitos.

Recebe teus mares com os mares meus:

Cala a minha boca, sente meus gritos.

Alice

Eram umas 4 horas da manhã. Eu tinha acabado de deixar a Alice na casa dos parentes. A nossa noite tinha sido para lá de especial. Eu estava feliz e ela também. O ano era 1995.

Eu estava voltando do Rio para Niterói dirigindo. Sempre gostei de dirigir na Ponte durante a noite. Não lembro qual rádio eu estava ouvindo, mas me lembro bem da música: “See you on the other side”, do Ozzy Osbourne. Até achei estranho ouvir a tal música na rádio, mas achei que era um presente de Deus ou algo assim. Apenas a senti e continuei a admirar a paisagem. Eu dirigia devagar. Eu queria que aquilo tudo que eu estava sentindo durasse para sempre.

A Alice morava em Goiânia/GO. Vinha para o Rio de 15 em 15 dias com os pais. Eles não sabiam que a gente se encontrava. Ela dizia que saía com as amigas, mas lá estava eu religiosamente buscando-a. Carro emprestado por um amigo. Eu mal tinha dinheiro para a gasolina, mas dava meu jeito digitando textos, programando… Eu fazia um pouco de tudo para poder comer uma pizza com a Alice, tomar um sorvete e coisas do tipo. Acima de tudo, eu gostava muito da companhia dela e achava o seu sotaque delicioso, envolvente, diferente.

Eu não tinha celular e nem ela. Ela tinha o número da minha casa e eu tinha o número da casa dela. Apesar disso, eu nunca tinha ligado para a sua casa. Afinal de contas, os pais não sabiam e era algo que eu respeitava. Era sempre a Alice que me ligava (e tenho certeza que os pais dela deveriam se tocar das fortunas gastas com o DDD).

Quando chegava de volta em Goiânia, a Alice me ligava. Algumas vezes era só para dizer que tinha chegado bem. Coisa de minutos. E naquela segunda-feira, ela não me ligou. Somos “criaturas de hábitos” e aquilo me deixou de orelhas em pé. Preferi ignorar. Me ligaria mais tarde. Certeza.

A segunda-feira foi embora sem nenhum telefonema. Tive dificuldades para dormir e ao mesmo tempo a certeza de que ela me ligaria no dia seguinte. E ela não ligou. Cheguei até a testar o meu telefone para ver se estava funcionando e de fato estava. Pensei em ligar para a casa dela e me lembrei de seus pais. Lembrei do nosso beijo de despedida e tive a certeza de que não havia nada de errado entre nós. Havia de fato algo de errado, só que eu não sabia o que era.

Não dormi de terça para quarta-feira. Antes do meio dia da quarta, resolvi ligar para a casa dela. Pensei nos pais e resolvi ligar mesmo assim. Sei lá… Eu diria que era um amigo ou algo do tipo.

– Bom dia! Eu poderia falar com a Alice, por favor?

Uma voz masculina me respondeu.

– É o Fábio quem está falando?

Eu estremeci. Não sabia o que dizer ao certo.

– Sim, sou eu. É o pai dela quem está falando?

Silêncio do outro lado da linha. Ouvi um suspiro profundo.

– Sim, Fábio. Sou eu… Ela me falou de vocês durante o voo de volta para Goiânia.

– Olha… O senhor me desculpe… Eu queria contar, mas ela achou melhor deixar para depois…

Novo silêncio, até que a voz embargada de um homem me respondeu.

– Ela faleceu, Fábio. Morreu em um acidente de carro terrível enquanto ia para a faculdade.

Eu explodi em lágrimas. Não era possível! Será que eu tinha ligado para o número errado? Será que estávamos falando da mesma Alice?

– Eu ia te ligar para dar a notícia, mas imagino que saiba o quanto está sendo difícil para nós lidar com isso tudo…

Eu não conseguia dizer nada. Só chorava… E ele complementou.

– Ela tinha dito que queria se mudar para o Rio… Que queria continuar os estudos aí… Ela me disse que estava apaixonada… E era por você, Fábio. E eu não te conheço, rapaz… Mas saiba que ela se foi assim, com você no coração…

Não lembro do que falamos depois disso. Nada. Nem uma palavra. Sei que desliguei o telefone e fui para a rua. Enchi a cara. Nem sei como cheguei em casa. Só sabia que a Alice tinha ido embora.

E então me lembrei da música e a música se tornou uma prece. E a Alice sabe, onde quer que ela esteja, que mais de 25 anos depois não há uma única vez em que eu ouça essa música sem lembrar dela, sem lembrar de nós, e novamente explodir em lágrimas.

Não sei se daria certo. Éramos muito jovens, mas também era fato que estávamos apaixonados. E foi com a Alice que eu aprendi que tudo que importa é o hoje, porque o amanhã de fato pode não existir.

Dedico essa música a ela e peço a quem me lê: ame como se fosse o último dia, porque de fato pode ser.

I will see you on the other side, Alice.

Ele

“And you shook me all night long
Yeah, you shook me all night long…”

AC/DC no máximo no som do carro. Depois de uma sexta-feira típica no trabalho, tudo que passava pela sua cabeça era uma cerveja bem gelada. E sim, ele sabia exatamente onde encontrar essas cervejas e não era em nenhum bar.

O convite na parte da manhã tinha sido claro: cerveja gelada, boa conversa e… Bom, ele sabia como as noites com ela terminavam. Isso o fazia sorrir e ansiar por esses replays, que estavam se tornando cada vez mais frequentes. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Estranhou o seu pensamento. Não estava acostumado com a nova vida. Tinha planos para um futuro que acabou não se contretizando, e apesar da alegria que estava sentindo, sabia muito bem que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua. “Paciência!”, pensou. Ligou o foda-se.

Já chegou na casa dela abrindo uma cerveja. Encurralou-a na parede (enquanto o cachorro dela tentava subir pelas suas pernas), beijou a sua boca, passou as mãos pelo seu corpo, e encheu o ouvido dela sacanagens de todos os tipos. Ela, por sua vez, retribuia da maneira que sabia: simplesmente se entregava e o deixava determinar o ritmo. E assim foram parar embaixo do chuveiro, feito adolescentes no cio, completamente eletrizados.

Chamava a atenção dele a diferença de idade entre os dois: exatos 19 anos e 8 meses. Ela achava o máximo e dizia que a maturidade dele era tudo que ela queria. Ele a achava o máximo e dizia que a inocência dela era tudo que ele queria. Ele não era tão maduro e nem ela era tão inocente. Ambos se completavam de alguma forma e isso que importava: estavam em constante estado de euforia.

Volta e meia, quando estava longe dela, ele se perguntava sobre o futuro. Não queria magoa-la. Não queria ser magoado. Entretanto, diante desses questionamentos, sempre chegava à conclusão de que tudo que ele havia planejado, de uma forma ou de outra, havia transformado em algo diferente. Isso era muito óbvio principalmente em se tratando de sua vida amorosa. Portanto, decidiu não planejar absolutamente mais nada. Decidiu viver dia após dia e isso de fato era tudo que importava. Pelo menos era isso que ele repetia para si mesmo dia e noite, noite e dia.

Lá pelas tantas, decidiram continuar a ver uma série no Netflix: The Crown. Ela ficava impressionada com a beleza e o requinte da monarquia, e ele assustado com os sacrifícios que precisavam ser feitos para manter as aparências. Ele já havia vivido aquilo de alguma forma, e entendia perfeitamente que o preço das aparências pode ser travesseiros cheios de lágrimas. Viam a mesma série por prismas diferentes e isso não os incomodava.

O cachorro incomodava. Latia de madrugada do nada. Estava acostumado a dormir com a dona, e com certeza ficava com ciúmes quando o seu lado da cama estava ocupado. Nesse dia em especial, o cachorro o acordou e ele acabou ficando sem sono. Foi no Facebook, no Instagram, no WhatsApp. Nada de diferente. Tudo tranquilo, tirando um grupo onde se discutia quem era o menos pior: Lula ou Bolsonaro.

Começou a vagar pelos seus emails. Encontrou um cheia de juras de amor. Acabou buscando pelo nome da remetente, e encontrou tantos outros emails cheios de juras de amor. Por algum motivo ainda mantinha esses emails, mantinha também as fotos, as mensagens… Tinha profundo respeito pelo que havia sentido e pelo seu passado. Lembrou-se mais uma vez que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua, e isso de certa forma o acalmava. “Nunca dependeu só de mim. Eu fiz tudo que podia.” Ele tinha certeza absoluta disso.

Acabou adormecendo com o celular nas mãos. Acordou sobressaltado com o despertador que nem era para tocar no sábado. Antes que se desse conta, ela já estava dando bom dia para ele de uma forma para lá de inusitada… E lá foram para o banheiro. Adolescentes no cio. Era sempre assim. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Sim, ele gostava de profundidade. Era inegável. Gostava de olhos nos olhos, de declarações românticas. Gostava de achar que tinha muito a perder. Gostava de amar. Essa era a única lacuna que havia em seu peito. Sentia falta de amar. Por mais que negasse, sentia. E quando aceitava esses sentimentos, entendia o porquê de guardar tais mensagens. Eram mensagens de amor, amor que ora lhe faltava. E sim, tinha que ser um grande amor. Será que era só isso ou será que ainda amava? Não quis entrar nessa “areia movediça”. Calou seus pensamentos e sorriu. Felicidade instantânea, real e imaginária ao mesmo tempo.

Tomou café e foi nadar no clube. Foi sozinho. Aproveitou para fazer uma sauna. Encontrou um grupo de amigos fazendo churrasco. Tomou todas. Marcou 300 eventos e se comprometeu a fazer uma porrada de coisas das quais jamais se lembraria. Era esse o objetivo. Quando se deu conta, o clube já estava fechando e seu celular não tinha nenhuma mensagem. Nenhum “Oi! Como você está?”. Só mais um convite para emendar em mais uma noite regada a muita cerveja e sexo. Mais nada. Absolutamente nada. E isso era tudo que lhe faltava.