Alice

Eram umas 4 horas da manhã. Eu tinha acabado de deixar a Alice na casa dos parentes. A nossa noite tinha sido para lá de especial. Eu estava feliz e ela também. O ano era 1995.

Eu estava voltando do Rio para Niterói dirigindo. Sempre gostei de dirigir na Ponte durante a noite. Não lembro qual rádio eu estava ouvindo, mas me lembro bem da música: “See you on the other side”, do Ozzy Osbourne. Até achei estranho ouvir a tal música na rádio, mas achei que era um presente de Deus ou algo assim. Apenas a senti e continuei a admirar a paisagem. Eu dirigia devagar. Eu queria que aquilo tudo que eu estava sentindo durasse para sempre.

A Alice morava em Goiânia/GO. Vinha para o Rio de 15 em 15 dias com os pais. Eles não sabiam que a gente se encontrava. Ela dizia que saía com as amigas, mas lá estava eu religiosamente buscando-a. Carro emprestado por um amigo. Eu mal tinha dinheiro para a gasolina, mas dava meu jeito digitando textos, programando… Eu fazia um pouco de tudo para poder comer uma pizza com a Alice, tomar um sorvete e coisas do tipo. Acima de tudo, eu gostava muito da companhia dela e achava o seu sotaque delicioso, envolvente, diferente.

Eu não tinha celular e nem ela. Ela tinha o número da minha casa e eu tinha o número da casa dela. Apesar disso, eu nunca tinha ligado para a sua casa. Afinal de contas, os pais não sabiam e era algo que eu respeitava. Era sempre a Alice que me ligava (e tenho certeza que os pais dela deveriam se tocar das fortunas gastas com o DDD).

Quando chegava de volta em Goiânia, a Alice me ligava. Algumas vezes era só para dizer que tinha chegado bem. Coisa de minutos. E naquela segunda-feira, ela não me ligou. Somos “criaturas de hábitos” e aquilo me deixou de orelhas em pé. Preferi ignorar. Me ligaria mais tarde. Certeza.

A segunda-feira foi embora sem nenhum telefonema. Tive dificuldades para dormir e ao mesmo tempo a certeza de que ela me ligaria no dia seguinte. E ela não ligou. Cheguei até a testar o meu telefone para ver se estava funcionando e de fato estava. Pensei em ligar para a casa dela e me lembrei de seus pais. Lembrei do nosso beijo de despedida e tive a certeza de que não havia nada de errado entre nós. Havia de fato algo de errado, só que eu não sabia o que era.

Não dormi de terça para quarta-feira. Antes do meio dia da quarta, resolvi ligar para a casa dela. Pensei nos pais e resolvi ligar mesmo assim. Sei lá… Eu diria que era um amigo ou algo do tipo.

– Bom dia! Eu poderia falar com a Alice, por favor?

Uma voz masculina me respondeu.

– É o Fábio quem está falando?

Eu estremeci. Não sabia o que dizer ao certo.

– Sim, sou eu. É o pai dela quem está falando?

Silêncio do outro lado da linha. Ouvi um suspiro profundo.

– Sim, Fábio. Sou eu… Ela me falou de vocês durante o voo de volta para Goiânia.

– Olha… O senhor me desculpe… Eu queria contar, mas ela achou melhor deixar para depois…

Novo silêncio, até que a voz embargada de um homem me respondeu.

– Ela faleceu, Fábio. Morreu em um acidente de carro terrível enquanto ia para a faculdade.

Eu explodi em lágrimas. Não era possível! Será que eu tinha ligado para o número errado? Será que estávamos falando da mesma Alice?

– Eu ia te ligar para dar a notícia, mas imagino que saiba o quanto está sendo difícil para nós lidar com isso tudo…

Eu não conseguia dizer nada. Só chorava… E ele complementou.

– Ela tinha dito que queria se mudar para o Rio… Que queria continuar os estudos aí… Ela me disse que estava apaixonada… E era por você, Fábio. E eu não te conheço, rapaz… Mas saiba que ela se foi assim, com você no coração…

Não lembro do que falamos depois disso. Nada. Nem uma palavra. Sei que desliguei o telefone e fui para a rua. Enchi a cara. Nem sei como cheguei em casa. Só sabia que a Alice tinha ido embora.

E então me lembrei da música e a música se tornou uma prece. E a Alice sabe, onde quer que ela esteja, que mais de 25 anos depois não há uma única vez em que eu ouça essa música sem lembrar dela, sem lembrar de nós, e novamente explodir em lágrimas.

Não sei se daria certo. Éramos muito jovens, mas também era fato que estávamos apaixonados. E foi com a Alice que eu aprendi que tudo que importa é o hoje, porque o amanhã de fato pode não existir.

Dedico essa música a ela e peço a quem me lê: ame como se fosse o último dia, porque de fato pode ser.

I will see you on the other side, Alice.

Ele

“And you shook me all night long
Yeah, you shook me all night long…”

AC/DC no máximo no som do carro. Depois de uma sexta-feira típica no trabalho, tudo que passava pela sua cabeça era uma cerveja bem gelada. E sim, ele sabia exatamente onde encontrar essas cervejas e não era em nenhum bar.

O convite na parte da manhã tinha sido claro: cerveja gelada, boa conversa e… Bom, ele sabia como as noites com ela terminavam. Isso o fazia sorrir e ansiar por esses replays, que estavam se tornando cada vez mais frequentes. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Estranhou o seu pensamento. Não estava acostumado com a nova vida. Tinha planos para um futuro que acabou não se contretizando, e apesar da alegria que estava sentindo, sabia muito bem que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua. “Paciência!”, pensou. Ligou o foda-se.

Já chegou na casa dela abrindo uma cerveja. Encurralou-a na parede (enquanto o cachorro dela tentava subir pelas suas pernas), beijou a sua boca, passou as mãos pelo seu corpo, e encheu o ouvido dela sacanagens de todos os tipos. Ela, por sua vez, retribuia da maneira que sabia: simplesmente se entregava e o deixava determinar o ritmo. E assim foram parar embaixo do chuveiro, feito adolescentes no cio, completamente eletrizados.

Chamava a atenção dele a diferença de idade entre os dois: exatos 19 anos e 8 meses. Ela achava o máximo e dizia que a maturidade dele era tudo que ela queria. Ele a achava o máximo e dizia que a inocência dela era tudo que ele queria. Ele não era tão maduro e nem ela era tão inocente. Ambos se completavam de alguma forma e isso que importava: estavam em constante estado de euforia.

Volta e meia, quando estava longe dela, ele se perguntava sobre o futuro. Não queria magoa-la. Não queria ser magoado. Entretanto, diante desses questionamentos, sempre chegava à conclusão de que tudo que ele havia planejado, de uma forma ou de outra, havia transformado em algo diferente. Isso era muito óbvio principalmente em se tratando de sua vida amorosa. Portanto, decidiu não planejar absolutamente mais nada. Decidiu viver dia após dia e isso de fato era tudo que importava. Pelo menos era isso que ele repetia para si mesmo dia e noite, noite e dia.

Lá pelas tantas, decidiram continuar a ver uma série no Netflix: The Crown. Ela ficava impressionada com a beleza e o requinte da monarquia, e ele assustado com os sacrifícios que precisavam ser feitos para manter as aparências. Ele já havia vivido aquilo de alguma forma, e entendia perfeitamente que o preço das aparências pode ser travesseiros cheios de lágrimas. Viam a mesma série por prismas diferentes e isso não os incomodava.

O cachorro incomodava. Latia de madrugada do nada. Estava acostumado a dormir com a dona, e com certeza ficava com ciúmes quando o seu lado da cama estava ocupado. Nesse dia em especial, o cachorro o acordou e ele acabou ficando sem sono. Foi no Facebook, no Instagram, no WhatsApp. Nada de diferente. Tudo tranquilo, tirando um grupo onde se discutia quem era o menos pior: Lula ou Bolsonaro.

Começou a vagar pelos seus emails. Encontrou um cheia de juras de amor. Acabou buscando pelo nome da remetente, e encontrou tantos outros emails cheios de juras de amor. Por algum motivo ainda mantinha esses emails, mantinha também as fotos, as mensagens… Tinha profundo respeito pelo que havia sentido e pelo seu passado. Lembrou-se mais uma vez que estava vivendo as consequências de uma decisão, de uma escolha que não foi sua, e isso de certa forma o acalmava. “Nunca dependeu só de mim. Eu fiz tudo que podia.” Ele tinha certeza absoluta disso.

Acabou adormecendo com o celular nas mãos. Acordou sobressaltado com o despertador que nem era para tocar no sábado. Antes que se desse conta, ela já estava dando bom dia para ele de uma forma para lá de inusitada… E lá foram para o banheiro. Adolescentes no cio. Era sempre assim. Tudo sem compromisso. Tudo perfeito. Tudo… Superficial.

Sim, ele gostava de profundidade. Era inegável. Gostava de olhos nos olhos, de declarações românticas. Gostava de achar que tinha muito a perder. Gostava de amar. Essa era a única lacuna que havia em seu peito. Sentia falta de amar. Por mais que negasse, sentia. E quando aceitava esses sentimentos, entendia o porquê de guardar tais mensagens. Eram mensagens de amor, amor que ora lhe faltava. E sim, tinha que ser um grande amor. Será que era só isso ou será que ainda amava? Não quis entrar nessa “areia movediça”. Calou seus pensamentos e sorriu. Felicidade instantânea, real e imaginária ao mesmo tempo.

Tomou café e foi nadar no clube. Foi sozinho. Aproveitou para fazer uma sauna. Encontrou um grupo de amigos fazendo churrasco. Tomou todas. Marcou 300 eventos e se comprometeu a fazer uma porrada de coisas das quais jamais se lembraria. Era esse o objetivo. Quando se deu conta, o clube já estava fechando e seu celular não tinha nenhuma mensagem. Nenhum “Oi! Como você está?”. Só mais um convite para emendar em mais uma noite regada a muita cerveja e sexo. Mais nada. Absolutamente nada. E isso era tudo que lhe faltava.

Ela

Ela acordou cedo como de costume. Seus olhos não disfarçavam a noite mal dormida. Nada que um bom banho, um bom café da manhã e uma boa maquiagem não pudessem resolver. Ela já estava acostumada.

Dormir mal tinha virado rotina. A insônia não aparecia para o mundo, obviamente. Ninguém sabia dela. Para todos os efeitos, ela era uma mulher bem sucedida, livre, desimpedida, com uma carreira brilhante, e cheia de pretendentes de todos os tipos. Todos a queriam e ela sabia muito bem disso. Ela era muito cobiçada e isso de alguma forma a confortava.

Ao chegar no escritório, assinou documentos, reviu planilhas, deu ordens, falou no telefone, fez reuniões presenciais e virtuais… Tudo como de costume. Parou apenas para almoçar um prato fit providenciado pela sua secretária. Pensou até em ir para a academia antes de chegar em casa, mas foi interrompida por um de seus clientes que a convidou para um happy hour. Meio sem saber o que fazer, ela simplesmente aceitou o convite. Afinal de contas, era sexta-feira.

Foram parar em um restaurante suntuoso e ficaram na área do bar. Ele, muito galanteador, ofereceu a ela uma bebida. Ela educadamente recusou. Não era seu perfil beber com clientes e apesar de reconhecer que ele era um homem muito bonito e elegante, manteve-se fiel a seus princípios.

Ele pediu uma cerveja. O barman disse que a cerveja escolhida estava em falta, e ofereceu outra que ele aceitou contrariado, tal como se fosse um especialista no assunto.

Uma long neck em uma garrafa verde foi entregue nas mãos dele. Ela conhecia aquela garrafa. Conhecia aquela marca. Conhecia o gosto, o cheiro. Preferiu afastar esses detalhes de sua cabeça e focar na conversa. “Quem sabe não é a oportunidade de fechar mais algum grande negócio?”, divagou animada.

Então, ele engatou em uma fala cansativa, se vangloriando de seus feitos com a visível intenção de impressiona-la. Ela, por sua vez, não conseguia tirar da sua cabeça as lembranças que estavam associadas aquela cerveja. E ele não a ajudava em nada nesse sentido. A conversa morna embalou o seu cansaço, e mesmo sem se dar conta, ela ficou introspectiva e ausente. Presente fisicamente. Sua alma, nem ela mesma sabia aonde estava.

– Eu não gosto muito dessa cerveja… Prefiro a Stella. Essa aqui é muito forte.

“Não! Essa cerveja não é forte ou mesmo mais forte. Ela só é mais amarga. Inclusive, ela é uma cerveja com menos calorias que as demais.” Mesmo sem estar bebendo, ela começou a lembrar do que tinha aprendido sobre essa cerveja, e os brindes com essa mesma cerveja que a fizeram lembrar de sorrisos, que a fizeram lembrar de conversas… Ele havia ido longe demais mesmo sem ter se dado conta disso. Ele havia disparado nela gatilhos terríveis e insuportáveis.

Ela fingiu receber uma ligação e se afastou. Foi para o canto do bar para falar mais à vontade. Retornou em seguida dizendo que tinha recebido um telefonema de uma prima. Falou a primeira coisa que surgiu em sua mente. O homem ainda se ofereceu para leva-la em casa, mas ela recusou a oferta. Ela precisava sair daquele restaurante rapidamente. Ela estava sem ar, sufocada.

Chamou um Uber. Sentiu um aperto no peito, arrepios pelo corpo, e um desconforto inexplicável. Abriu o WhatsApp. Adicionou um novo contato porque ainda se lembrava do número do telefone apesar de ter feito de tudo para esquece-lo. Se deu conta que permanecia bloqueada.

Ainda a caminho de casa, as lágrimas já escorriam pelo seu rosto. O motorista do Uber perguntou se ela estava bem, e ela apenas balançou a cabeça dizendo que sim. Ela sabia que não estava, mas era teimosa demais para admitir aquilo. “Eu estou bem… Só preciso de um bom vinho e de um banho.”

Ao subir no elevador, no espelho reparou na sua maquiagem borrada, nos seus olhos e nariz vermelhos, no rosto inchado. Se perguntou o motivo de estar assim, e muito embora soubesse da resposta, simplesmente se negou a aceita-la.

Abriu a porta de seu apartamento, tirou os sapatos, jogou a bolsa e as chaves sobre a mesa, e foi imediatamente para o bar. Pegou uma garrafa de vinho e uma taça. Abriu a garrafa de maneira atabalhoada e foi para o quarto. Encostou-se na cabeceira da cama, serviu-se com o vinho e depois de um farto gole foi mais uma vez para o WhatsApp. Ela permanecia bloqueada. Ela achava um absurdo estar bloqueada. “Como ele teve a audácia de fazer isso?”, perguntava-se alterada.

Começou a varrer a sua galeria de fotos, seus emails, mensagens arquivadas. Não havia nada. Ela mesma tinha apagado tudo. “Não é possível! Devo ter me esquecido de apagar alguma coisa!”. A ansiedade havia tomado conta dela e ela não conseguia pensar em mais nada de uma forma minimamente ordenada.

Depois de mais alguns goles de vinho, resolveu ir até o Facebook. A foto dele era a mesma de antes, de quando eles estavam juntos, mas ele não era nem mais seu amigo. A mesma coisa no Instagram. Ela o excluiu. Ela o bloqueou. Mas ela queria saber dele. “Sexta-feira… Aonde ele está? Será que está na cama com outra? Será que ele teria a audácia de fazer isso?”

Partiu em busca de um celular antigo. Lá, ela tinha certeza de que havia conversas arquivadas. Colocou o celular para carregar e foi beber mais um pouco de vinho, na esperança de que o álcool fizesse o seu coração bater de maneira compassada. “Preferia cerveja… Sujeito sem classe!”

Ela sabia o motivo de estar bloqueada. Ela tinha iniciado tudo isso. Ela o bloqueou, o excluiu, o afastou. Ela achava que tinha se libertado. “Ele era um escroto previsível. Ele e aquela maldita cerveja que ele bebia!”

Sim, ele era previsível. Era daqueles que tinha a coragem de dizer para Deus e o mundo que beber aquela cerveja ao lado dela era a melhor coisa do mundo. “Maldito! Repugnante! Cretino! Com quantas ele esteve depois que eu o expulsei de casa? Deve estar falando da cerveja com elas… Que ódio!”

O celular antigo deu sinal de vida e ela foi busca-lo na tomada. Derrubou a taça de vinho no chão, que se espatifou deixando um rastro cor de sangue. Cortou-se levemente tentando juntar os cacos. Nem percebeu. Queria mesmo era o celular, e encontrou o que tanto procurava: milhares de mensagens arquivadas. Tediosos “Bom dia!!!”, enervantes “Cadê você?”, insuportáveis “Durma com Deus!” e repetitivos “Eu te amo!”. E na tentativa de dispersar as necessidades represadas, minimizava os feitos dele: “Ele era um babaca repetitivo. Ele dizia essas merdas todos os dias. Insuportavelmente insistente! Inconveniente! Chato!”

E ele a ouvia por horas! Dava as suas opiniões. Nem sempre sabia o que dizer, mas sempre tentava ajudar de alguma forma. Um homem comum, daqueles que acha que a mulher dele é a mulher mais importante do mundo, e que faz de tudo que está a seu alcance para faze-la feliz.

Ela se lembrava das ligações dele. Algumas ela nem atendia. Ela sabia que ele ligaria de novo. Ela achava que ele era uma espécie de cão adestrado. E lá estavam as ligações perdidas dele no celular antigo. Eles deviam se falar umas dez vezes por dia. Era tudo insuportavelmente previsível. Era tudo… Um saco!

E ela encontrou uma foto dos dois. Uma que ela curiosamente se esqueceu de apagar. Ele nem era tão bonito, mas era bom de papo. Ela nem se reconheceu na foto. Estampava um sorriso enorme e estava com uma porcaria de um copo de cerveja em sua frente em um boteco, comendo carne de sol com aipim. Logo ela, a que não bebe cerveja. “Que foto é essa? Por que nela eu pareço estar tão feliz? Por que não estou assim agora?”

E voltou para as redes sociais no seu telefone atual. Foi no Facebook de amigos dele para ver se encontrava algum vestígio. Qualquer coisa que fosse! Queria saber se ele estava vivo! Nada! Até porque ela mesma excluiu todos os amigos dele. Ela fez questão de apagar todo e qualquer vestígio da passagem dele na sua vida.

Ela levou sua mão até a boca como que se estivesse assustada com o seu choque de realidade. Sentiu o gosto de sangue, e foi então que se deu conta de que havia cortado o dedo nos cacos da taça. Começou a beber o vinho direto da garrafa. Sentiu calores. Ficou nua. Ficou com raiva. Ficou excitada. Gozou pensando nele. Uma, duas, três vezes. “Por quê? Por que ainda lembro de você? Por que ainda sinto as suas mãos no meu corpo e desejo você dentro de mim? Por quê? Filho da puta! Desgraçado!”

Embriagada, pensou em ligar para ele. Desistiu. Já era tarde. Sem saber o que fazer, ajoelhou-se no chão, ainda nua, ainda encharcada, e começou a rezar desesperada. Lembrou-se de Deus. Sentiu-se ridícula. Finalmente, sentiu-se. Era exatamente disso que precisava.

Foi até o banheiro tomar um banho sentindo como que se uma lança atravessasse seu peito, vivendo a plenitude do futuro que criou para si mesma. Viu-se sozinha como nunca havia se visto. Tentou lembrar o porquê de tê-lo mandado embora. Não conseguiu. Lembrou-se apenas de todos os motivos que não havia visto ou se negado a ver para nunca tê-lo deixado ir, e do quanto ele pediu inúmeras vezes para ficar. Ele a amava profundamente e sempre fez questão de deixar isso claro em atitudes e palavras.

Repetiu seu nome em voz alta. Lembrou-se de como ele a chamava e do dialeto que a intimidade entre os dois havia criado. Ouviu perfeitamente a voz dele chamando seu nome e confessou para si mesma: “Eu o mandei embora porque eu o amava. Ele me deixava vulnerável. Eu ainda o amo enlouquecidamente. Só sei disso e de mais nada.”

E foi dormir. Dormiu bem. Dormiu abraçada com a verdade. Depois de muito tempo, dormiu finalmente bem acompanhada.

Saint Patrick’s Day e Heineken

Sempre fui o maior propagandista da Heineken, até mesmo quando ela não era conhecida no Brasil. De alguma forma, a bendita holandesa tinha conquistado o meu coração, e como eu viajava muito mundo afora, tinha virado meu padrão de cerveja, que eu pedia sem surpresas em qualquer lugar que fosse.

Observação: Me arrependo muito de ter feito tanta propaganda. No início, por volta de 2010, meus amigos odiavam. Achavam amarga demais. Hoje em dia, todo mundo só quer saber de Heineken e o preço dela disparou no Brasil. A Heineken virou uma espécie de “cerveja ostentação”. Há gente, inclusive, que bebe Heineken sem gostar de Heineken. Vai entender…

E lá estávamos nós, eu e ela, bebendo Heineken em um Saint Patrick’s Day. Estávamos no Madero, que oferecia chopp da Heineken e da Amstel (que também é da Heineken). Sem a gente se dar conta, uma equipe da Heineken chegou até o Madero para distribuir brindes nesse dia, o que faz todo o sentido por conta da Heineken ser uma “cerveja verde” (as latas e garrafas são verdes).

Conversa vai, conversa vem (não faltava entusiasmo, assunto e nem vontade de estar ali), e percebi que havia uma fotógrafa batendo fotos de nós dois. Era uma fotógrafa da equipe da Heineken. Fui até ela para perguntar o motivo das fotos, e ela me disse que seriam usadas no site oficial da Heineken no Brasil para falar da campanha que eles estavam promovendo.

– Olha, infelizmente você não vai poder usar essas fotos…

– Mas por quê? – a fotógrafa me perguntou surpresa.

– É que trabalhamos na mesma empresa… Não é algo que queríamos deixar exatamente público…

– Nossa… Mas vocês estão tão animados e formam um casal tão bonito… Uma pena… – e começou a apagar imediatamente as fotos de sua câmera profissional. Estava visivelmente frustrada.

Não cheguei a ver as fotos. Eu mesmo fiquei triste com o pedido que precisei fazer. Não queria, mas nem sempre a vida é como a gente quer. Mesmo assim, saímos cheios de brindes da Heineken do Madero. Definitivamente, uma noite especial.

E por que estou contando tudo isso?

1) Para que conheçam o Saint Patrick’s Day – mais detalhes aqui.

2) Para dizer que a Heineken continua sendo a cerveja não artesanal que mora em meu coração.

3) E para contar que quando você está feliz, as pessoas percebem. A nossa aura muda de alguma forma. Ficamos iluminados por assim dizer. Contagiamos os outros. Viramos até modelos por conta disso. 🙂

Bebam com moderação e em casa (nada de festinhas e bares por conta da pandemia). E, sobretudo, sejam felizes! Transbordem felicidade! O mundo fica muito melhor assim.

Cheers!

Boa mesa

Tínhamos essa mania louca
De olhar um para o outro
Em lados opostos da mesa
E nos confundir com comida

Poderíamos até culpar o vinho
Mas tornou-se um hábito
Ver a mesa posta
As vontades expostas
E a comida quase intocada, fria

A fome?
Saciada, todavia.