Intuição

– Eu sei, mas você precisa fazer uma escolha. A gente não pode ficar nessa para sempre, concorda? – os olhos dele estavam fixos no horizonte. Ao fundo, as nuvens cinzentas por sobre a praia davam um tom de mistério aquela conversa difícil e necessária, ao menos para ele. O tom de sua voz era suave, mas também era firme. Ele precisava de algumas respostas, bem óbvias e ao mesmo tempo essenciais. Ela parecia não se dar conta disso.

– Eu não sei o que dizer… – ela fitava o chão enquanto respondia. Os braços estavam cruzados. O corpo todo retesado. Sua mente girava diante das incertezas que se agigantavam dentro dela. “Eu não sei… Eu não sei… Eu não sei… ” Era tudo que ela conseguia dizer no momento. Tinha plena noção do quanto estava insegura por conta de seu último relacionamento. Pensar em viver algo tão doloroso novamente simplesmente a paralisava. Ela não conseguia pensar em recomeços. Ainda estava sendo açoitada pelo fim.

– Bom… Isso para mim é uma resposta. Não vou insistir mais, apesar de gostar muito de você. A gente se esbarra por aí. Qualquer coisa, me liga.

Ela ainda tentou dizer algo, mas ele já estava com os fones no ouvido. Já tinha a resposta que precisava. Ficou decepcionado, mas engoliu a verdade em seco de uma só vez. Foi embora sem olhar para trás.

Chegou em casa e foi tomar um banho. Se serviu com um pouco de água de coco e pegou o telefone. A indecisão dela era uma decisão na visão dele. “Já passei por isso antes e aprendi a lição”, disse para si mesmo diante do espelho, fazendo força para acreditar em suas próprias palavras. Por conta disso, até para provar que era capaz de esquecer tudo aquilo, resolveu responder a uma mensagem que recebera mais cedo no WhatsApp.

“Oi! Tudo bem? Ainda está valendo o convite?”

A resposta veio em menos de 30 segundos.

“Sim! Faz tempo que não como aquela pizza! Você me encontra lá em 1 hora?”

“Com certeza! Bjs!”

Ela mandou um coração de volta. Ele sorriu.

Foi um sorriso conflitante, hipócrita. Um sorriso de quem sabia que não precisaria passar a noite sozinho, mas que também sabia que não era com aquela mulher que ele gostaria de estar. Na prática, ele estava fugindo deste e de outros encontros. Apesar de não estar oficialmente namorando, não gostava de sair com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Era algo dele. O seu coração era assim. Ele era assim. “Pelo menos ela foi sincera. Logo, caminho aberto para a próxima. Para as próximas.” Nem ele mesmo acreditava em suas palavras.

Se encontraram no restaurante como combinado. Ela tinha um olhar de femme fatale. Na cabeça dele, ela era uma devoradora de homens. Ele seria apenas mais um. Ele via isso como algo bom: nenhuma expectativa é o equivalente a nenhuma frustração.

– Então… – ela disse – Finalmente resolveu atender ao meu convite… Eu já estava quase desistindo.

– Nada… Só estava meio atarefado – os olhos dele estavam dentro do decote dela. Era impossível não notar a fartura daqueles seios.

– Aposto que tem a ver com a sua namorada… Como é mesmo o nome dela? – o tom da voz dela era de deboche.

– Eu não tenho namorada. E eu não estaria aqui se tivesse uma. Vamos beber o quê?

Apesar dele não ter namorada, o comentário mexeu com ele. “Eu não tenho namorada, mas gosto de uma pessoa. Isso vai muito além de um título ou estado civil “, pensou.

– Eu tenho uma sugestão. A gente come algo mais leve… Tipo uma burrata. E depois a gente vai para um lugar mais calmo. Pode ser?

– O quê? – ele estava olhando para o cardápio enquanto ouviu o convite. Ficou olhando para ela como se não estivesse entendendo nada, muito embora fosse capaz de compreender exatamente o que estava acontecendo.

– Deixa disso… Faz 3 meses que quero sair com você. Olha a nossa idade… Não vamos perder tempo com formalidades, vai…

– Mas e a pizza? Eu estou com fome! Eu quero comer pizza! Garçom, quero uma burrata. Qual pizza você me recomenda? Sim! Pode ser essa! Deve ser deliciosa! Tudo bem com você se eu pedir essa? Ok. E o vinho vai ser… Aquele ali da outra mesa. O que aquele pessoal está bebendo…

A cardápio virou a sua tábua de salvação. Lembrou da série Seinfeld e das argumentações absurdas entre os personagens. Era assim que ele estava se sentindo.

Eles riram muito durante o jantar. Comeram a burrata, tomaram vinho, comeram pizza… Teve até sobremesa! Ela ainda insistiu algumas vezes no “a gente vai para um lugar mais calmo”. Ele insistiu nas desculpas no maior estilo Seinfeld. Em alguns momentos, teve até vontade de rir. Quem sabe em outros tempos, em outro lugar. Quem diria não para essa mulher? Ele disse da forma mais educada que conseguiu. Afinal de contas, nunca se sabe do futuro.

Despediram-se. Nada de “até manhã” ou “depois a gente se fala”. Ela foi para a casa dela. Ele foi para a casa dele. Se ela ficou chateada, ele não percebeu. Se sentiu bem por ter sido fiel a seus sentimentos e isso não tinha preço.

Ele ligou a TV e resolveu verificar as suas mensagens no WhatsApp. Uma delas dizia:

“Pensei muito na nossa conversa de hoje de tarde. Eu estou gostando de você e isso me deixa insegura. Sei que você não tem obrigação de entender isso. Me liga quando puder.”

Ao invés de responder à mensagem, preferiu ligar. Já eram 3 horas da manhã. Ela atendeu com voz de sono já pedindo desculpas.

– Eu queria me desculpar pelo que te disse hoje na praia…

– Eu que deveria pedir desculpas pelo ultimato… – disse ele interrompendo-a com delicadeza.

– Digamos que seu ultimato me fez perceber algumas coisas… Sendo uma delas que não estou disposta a ficar longe de você – sua voz era um misto de malícia e sensualidade. Ela estava se confessando e pelo que ele sabia dela, falar de sentimentos era algo que ela realmente tinha dificuldades em fazer.

– Quer dizer que ultimatos funcionam, professora? – o comentário sarcástico a fez rir justamente por conta dela ser formada em Relações Internacionais e ministrar aulas sobre o tema.

– Depende… – a risada veio acompanhada de uma explicação – Desde que a outra parte não entenda como um blefe e não esteja disposta a encerrar as conversações, funciona sim.

– Eu não estava blefando.

– Eu sei.

Imediatamente, ele foi até a geladeira e abriu uma garrafa de espumante. Ele precisava comemorar. Em ambos os casos, em episódios completamente distintos, seguiu a sua intuição e ouviu o seu coração. Na praia, foi embora no momento certo. Na restaurante, foi fiel a seus sentimentos. Sentiu orgulho de si mesmo. Sorriu.

Os dois dormiram juntos em casas separadas naquela noite. As negociações avançariam pela manhã. Diplomatas em missão de paz, por assim dizer. A esperança parecia estar vencendo o medo.

E a pizza? A pizza estava deliciosa. A vida estava deliciosa.

23h30

Dia cheio de trabalho (obrigado, meu bom Deus) e de sorrisos no rosto de minha filha. Foi dia de noitada masculina: pais separados levando suas filhas em um rodízio de pizza.

Não comi muito. Não gosto de pizza de rodízio. O queijo é vagabundo e a massa é a que puder encher o seu bucho o mais rapidamente possível. Querem que você vá embora correndo, claro. Havia fila de espera e tudo mais para entrar no restaurante.

E lembrei que, na vida, aprendi a ser exigente. Não era. Aprendi a ser. Prefiro uma única fatia de uma pizza de qualidade do que uma pizza inteira no nível da que eu comi hoje a noite.

A vida é assim: nem sempre se pode escolher o que se vai comer, mas comer é uma necessidade. Uma boa comida é sempre uma boa comida, e não serão dez comidas de merda que mudarão isso. Dez comidas de merda não são equivalentes a uma boa comida. E fato é que quando a comida é boa, sempre se quer voltar para comer mais.

Boa noite.

Escuta-me!

Escuta-me!

Percebe meu silêncio?

Estou aqui!

Em silêncio…

Não ouso me manifestar!

 

Palavras mil

Idéias em milhões

Resto de tudo

Náufrago de ilusões

 

Eu sei, amor protocolar

“Estou confusa”

Mas abro meu coração

Rasgo a minha blusa

Alma que sangra por um peito aberto

Completamente desnuda

 

Ah, meu amor!

Que falta faz seu cheiro

Seu sabor…

Saudades de tudo

Mudo…

Silêncio mudo

 

TUDO!

 

Aquela pizza

Aquele vinho

Aquele sushi

Tudo ali!

Saudades do que está de fato perto

Estou vivo

Você também

Estamos aqui!

 

Queria eu que fosse

Um passado esquecível

Mas nosso amor, outro nível

Inquestionavelmente crível!

Aquieto-me diante do meu infindável pranto

 

Mas é assim…

Tantas coisas para lembrar

Um futuro para achar

Dentro de um pretérito imperfeito

Que na fragrância abundante e melada de um amor

Encontrou visceral e inalienável direito

De um futuro que existe sem existir

De um amor que ora renasce e ora está por vir

 

Eternamente…

 

Em nossa existência e na esperança que existe –

E resiste! –

Na nossa razão e motivo para…

 

Sem rima…

 

TUDO!!!

 

quando-o-amor-for

Terça-feira é dia de promoção no Domino’s!

E lá fui eu pedir minhas pizzas. Pague um preço absurdo por uma e leve duas, de maneira que o preço fica justo. Pedi, disse que ia pagar com cartão, e fiquei esperando. Chegou antes do prazo previsto até. Mas não é esse o foco.

Niterói, a cidade sem prefeito, está sendo consumida pelos mosquitos. Aliás, ela é regida por mosquitos. Há mosquitos em todos os lugares. Vários deles são ninjas e alguns resistentes até mesmo a uma explosão nuclear. Lembro-me de um filme que retratava as baratas como as únicas sobreviventes de um holocausto nuclear. MENTIRA! Tenho certeza que seriam os mosquitos. E pior… Por conta da radiação, sofreriam algum tipo de mutação e seriam dantescos! Tenho certeza que no Nono Círculo do Inferno de Dante há muitos mosquitos, muito embora isso nunca tenha sido citado abertamente pelo autor.

E eis que chega o entregador de pizza na porta de minha casa, sendo que eu sei que vários mosquitos sempre se aglomeram por ali para dar o bote naquele horário. Fiquei na dúvida se eu deveria abrir a porta ou não. De fato, por alguns momentos achei que deveria deixar o entregador ser devorado por aquelas feras para que elas, mais lentas, fossem menos letais após eu abrir a porta. Desisti da idéia e peguei uma raquete daquelas que eletrocutam insetos voadores. A fome falou mais alto.

Abri a porta já agitando a raquete. O entregador se assustou, claro. Era nítido nos olhos dele que eu era, no mínimo, muito doido. Vi-me assim nos olhos dele e não me importei. Ele me entregou a máquina para passar o cartão de crédito, e eu percebi que tinha que parar de agitar a raquete para pegar meu cartão e digitar a senha. QUE DESESPERO! Como eram petistas os tais mosquitos! Dei mole e um esquadrão entrou pela minha casa. Não digitei a senha e fui atrás deles. O entregador continuou esperando com a cara mais “WTF???” que eu já vi na vida. E para evitar vergonha maior, desisti dos mosquitos, digitei a senha, peguei as pizzas, me despedi do entregador e parti para o corredor. Querem sangue? Que assim seja!

Tranquei-me do lado de fora do apartamento com os mosquitos. Tirando o fato de eu não ser Jedi e os mosquitos não serem Storm Troopers, foi uma batalha digna de ser transmitida pela TV. Os mosquitos sendo dizimados pela minha raquete… Aquele cheiro de churrasco impregnando o ar. Mosquitos queimados lembram churrasco, falando nisso. De alguma forma, cada mosquito morto representava um espécie de troféu, ainda que levemos em consideração que mosquitos são infinitos. Não importa se você acredita ou não. Mosquitos são infinitos. Alguns, inclusive, ressuscitam. Nunca duvide disso.

E a pizza? Bom, a pizza estava boa. Mas e o tal do esquadrão que falei que invadiu a minha casa? Batalhei com eles comendo pizza. Tenho certeza de que não matei todos, mas alguns deles jamais poderão ter filhos. Aliás, a grande verdade é que as fêmeas que atacam, e acabei de chegar a conclusão que, na forma humana, elas são conhecidas como “feminazis”. E isso explica o porque de eu fugir delas sempre!

Da próxima vez, vou fazer essa cena toda antes do entregador chegar. Ele pode até não ter entendido o que aconteceu, mas fato é que sabendo desses mosquitos petistas na porta da minha casa, doidos por alguma espécie de pão com mortadela, não posso desistir sem lutar. Seria decretar o meu próprio fim.