Eu, mendigo

Eu vi um menino com sua mãe

Pedintes em frente de uma padaria de luxo

As pessoas desviavam deles

Não os escutavam

Não os ouviam

Como se fossem apenas

Mulher e menino sujos

 

Por ali

Passava eu com pressa

Barba feita e perfume

Passava a moça que tinha feito luzes

Passava o policial

A médica

A professora

O pipoqueiro

O malabarista

O feirante

O artista

E por ali permaneciam

Como se fossem apenas

Mulher e menino sujos

 

Só que me senti incomodado

E precisei voltar

Para aliviar minha consciência

Para mostrar minha superioridade

Diriam alguns

Mas não…

Não voltei por isso

Voltei para mostrar até para mim mesmo

Que nem tudo é maldade

E não dei moeda

Dei pão

Dei ouvidos

Dei coração

E não me importa

Se outros acham isso certo ou não

Pois viam, mas não sentiam

Como se fossem apenas

Mulher e menino sujos

 

A prefeitura

As ONGs

Os intelectuais

Os boçais

Os Cristos

Os Judas

E os Barrabás

Sempre prontos

Para jogar uma pedra a mais

Encaravam-me

Reprovavam-me

Por eu estar ali com eles

Como se eu fosse melhor que eles

Como se fossem apenas

Mulher e menino sujos

 

Mas meu coração se limpou

O menino sorriu

A mãe agradeceu

Eu os toquei

Eu os presenciei

Eu os vivi

Só que eu tinha que sair dali

Para não assumir de vez

A desgraça da miséria humana

E trata-los novamente

Como se fossem apenas

Mulher e menino sujos

 

Não, nunca foram

Não são

E nem nunca serão

Mulheres e meninos sujos

Apenas estão sujos

E me tornaram humano

Limparam o meu coração

E me enchi e os enchi de esperança

Sei que não foi em vão.

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Vitimismo: a idiotia em alta

Fiz faculdade de Economia. Sim, Economia é um curso de Humanas. Todo mundo adora falar mal dos cursos de Humanas, provavelmente por conta da maior concentração de “torcedores da esquerda” por metro quadrado. Entretanto, essa é apenas uma visão simplista do problema. Explico.

Quando fiz faculdade, tive contato direto com as definições de liberalismo sob a ótica de Adam Smith. Há material abundante na Internet sobre a “mão invisível”, de maneira que não acho necessário explicar o conceito neste texto. Em resumo, nas palavras do próprio:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter. – Adam Smith

A minha vida mudou depois que li isso, e ainda mais quando contrapus as idéias de Smith e Marx. O motivo de eu não gostar de Marx? Em resumo, nas palavras do próprio:

Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça. – Karl Marx

Não se trata, portanto, de um debate econômico, mas dos motivos e razões do ser, do existir. Adam Smith conhecia profundamente a essência humana, enquanto Karl Marx parecia apenas um adolescente raivoso, frustrado, incapaz e infeliz.

É importante destacar que tanto Adam Smith quanto Karl Marx e muitos outros são amplamente discutidos nos cursos de Economia (pelo menos nos mais sérios). Então, por que Marx virou uma espécie de guru dos “torcedores de esquerda”?

Eu acredito e vivo em um mundo onde tenho que matar um leão por dia. Meu mundo é de vitórias e derrotas. Não procuro apenas uma suposta estabilidade financeira. Não quero ter mais. Quero ser mais.

Se eu corro riscos? Claro que sim. Não tenho estabilidade alguma, mas as realizações que alcanço são diretamente proporcionais aos riscos aos quais me submeto. E sim, eu sou feliz assim, e acredito que qualquer um pode ser feliz dessa maneira. Basta entender que é preciso estar sempre na “crista da onda”: informado, atualizado, aprendendo, ensinando e se desenvolvendo o tempo todo.

Voltando ao início… Toda vez que vejo alguém defendendo as idéias de Marx, invariavelmente vejo um perdedor de primeira classe. São pessoas que acreditam que o mundo lhes deve alguma coisa, e que todos que são bem sucedidos na vida são opressores e responsáveis diretamente pela vida miserável na qual rastejam.

Portanto, na minha visão, ser de esquerda nada mais é do que ser preguiçoso. É uma declaração de perda total. “Sou nada e não faço nada, mas tenho direito a tudo”. É estar morto em vida.

Não há almoço grátis! A estabilidade de um empregado do setor público é o imposto, melhor dizendo, o confisco por parte do governo de quem está disposto a ser, a viver. Em resumo, quem sustenta quem nada faz é quem faz tudo. Percebem a contradição intrínseca?

Portanto, não tente de maneira alguma culpar os cursos de Humanas por conta do fracasso de toda uma geração. Esse fracasso é vendido como facilidade dentro das faculdades, mas quem recebeu as mínimas informações no maior estilo “World for Dummies”, sabe que esse vitimismo é, acima de tudo, ócio, preguiça e vagabundagem.

Apenas para deixar claro, isso não significa que não devemos ser caridosos. Sem caridade não há salvação. Entretanto, deixando de lado os casos emergenciais (que não são poucos), o que faz mais sentido: dar o peixe ou aprender/ensinar a pescar?

Pense nisso. Sua vida depende apenas de você. Se for para ser um inconformado, seja com você mesmo.

vitima

A paçoca dos sonhos

– O que foi, filha?

As mãos cruzadas na frente. Os olhos mirando o chão. Ela parou de repente, enquanto caminhávamos pela rua mais fancy de Niterói, que parecia existir apenas para esconder a pobreza, a violência e a visível ausência do estado na cidade. Última obra? Calçada de granito nesta rua! Tudo pelo social!

– Pai, nós passamos em frente a uma loja de doces… O menino pediu para a gente comprar paçoca para ele vender. Você não ouviu?

Gelei. Sim, eu tinha ouvido. Talvez por medo, descaso ou pura ignorância, decidi seguir adiante. Minha filha não. Ela ouviu, viu e sentiu o menino.

– Você quer voltar lá, filha?

E me olhando de um jeito que só ela sabe olhar, voltamos. Perguntei para o menino exatamente o que ele queria. Era de fato uma caixa de paçoca. Disse que iria vender no sinal de trânsito.

Comprei a caixa e disse para a minha filha: “Vai lá e entrega para ele!” Meio sem graça, ela foi. O menino, sem entender muito bem o que estava acontecendo, agradeceu e nos disse um sonoro “Que Deus os abençoe!”

Aquilo rasgou meu coração. Como é? Cinco anos e fazendo isso? Fui fingindo que não estava emocionado até em casa. Desabei no banheiro. Pai é forte e não chora. Todos sabem disso, não é mesmo?

No dia seguinte, fomos passear de carro. Em um determinado sinal de trânsito, havia um menino vendendo paçocas. Era ele. Não deu tempo para ele me oferecer, mas as tais lágrimas insistentes voltaram a cair. Tentei dirigir meio de lado para disfarçar, aumentei o som, mas de nada adiantou. Minha filha não entregou paçocas para ele. Ela entregou sonhos, esperança.

E enquanto eu dirigia, rebobinei o filme, voltei a cena. Revi o menino que eu conscientemente decidi ignorar. Ladrão. Viciado em drogas. Poderia fazer mal para a minha filha. E percebi que eu estava desumanizado, morto por dentro, apesar de me considerar um grande seguidor de Cristo. “Hipócrita FDP!”, pensei comigo mesmo. Que tapa na cara com soco inglês!

Quando a gente se brutaliza por qualquer motivo que seja, Deus faz questão de nos mandar um anjo. Eu sou pai de um anjo. Que privilégio! Deu até vontade de comer paçoca! Alguém mais aceita?

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