Duvidando

Não escrevo para ler
E lembrar no futuro
Escrevo para esquecer
Do agora
No agora

Cada gota de tinta
Cada rima
Cada verso
Cada estrofe
Fazem-me esquecer

Tudo é desabafo
Descarrego

Coisas que quis dizer
E não pude
Coisas que tentei entender
E não consegui
Coisas minhas –
Só minhas –
Palavras sobre mim
Palavras por mim

E no futuro
Ao reler o que escrevi
Tudo parecerá estranho –
Porque de mim
Serei um estranho –
Perdido
Nas minhas próprias memórias
Duvidando do meu passado
Por tê-lo documentado
E ainda assim
Não mais o sentir.

Menininha

Eu te chamava assim

Não tinha a ver com a tua idade
Mas com a santidade
Com que eu te olhava
Com que eu te via

Tu eras
Quem eu queria cuidar
E em ti me achar
Mais homem
A cada dia

Não se tratava
De domínio
Mas de fascínio
Admiração
Respeito
Amor
Afeição
Amor

Já disse amor?

Eras tudo
E hoje –
Eu mudo –
Nada muda
Nada mudou

Sinto saudades
Dos fins de tarde
Onde eras uma menininha
E eu
Todo teu

Sinto saudades
Que algumas vezes arde
Feito chama invisível
Atemporal
Que nunca queimou
Ou doeu

Posto que o amor
É assim:
Menininha para mim
Mulher infinita
Amor da minha vida
Não há lágrimas
Em teu nome:
Só bem querer.

Hão de florir

Na estrada
Que leva ao nada
Encontrei-te
A seguir

Na estrada
Que leva ao nada
Encontrei-te
E precisei partir

É porque preciso
Chegar
Ser
E estar
E na estrada
Que leva ao nada
Não posso existir

Mas se quiseres
Chegar
Ser
E estar
Abandona a estrada –
A mesma que leva ao nada –
E outros caminhos hão de florir.

Ciclo viciado

Não amo-te apenas quando estou ébrio:
Apenas me eviscero
Diante dos teus olhos
Quando estou

Sou assim

A culpa
É inteiramente tua:
Teus fluidos
É que me embebedam

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Até nunca chegar ao fim.