Realizar

Aos poucos,

Tudo volta a seu lugar.

Os sonhos, os desejos,

O amor e o amar.

E o coração se liberta da culpa,

De não ter sido bom o suficiente,

Porque nunca há de ser suficiente

Aquilo que não se quer receber,

Aquilo que não importa se chegar.

Aos poucos,

Tudo volta a seu lugar.

E eu quero e mereço um lugar

Aonde eu possa estar

Sem meu coração sangrar.

Que eu me livre do engano,

Que morram a esperança,

As expectativas e os planos,

E que meu presente não seja só

Uma eterna lembrança

Dos meus tempos de criança,

Quando tudo que eu sabia fazer era sonhar.

Eu quero,

Eu preciso:

É imperativo realizar.

Rosas Brancas

Eu exagerava
Nas palavras que te dizia,
Em como te descrevia,
Mas havia um motivo:
Tudo relativo a ti
Era em mim exagerado.

Cada despedida,
Uma morte.
Cada abraço,
Uma ressurreição.

Tu eras um exagero em minha vida,
Daqueles que nunca são suficientes,
Que nunca são o bastante.
E ao mesmo tempo não eras vício,
Mas sim uma opção,
Que eu fazia e refazia,
Todos os dias.

As minhas intenções
E mesmo limitações,
Eram muitas e claras,
Porque eram óbvias
E eram a minha maneira
De dizer que eu –
Todo o meu eu –
Era todo teu.

Amei-te por amar-te,
Sem pensar ou teorizar,
Porque amando-te,
Descobri-me, despi-me,
Como nunca havia feito antes.

E hoje,
Nas andanças do tempo,
Todos os dias,
Guardo-te nos exageros
Também presentes
Nos jardins de minhas memórias,
Onde só brotam rosas brancas.

Inocência

Há inocência nas palavras do poeta.
Há projeções.
Há idealizações.
Há fantasias.
Há idiossincrasias.
Há crenças.
Há fé.
Há verdades que o tempo se encarrega de mostrar
Que não possuem lastro algum na realidade.

E nesse processo, algumas poesias se apagam,
Outras tantas se perdem,
E o poeta se sente um bobo,
Um contador de histórias ridículas,
Um louco,
Um palhaço de circo
Cercado por hienas famintas.

A plateia dele ri e debocha.
Caçoa-o de forma vil,
Torcendo pela sua morte,
Mal sabendo que é na morte, –
Mais uma entre tantas mortes –
No meio do escárnio e do suplício,
É que o poeta encontra a sua redenção,
Retomando a sua forma mais sublime.

Há inocência nas palavras do poeta,
Posto que a inocência é o seu líquor, sua essência,
De forma que ele apenas lamenta
Por quem em suas palavras
Nada dele viu ou a ele sentiu,
Fustigando o poeta pela sua própria existência.

Você e eu

É lindo tudo que não fomos
Tudo em que não acreditamos
Tudo que nos venceu

Ando pelas ruas relembrando
Muitas vezes sonhando
Com tudo que não nos aconteceu

E o meu castigo, minha pena
É saber que no meu coração
Tudo de fato ocorreu

As lágrimas de sangue em minha face
São a falta do que nem sei se de fato houve:
O início ou o fim de você e eu.

Resistência

Houve um tempo

Em que as pessoas diziam

Exatamente o que iriam fazer.

Não havia opção.

Nas mentes e nos corações,

Uma mistura de honra, coragem e integridade,

Que eram então os alicerces do caráter.

Hoje, não mais.

Tudo é líquido,

Tudo muda da noite para o dia

E a única certeza é a mudança.

Palavras não valem mais de nada

E as atitudes são aleatórias.

A sociopatia coletiva não consegue distinguir

Lobos de ovelhas e nem ovelhas de lobos.

As narrativas se formam tendo como base

Os interesses e não mais a verdade.

Não há mais certo ou errado.

Há apenas o conveniente,

O raso, o rasteiro e o sem nexo.

Vivo neste mundo,

Mas não sou deste mudo,

E nunca irei me acostumar com isso.

Eu faço parte da resistência.

São João

Talvez haja mais na festa do que o quentão,

A canjica, o curau, a pamonha e a paçoca.

Talvez haja mais do que as quadrilhas,

As roupas, as brincadeiras, os balões e as fogueiras.

Fogueiras…

De chamas crepitantes,

De labaredas que se abraçam

Por puro desejo e prazer.

Balões…

Coloridos, ascendentes,

Como são nossos sonhos fulgentes

Dançando no céu desta noite limpa.

Nos olhos de cada um,

O brilho e a esperança de uma vida inteira

Por viver,

Por fazer acontecer.

Hoje é dia de São João,

E no meu coração

Explodem os fogos do amor.

E com eles eu escrevo no céu

O seu nome

Seguido de um eu amo você.

Silêncios

No silêncio não há verdades ou mentiras.

É tudo subjetivo, opinativo,

E talvez por isso deveras mais dorido.

No silêncio tudo cabe.

Tudo é e não é

Em um piscar de olhos,

Nas memórias que carecem

De algum tipo de sentido ou explicação.

O silêncio cansa,

O silêncio machuca,

O silêncio ensurdece,

Ainda que não seja este o seu objetivo.

Pior do que isso é que sei

Que as respostas que procuro

Estão nestes silêncios

E dentro destes silêncios

Estou eu.

Insuficiente

O de vez em quando

Nunca me foi suficiente.

Suficiente só me seria

O de uma vez

O diariamente

O cotidianamente

O constantemente

O literalmente

O deliberadamente

O veemente

O incrivelmente

O espontaneamente

O reciprocamente

O ridiculamente

E mais que tudo isso

O para sempre.

Dia dos Namorados – 2022

Não foi o presente

Nem a comida

Nem a bebida

E nem o lugar:

Foi você e sempre foi você.

Meu coração, meu corpo, minha alma.

Meus desejos mais sinceros.

Tudo que fiz do errado ao certo.

Cada palavra

Cada gesto

Longe ou perto

Tudo como seu perfume em meu corpo

Que se renova a cada banho

Tal flor nascida e renascida

Em frente a minha janela

Todos os dias.

Algumas vezes choro escondido,

Mas não por tristeza

E sim por saudade.

E pelo menos esta saudade

Eu sei que levarei comigo

Até o fim do sempre.

Você foi a história mais bonita

Que eu já tentei escrever um dia.

E por mais que eu tenha tentado

Retratar-te em poesia

Sei que minhas palavras sequer chegaram perto

Do amor que já senti em teus braços

E da certeza que eu tinha

De que em nenhum outro abraço

Eu jamais sentiria.