Volta e meia

Perdão:
É aquilo que fui capaz de lhe dar
Sem você ter sido capaz de pedir

E fiz isso por mim:
Para que minhas memórias –
Nossas histórias –
Me invadam
E me façam sorrir
Coisa que volta e meia
Acontece
Sem querer
Ou pedir

Não
Eu não fui um erro
Não

Em silêncio
Pergunte de mim
Para o seu coração

Você sabe disso
E talvez justamente por isso
É que tenha tanto medo –
Tanto receio –
De sentir
E para si mesma pedir
Perdão

A vida segue
E o que é
Prossegue
Longe do toque
Dos dedos
Impresso na alma
E talvez
Mais vivo que nunca
Na negação

Volta e meia…
Volta e meia…
Volta e meia…

Café com você

Quando tudo isso passar –
Seja lá o que tiver que passar –
A primeira coisa que vou querer
É tomar um café com você

E que seja com bolo de fubá
Cheio de erva doce
Para a gente aproveitar
Tudo que a gente sempre negou
Mas que a vida sempre quis que fosse.

Alma limpa

Havia algo de despretencioso
No silêncio dos meus lábios
Nas batidas compassadas
No meu coração

Havia algo de belo
Na ausência das rimas
Na calmaria dos gestos
Nos meus pés no chão

Havia algo de precioso
Nas páginas dos livros
Nos filmes introspectivos
Na profunda reflexão

Havia algo de singelo
Nas brisa suave
Nos sonhos risonhos
No incondicional perdão

Havia algo
De novo
De novo
Eu havia.

Pigarro

Estive pensando
Em mim
Em você
Em nós
Nos nós
Na garganta –
Pigarro –
Difíceis
De engolir

Coisa pouca
Eu e você
Queijos e vinhos
Nenhuma roupa
Nenhuma pretensão
Mais nada
Mais ninguém

Eu estou bem

O dulçor
E o amargor
Da saudade
Me guarnecem
Me aquecem
Feito prece
O resto
É o resto
É o momento
No tempo
Em deixar
Por decidir.


Chantagem emocional

Meu olhar
Minhas palavras
Minha presenças
Minhas ausências
Minhas idéias
Minhas crenças
Meus valores
Minhas paixões
Meus amores
Meus quereres
Minhas companhias
Minha solidão
Meu coração
Meus cuidados
Meu zelos
Minha atenção
Minha intuição
Minha ingenuidade
Minha inteligência
Minha sagacidade
Minhas forças
Minhas fraquezas
Minhas qualidades
Meus defeitos
Minhas seguranças
Minhas inseguranças
Minhas cartas sobre a mesa
Minha transparência
Minha integridade
Meus sorrisos
Minhas lágrimas
Minhas memórias
Minhas histórias
Minhas poesias
Meus antes
Meus agoras
Meus futuros
Minhas incertezas
Minhas vontades
Minhas necessidades
Minhas ansiedades
Minhas piadas
Meus sarcasmos
Meus vacilos
Meus furos
Meus acertos
Minhas verdades
Minha gratidão
Minha dignidade
Minhas idas
Minhas vindas
Meus adeuses
Minhas saudades

Meus toques
Minhas carícias
Meus beijos
Meus abraços
Meus gostos
Meus sabores
Minhas loucuras
Minha sofreguidão
Minha comichão
Meu tesão
Minhas delícias
Meu cheiro
Meu suor
Meu corpo
Meus fluidos
Minhas vísceras

Essas são minhas únicas armas

É que na vida é assim:
Cada um usa o que tem
Para conquistar o coração de alguém
Sendo que não sou de me dar em pedações
Para caber no que me é aquém.

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Espelhando

Eu sorri para o meu espelho
E meu velho espelho
Pois-se a me sorrir

E sem me dar conta
Ou mesmo fazer de conta
Acabei dele e de mim rir

E ficamos assim
Sorrindo um para o outro
Em momentos sem fim

E  sorrindo dali me fui
Sorrir para a vida
O sorriso que a vida deu para mim.

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Olhos nos olhos

Se não há coragem de olhar nos olhos
Pelas janelas da alma –
Escancaradas! –
É certo o intuito:
Fugir

Resta saber se do outro
Ou se de si mesmo

Posto que
Ainda que tentem
Olhos nos olhos
Não fogem
Porque não podem

Jamais.