Quando… (texto e declamação)

Me procure
Quando o álcool tiver se encarregado
De afogar o teu orgulho,
Quando teu coração falar mais alto
Do que todas as grades a tua volta,
Quando sentir que não há saída
Porque a porta era só de entrada,
Quando a verdade transbordar líquida
Pelas linhas do teu rosto,
Quando teu peito ficar apertado
Pela saudade do que nunca foi pouco,
Quando sentir loucamente minha falta
Por dentro e por fora do teu corpo.

Me procure quando quiser se achar,
Quando resolver viver e ser,
Quando decidir se buscar,
Posto que já estou bem longe
Do quão perto já estive
E sozinho, eu já não sei mais voltar.

Sou do bar

Quando te perguntarem de onde eu sou,
Diga que sou do bar.

Foi lá que nos reencontramos
Depois de nos conhecermos
Em outro bar,
Em algum outro,
Mas é como se fosse lá.

Porque lá é minha casa,
Lá é meu lar,
E você é mais do que bem-vinda
E isso eu nem preciso falar.

E não é por ser especial:
Lá todo mundo é igual,
Todo mundo real,
Todo mundo tem nome,
Tem sobrenome,
Tem histórias para contar –
Derrotas e vitórias –
E está lá a criar histórias,
Histórias nem sempre de lá,
Mas que por lá passam,
Que muitas vezes lá nascem
E muitas vez por lá morrem.

E lá se chora,
Se ri,
Se fica,
Se vai embora,
Se ama,
Se termina,
Se namora,
Se troca o telefone,
Se telefona,
Se desabafa,
Se bate foto,
Se entrega,
Se esquece,
Se perde,
Se escreve,
Se bloqueia,
Se declara,
Se casa,
Se separa,
Se afoga.

Um dia,
Ainda irei de fraque até lá
E ninguém vai reparar,
Porque lá cada um vale
As suas conversas,
Os seus silêncios,
As suas lágrimas –
Com ou sem maquiagens borradas –
As suas gargalhadas,
As suas memórias –
De novo, histórias –
E nada mais.

Quando te perguntarem de onde eu sou,
Diga que sou do bar
E que tenho muito orgulho de ser de lá.

P.S.: Essa poesia foi escrita in loco.

Eu, peregrino

Só temos o agora,
Deixa a ansiedade lá fora,
Deixa vir o destino.

Quiçá ele é nosso?
E é justamente por isso
Que eu não procrastino.

Ainda que só por hoje,
Teu ventre é o cálice
Para onde eu peregrino.

Na pior das hipóteses,
Memórias, histórias,
Desvairado desatino.

Euforia

Entre as bolhas que murmuram
Na taça de espumante,
Vejo completamente nua
A minha alma e a tua.

Lembro-me do correr dos hojes:
Dos momentos,
Das conversas,
Do sol,
Dos ventos,
Dos aceites,
Das entregas…

No silêncio,
Ouço as bolhas do espumante
Mais ainda murmurantes,
Explodindo em meus ouvidos,
Chamando-me para aceitar o sentido
De tudo que vem acontecendo.

E agora,
Diante da taça vazia,
Aninho-me a teu corpo
E deixo-me ir
Para o amanhã,
Onde lutaremos pelo pão –
E por tudo mais que nos for
Essencial, verdadeiro e necessário –
De cada dia.

E desta vez, que nem tudo se exploda,
Só do espumante as infinitas bolhas:
Bolhas de alegria, alegria!
Posto que tu és revigorante euforia.