Anteparo

Considero uma das poesias mais bonitas que eu já escrevi. Gosto muito, muito desses versos.

Anteparo

Parece que cresce
Que remexe, que tece
Que cria raízes
Mas é fotografia
De álbum antigo
De melancolia

Só que é tão presente
Que quando ausente
Não deixa nem respirar
E quando presente
Faz o não coerente
Para a razão se ausentar

Talvez seja eterno
O jeito mais que doce
De não falar de amor
De um amor tão calado,
Que berra pecados,
Que urra e canta…

A beleza de amar
O que o torpe destino
Não quis coroar
Pois nem coroa apresenta
E seu cetro só ostenta
Lágrimas de um trovador

E nesse império
De luxúria e mistério
Rego com lágrimas o que plantei
Um sopro de vida
Uma divina rotina
De carinhos não meus

Quem sabe outra chance
Outro dia, outro lance,
Com a sorte desnuda
Feito meu peito rasgado
Pelos lábios molhados
Que eu afirmo: são meus.

Que sirva de aviso –
Não há prejuízo
Em amar até morrer
Pois até no desamparo
O amor é o anteparo
Dos males do eu.

coracaopaixao

Cachorra

Se não for para morder,
Não rosne.
Mas se for para morder,
Também não rosne.

Não quero seus avisos;
Quero seus ataques.

E sim…
Quero que seja uma cachorra!

CACHORRA!

Venha balançando o rabo,
Salivando,
Doida para me lamber,
Doida para receber meus carinhos,
Doida para se esfregar em mim.

Vou aproveitar e te ensinar alguns truques,
Com direito a petiscos no final.

E depois de todo alvoroço,
Que você se deite –
Colada em mim –
E fique.

Obedeça-me!

Simplesmente fique.

E que fique claro:
Não ligo para pedigree.

Mas se for para ser minha cachorra,
Que seja só minha cachorra,
Posto que só quero uma cachorra
Para muito bem amar e cuidar
Até o fim.

É teu

Gosto do jeito que me olhas:
Tu me vês melhor do que sou
Mais do que sou

Vês-me no futuro do presente
Em campos verdejantes
Em melhores e mais fartos dias

Gosto do jeito que me ouves:
Tu afagas minha cabeça
Enquanto digo em silêncio

Respeitas minhas dores
Meu passado, minhas flores
Meus cabelos acaricias

Gosto do jeito que me cheiras:
Pressentes e sentes
Os meus apelos e arrepios

Perfumas minha alma
Nos recantos do teu leito
Verdades me propicias

Gosto do jeito que me provas:
Tua língua em meu corpo
Meu corpo em tuas mãos

Sabores que eu desconhecia
Ofereces-me sem pudores
De todas as formas me sacias

Gosto de como me tocas:
Feito agora, sem demoras
Noite adentro, sem alento

Tocas fogo em minha pausas
Revigoras minhas entranhas
E fazes jorrar minhas fantasias

Mas acima acima de tudo
Gosto da tua capacidade
De dar sentido
Aos meus sentidos
Sinto-me amado
Sinto-me querido
Sinto-te
E o que eu sinto
É teu.

Sem palavras

Você me conquistou no dia em que eu precisei ir
E sem palavras você me disse: “eu te espero”

Acabei por voltar de onde nem era o meu lugar
E sem palavras você me disse: “eu te quero”

E por fim, trocamos olhares tomando vinho no chão da sala
E sem palavras você me disse: “eu te amo”

Estou até agora sem palavras
E eu não sou de ficar sem palavras

Mas mesmo que eu tivesse todas as palavras
Meu coração resiste e ao mesmo tempo insiste
Para que eu lhe diga sem palavras: “eu também”.

Travesseiro

Na tentativa de abafar
Com um travesseiro
Os gritos e gemidos
Que jorravam de sua boca
Em meio a todos aqueles aguaceiros
Acabou por se entregar
Ainda mais
Muito, muito mais
E fez rugir e estrondar
A cama, o quarto
E nossos corpos inteiros.

Punas-me!

Silêncio…

Só consigo sentir os teus gemidos
Tuas coxas selaram meus ouvidos

Falar eu não consigo
E ainda assim com fúria te bendigo

Por que fazes isso comigo?

Teu ventre é um perigo
Mereço de fato este castigo?

Mereço
E pior do que isso:
Quero sempre mais

Punas-me!

Foge não!

Vem cá…
Senta aqui…
Não fuja mais de mim!

Estou pronto!

Me conta tudo que eu nunca quis ouvir
Me deixa te sentir por completo
Em todas as partes do meu corpo
Em todas as minhas células
Pulsando pelas minhas veias
Não tenha dó de mim!

Cansei de te evitar
Cansei!

Vem cá, verdade…
De verdade:
Foge não!