Menininha

Eu te chamava assim

Não tinha a ver com a tua idade
Mas com a santidade
Com que eu te olhava
Com que eu te via

Tu eras
Quem eu queria cuidar
E em ti me achar
Mais homem
A cada dia

Não se tratava
De domínio
Mas de fascínio
Admiração
Respeito
Amor
Afeição
Amor

Já disse amor?

Eras tudo
E hoje –
Eu mudo –
Nada muda
Nada mudou

Sinto saudades
Dos fins de tarde
Onde eras uma menininha
E eu
Todo teu

Sinto saudades
Que algumas vezes arde
Feito chama invisível
Atemporal
Que nunca queimou
Ou doeu

Posto que o amor
É assim:
Menininha para mim
Mulher infinita
Amor da minha vida
Não há lágrimas
Em teu nome:
Só bem querer.

Hão de florir

Na estrada
Que leva ao nada
Encontrei-te
A seguir

Na estrada
Que leva ao nada
Encontrei-te
E precisei partir

É porque preciso
Chegar
Ser
E estar
E na estrada
Que leva ao nada
Não posso existir

Mas se quiseres
Chegar
Ser
E estar
Abandona a estrada –
A mesma que leva ao nada –
E outros caminhos hão de florir.

Ciclo viciado

Não amo-te apenas quando estou ébrio:
Apenas me eviscero
Diante dos teus olhos
Quando estou

Sou assim

A culpa
É inteiramente tua:
Teus fluidos
É que me embebedam

Releia a poesia
Até nunca chegar ao fim.

Quanto vale um abraço?

A roupa nova
O carro importado
A viagem para a Europa
A próxima mansão pós moderna…

Ficou tudo para depois

Precisou um vírus
Parar o mundo
Para pararmos
Para ver
Que parados
Nada temos
E sequer
Conseguimos ser!

Só precisamos de um abraço
Um abraço…
Que nos devolva os laços
E o prazer de poder viver
Sem de quase nada precisar
E ao mesmo tempo –
De volta –
Nos ter.