Dona das flores

Tu és dona das flores

Que trazes quando chegas

E que deixas quando vais.

És o jardim onde quero ser sepultado,

O cálice que faz-me vivo,

E tudo de melhor que tenho desfrutado.

Tu és a dona das flores,

Que rega-me sem pudores,

E até em teus espinhos

Não sangro: me curo.

Tu és a dona das flores,

Que explodem em uma miríade as cores

No meu coração, na minha alma,

Na terra que ofereço fecunda

Para nossos brotos ainda por nascer.

Caudalosa

Não era para dependermos das nuvens.

Era para estarmos acima delas,

Onde há sol o ano inteiro.

E ainda assim,

Que a chuva nos lave,

Que nossos lábios se beijem,

E que a água que desagua por entre tuas pernas,

Pelo rio onde navego todo e inteiro,

Leve-me para a foz deste úmido e caudaloso pesadelo.

(sonho)

Amargos e doces

E não é que a vida é assim?

Dias amargos.

Dias doces.

Seriam amargos os dias amargos

Não fosse o doçura dos dias doces?

Seriam doces os dias doces

Não fosse o amargor dos dias amargos?

O contraste me faz sentir vivo.

É assim que vivo minha vida.

É assim que me aproximo de outras vidas.

Dias amargos e dias doces,

Porque a vida é assim

Tanto para você

Quanto para mim.

Banoffee com espresso duplo

Suntuosa

Entendo pouco ou quase nada de espanhol, mas tenho visto nos detalhes da língua labaredas e estampidos que eu desconhecia.

No meu curriculum, nego-me a dizer que tenho espanhol básico ou algo que o valha. Eu não entendo espanhol. Eu sinto. Em nível mais do que avançado, diga-se de passagem.

Tem a ver com os vinhos e com as poesias que há dentro deles. Com os amores intensos que não duram mais que uma noite. Com a aproximação suave de quem chega de repente e fica. Constrói, cativa.

Em espanhol também choro saudades de quem já fui. Foi preciso ser o que não mais sou para que eu fosse o meu agora. Para que as lágrimas que tanto vi refletidas em uma taça de vinho se transformassem em sorrisos. Para que eu pudesse ver além do cristal.

Mas, sobretudo, em espanhol eu te beijo. Em espanhol sou raso e sou fundo. Sou incêndios, furacões e tormentas. O antes, o durante, o fim do mundo.

O espanhol é todas as línguas. A minha, a tua. Língua dos confessionários que são as camas e os quartos. Teus quartos. Tuas entradas. Não há saída.

Teu cabelo negro e avermelhado diante do sol adentra meus vislumbres de Neruda e rasga meu peito. Teu gozo é em braile e arranha meu pescoço, minha alma. Tira-me o chão. Devolve-me tudo.

O espanhol fez e faz isso por mim todos os dias. Estou ouvindo o teu chamado até quando tu não me chamas. Óleo de macadâmias que não saem das minhas mãos bezuntadas de ti que esfrego em minha face. Estou e vivo rúbio.

Ouça minhas palavras com cautela, pois como disse, não sei falar espanhol. Entretanto, bem sei que tu me conheces mais pelo que não digo. Lonjuras entre nós são puro castigo. É real e iminente o perigo.

Mundo meia boca

Vivemos em um mundo onde ser bom e sincero causa espanto e desconfiança.

As pessoas simplesmente não acreditam mais na bondade e na sinceridade, ou mesmo em qualquer traço de pureza desinteressada. Acham que há algum tipo de manipulação envolvida. Algum tipo de toma lá, dá cá. Acham que o outro está materializando algum arquétipo angelical apenas para mostrar suas garras em um momento oportuno.

É um mundo que está conformado com a mediocridade e que acredita que o medíocre é, ao menos, real, possivel. A mediocridade se transformou, então, em uma espécie de pós novo normal.

E assim, o mundo vai se enchendo de relações medíocres, de momentos medíocres e descartáveis, de frases sem significado, de ideologias imbecilizantes e de mentiras que são repetidamente contadas olhos nos olhos, até chegarem ao ponto de serem reconhecidas como pós verdades. E as verdades, agora sim reconhecidas como mentiras, é que devem ser esquecidas e deixadas de lado.

O amor e tudo mais é líquido em um mundo que escorre por entre os dedos dos medíocres que já são o próprio mundo.

Mataram o mundo. Não sei como eu ainda não morri.

Soberba

Eu vivi tuas mentiras na esperança –
Hoje ira –
De que houvesse alguma verdade escondida
Entre teus seios.

Pudera…
Até eles são de mentira!
E não há coração algum
Pulsando, batendo entre eles.

Tu não sangras!

O erro foi meu e reconheço:
Tua vida é uma mentira sem conserto,
E achar que eu poderia mudar isto
Foi o perigeu da minha desgraça
E o apogeu da tua soberba.

Deserto de sal

Admito que não foi fácil.

Havia tantas histórias,
Tantas memórias,
E tudo o que eu mais tentava esquecer
Era justamente tudo que me fazia lembrar.

Aprendi que tentar esquecer
É o mesmo que reconhecer
Que algo é inesquecível.

Desisti.

Vez ou outra,
As lembranças ainda me chegam
Feito ondas do mar,
Que me molham da cabeça aos pés.
Vejo-me em mergulhos profundos no que já fui,
Mas que a vida disse para eu não mais ser.

Talvez um dia o mar seque.
Talvez um dia tudo seque.
Já lamentei tudo isso,
Mas talvez tenha que ser assim:
Um deserto de sal,
Com toneladas e toneladas de sal despejadas
Por mãos que nunca pertenceram a mim.

Minha memória não anda boa…

Obrigado por me lembrar

De buscar na tua casa

O que eu propositadamente esqueci.

Não deixe na portaria –

Espere-me de porta aberta –

Pois vou subir.

Aproveita e peça uma pizza!

Pode até ser com catupiry.

O vinho eu levo, claro,

E já aviso que novamente vou esquecer

Alguma coisa por aí.