Temporário

Eu sou
O que está por detrás
Das portas que não abro
O que não encaro
Nas janelas que embaço
As músicas que não escuto
Os petiscos que não degusto
Os vinhos que não abro
As conversas que não tenho
Os sentimentos que ignoro
E tudo mais que disfarço

Eu estou
Sem sede
Sem fome
Entalado
Mofado
Abismado
Atordoado
Disperso
Possesso
Compresso
Inconfesso
Puto!
E mais nada

Eu estou
O reverso
Eu estou
Ao contrário
E diante
Desse corolário
Eu estou morto
Mas esse óbito –
Valha-me, Deus! –
É temporário.

Inconveniente

Falta-me inspiração
Porque nada me falta
Ou se me falta algo
Disso não me dei conta

Sinto-me estranho:
Sinto falta de sentir falta

Pois bem…

A plenitude e eu
Somos péssimos amigos
E ela só me visita
Quando eu não a procuro
E teima em aparecer
Quando não é chamada

Abusada!

Mas já que chegou do nada
Toma comigo um café
E aproveita a sua estada
Prometo trata-la bem
Ainda que não seja minha convidada.

Ademais

Quando olho para meu passado
Percebo os momentos exatos
Em que fiz demais
Tentei demais
Falei demais
Demais…

Não mais!

Porque quem eu era
Já não mais sou
Mas ainda sou
E ainda sinto
Sinto muito
Ademais.

Boa mesa

Tínhamos essa mania louca
De olhar um para o outro
Em lados opostos da mesa
E nos confundir com comida

Poderíamos até culpar o vinho
Mas tornou-se um hábito
Ver a mesa posta
As vontades expostas
E a comida quase intocada, fria

A fome?
Saciada, todavia.

Não sou em vão!

Admiro tanto os poetas
Ao ponto de não me considerar um

Leio coisas que me desnudam
Que desnudam os outros
Métricas, rimas
Tudo perfeito
Nem mais, nem menos
As coisas como são

Mas eu não sei como são as minhas coisas
Só sei que são

E talvez ser poeta seja isso –
Não sei –
Falar das coisas como as vejo
Como as sinto
Como com elas pelejo

E esse meu esforço pagão
Há de fazer sentido
Na vida, em algum vão perdido
Das minhas coisas como são

É uma forma de dizer –
E como eu preciso dizer –
Não sou em vão!