Madrugada

A noite avança
Com suas sutis rudezas:
Nada é pouco
Tudo é muito
Talvez mais do que muito
Ainda que não seja o bastante
Para me fazer desabar em meu leito

O sono…
Esse meu amigo traiçoeiro
Que de mim foge de vez em quando
É também fiel conselheiro:
Fatos sobrepõe-se a sentimentos
E desmascaram fantasias e luxúrias de noites opacas
Rasgadas e devassadas por realidades translúcidas
Onde todos os meus tolos e inocentes devaneios
São partidos ao meio

Mas também é na madrugada
Que sempre sou mais meu
E hoje –
Mais uma vez –
Durmo acompanhado
Vamos passar a noite inteira acordados
Nus, amarrados e abraçados –
Pura honestidade –
Só a minha raiva e eu.

Raiva? Não!

“Imagino a raiva que você está sentindo…”

Não, não imagina. Não há como se imaginar algo que eu não sinto.

Se eu tenho motivos para sentir raiva? Creio que sim. Muitos motivos até, mas quanto mais me aproximei de Deus durante a vida, mais me dei conta que carregar qualquer tipo de raiva dentro do meu peito só me prejudica. Não quero isso para mim.

Não controlo o que os outros fazem comigo, mas posso controlar como me sinto em relação ao que os outros fazem.

Permitir que as atitudes dos outros determinem o sinto é como dar aos outros o poder de sentir por mim e determinar como viver a minha vida, sendo essa uma prerrogativa exclusivamente minha de acordo com tudo que aprendi.

Não, não há raiva. Só há silêncio e perdão. É isso que faz bem para o meu coração. Sigo em frente a minha jornada.