Você não é perfeito (e nem eu)

“Vejam os absurdos que fizeram comigo! Sim, eles! Só não me perguntem (e se souberem ignorem) os meus mal feitos para com eles!”

Há momentos em que é preciso fazer um sincero e pretencioso mea culpa. É preciso olhar-se no espelho, de verdade, e reconhecer-se. É preciso não insistir em narrativas vitimistas, fantasiosas e falaciosas. É preciso parar de tentar defender o indefensável, o injustificável. É preciso olhar para dentro e admitir o dano que foi causado ao outro, ainda que sem querer.

A vida é isso. Não pode se ver como errado e se absolver aquele que não reconhece o próprio erro. Nem aquele que aponta os dedos em todas as direções em busca de culpados, quando deveria ao menos estar apontando alguns dedos para si mesmo. Nem aquele que foi imprudente ou mesmo inconsequente e não admite a possibilidade de ter se comportado de maneira inadequada. Nem aquele que acredita que na sua história, no seu curriculum, não há nenhum mal feito.

É preciso parar de achar que todos os outros são os culpados, menos o eu. Sim, o eu. O eu também erra ainda que de maneira involuntária. O eu não é perfeito e precisa se dar conta disso. O eu não está acima do bem e do mal. O eu não pode apenas querer ser desculpado sem nunca se culpar ou mesmo se responsabilizar para se desculpar em seguida. O eu precisa se colocar no lugar dos outros para entender o que está acontecendo em sua própria vida. O eu precisa saber que a vida é mais do que a percepção que ele tem de si mesmo.

Não, isso não é obrigatório. Nada é obrigatório. Ninguém precisa mudar para deixar os hábitos ruins de lado. Ninguém precisa abandonar as desculpas e as justificativas. Ninguém precisa tentar entender melhor o mundo dos outros e o mundo ao seu redor. Ninguém precisa reconhecer que não é perfeito. Ninguém. Já para ser alguém, é preciso tudo isso.

As pessoas tendem a perder a paciência com os perfeitos, porque sabem que eles não existem. A perfeição é uma afronta para quem possui um mínimo de inteligência. Pior: a perfeição impede que a pessoa seja de fato perdoada. Perdoar o perfeito? Por quê? O perfeito sequer precisa disso. O perfeito só faz o que é certo e está implícito que todas as culpas e responsabilidades no transcorrer de sua vida são dos outros, sempre.

Sim, tem a ver com humildade. Tem a ver com baixar a guarda. Tem a ver com procurar o diálogo. Tem a ver com o “eu queria entender o porquê de você estar assim comigo”. Tem a ver com o “será que eu fiz algo tão grave e não percebi?” Tem a ver com o “será que eu dei motivos?” Tem a ver com reconhecer que a realidade vista pelos olhos dos outros pode ser diferente da que se imagina. Tem a ver com reconhecer uma eventual miopia. Tem a ver com querer resolver em definitivo os problemas. Tem a ver com se tornar humano, imperfeito, e justamente por isso merecedor do perdão, da compaixão, de amparo, de auxílio.

Escrevi esse texto me olhando no espelho. Continuo imperfeito, graças a Deus (esse sim, perfeito)! Feliz assim. E você?

Sob juramento

Há quem fale dos próprios erros,

Como se fossem dos outros,

Causados por outros,

Tal como se fossem vítimas

De uma trama

Que nunca sucedeu.

Já os meus erros,

Sob juramento, confesso:

Sou a eles apegado,

E são todos meus.

Ávida vida

A culpa nunca é minha

É da vida

Não é das escolhas que fiz

Ou das que não fiz

É da vida

 

Não trabalho com o que gosto?

É a vida

Deixei passar meu grande amor?

É a vida

Estou fora de forma?

É a vida

 

E de fato a vida não se importa

Com o que penso dela

Do que a culpo

Porque ela é, de fato e de direito

A vida

 

Tão poderosa, maleável

Ao ponto de ser o que eu quero

O que eu permito que ela seja

Mesmo que eu só me dê conta disso

Quando estiver perto do fim

Ou bem longe do começo

 

E nesse darradeiro momento

Creio que não me servirá de consolo

Ou amenizará meu sofrimento

Culpar a vida pela vida

Que não vivi.

 

Foi-se

Perdeu-se

A culpa toda é só minha

Faltou avidez

Na minha vida.

a-vida-e-de-quem

Em busca do EU perdido

Seu cônjuge gosta de falar palavrão?
Fale também! Por que não?

Seu cônjuge acorda cedo?
Acorde cedo também! Por que não?

Seu cônjuge não come carne?
Não coma carne também! Por que não?

Seu cônjuge não bebe?
Não beba também! Por que não?

Seu cônjuge não tem religião?
Esqueça da sua também! Por que não?

Seu cônjuge não quer ter filhos?
Não os queira também! Por que não?

Seu cônjuge ama o PT?
Ame-o também! Por que não?

Quando A e B se conheceram, A comia carne e B não. Para se aproximar de B, A resolveu parar de comer carne também. Não parou por convicção, por conta de querer proteger os animais ou por achar que faria bem para a saúde. Parou simplesmente para agradar B.

Eu poderia listar um número quase infinito de concessões, em pequeno ou maior grau, que muitos cônjuges fazem para agradar o outro, mas creio que essa lista já é suficiente para ilustrar o meu ponto.

individuo

Quando A e B se apaixonaram, A e B eram pessoas diferentes. Eram INDIVÍDUOS, e por detrás de indivíduos está o conceito de INDIVIDUALIDADE, que não pode ser perdido no casamento ou em uma união estável de qualquer natureza. Por que? Porque no longo prazo não funciona! Simples assim.

Notem que não estou falando de escolhas conscientes e acordadas entre os dois: não vamos viajar esse ano, porque nosso objetivo é ter uma casa própria. Por detrás de uma escolha consciente, o conceio de indivíduo e individualidade permanecem intactos.

Os exemplos que citei, que em um primeiro momento parecem inofensivos, ao longo do tempo fazem com que o indivíduo perca a sua individualidade, e se torne igual ou muito similar ao outro. Muito bom, não é mesmo? NÃO! Isso é absolutamente terrível! Por que? Porque A e B se apaixonaram como indivíduos, e quando essa individualidade se acaba, pode ser que a própria relação se acabe. O motivo é simples: no intuito de agradar ao outro, o que primeiramente uniu o casal simplesmente deixou de existir. A individualidade é um dos princípios de qualquer relação.

Há  três possíveis fins para relacionamentos desse tipo:

1) A e B, quer seja por questões morais que lhes foram passadas ou por qualquer outro motivo, vivem uma vida bem abaixo de sua plenitude. Se confrontados, dirão que fazem isso por suas famílias. Perderam por completo a noção do EU. No fundo, se sentem frustrados de maneira que não conseguem explicar. Culpam o destino, karma, conjunturas políticas e econômicas, etc. Se esqueceram tanto do EU que são incapazes de olhar para dentro!

2) Seguindo o exemplo da carne, A fez todos os tipos de concessão para B no sentido de “ser aceito”, “evitar brigas”, etc. A deixou de ser EU, e portanto esqueceu-se de sua própria felicidade e vontades. E para surpresa de A, B um dia chega para A e diz: “Acabou! Não reconheço mais você! Você não é a pessoa pela qual me apaixonei!” Vira as costas e vai embora. E A, depois de 10 anos ou mais de concessões, sente-se completamente perdido, sem saber o que fazer da vida, e culpando-se por não ter feito mais para que B não fosse embora. Percebem o caso clássico do feitiço virando contra o feiticeiro? Deixando de lado o julgamento do mérito da ruptura, fato é que A vai precisar reencontrar o próprio EU, e enquanto este não for encontrado, viverá relações destrutivas de todos os tipos.

3) Tamém seguindo o exemplo da carne, A fez todos os tipos de concessão para B no sentido de “ser aceito”, “evitar brigas”, etc. A deixou de ser EU, e portanto esqueceu-se de sua própria felicidade e vontades. Entretanto, diferentemente do que foi citado acima, A começa a perceber que deixou de ser EU e angustia-se. Começa a perceber que anulou-se durante anos por conta de um alguém que muitas vezes sequer reconheceu seu valor. Sobe-lhe um sopro de vida que assusta e que é ao mesmo tempo irresistível. E então, A resolve recuperar o tempo perdido, e muitas vezes vê em B o seu algoz, muito embora a responsabilidade sobre sua felicidade seja inteiramente sua. “B, estou indo embora. Eu me anulei por sua conta. Preciso viver!” E B, possivelmente, não vai entender do que se trata. “Como assim? A tem vontades? Devem ser os amigos ou a terapeuta que estão gerando influências negativas! Talvez seja maluca!” Tanto faz… Como o mundo girava no entorno de B, B é incapaz de perceber o que aconteceu com A. B é incapaz de perceber que A também precisava de seu EU.

Notem que essas relações são destrutivas. Quem conscientemente faria escolhas desse tipo? Entretanto, escolhas desse tipo são feitas TODOS OS DIAS, e muitas vezes percebidas apenas depois de longos e penosos anos.

Convido a todos que reflitam sobre suas vidas e sobre suas relações. Somos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade, e com certeza há no mundo pessoas que nos aceitam com todas as nossas qualidades e defeitos. Há pessoas que amam o EU do outro e que desejarão viver eternamente ao lado dele.

Sejamos felizes e plenos!