Inquietude

Na segunda-feira, dia 15/04/2019, durante uma breve caminhada, as minhas velhas e queridas sandálias Havaianas soltaram as tiras. Foram 10 anos de um relacionamento intenso, vencido pelo cansaço. Ela descansou em paz.

Piadas deixadas de lado, me vi descalço, no meio de uma rua movimentada de minha cidade, e fiquei sem saber o que fazer. Até que me dei conta que havia sandálias bem perto de mim, penduradas em um mostruário na frente de uma farmácia.

Mesma cor, mesmo número, e segui em frente. Foi fácil. Eu tinha um cartão de crédito. Apenas mais um causo para ser contado, não fosse por um pequeno detalhe: eu não era o único sem sandálias naquela rua. Logo na saída da farmácia, havia um mendigo descalço. Não era eu, felizmente, mas isso me incomodou de uma forma que eu não consegui entender no momento.

Em casa, me dei conta do quanto foi fácil resolver a questão. Talvez menos que cinco minutos. E o mendigo? Resolveu a sua questão? Tinha consciência de que havia um problema para ser resolvido? Acostumou-se a viver sem uma solução? Por que eu tinha uma sandália e ele não?

Eu não consegui obter uma resposta minimamente satisfatória. Tentei pensar em todas as “possibilidades possíveis”, e me deparei com uma verdade aterradora: eu era um privilegiado. Eu tinha. O mendigo não tinha. E o mundo seguia em frente assim mesmo. Era assim.

E me senti devedor do mundo. E me lembrei que pago meus impostos, que também deveriam servir para combater a mendicância, a pobreza. E me lembrei das discussões religiosas e políticas sobre o assunto. Só que no meu coração não funciona na base do “eu já fiz a minha parte”. Há uma parte muito forte em mim que não se contenta em ver o errado, mesmo que eu tente fazer ou já tenha feito a minha parte. Eu sou um inconformado.

Dizem que a maturidade e a sabedoria vem com o tempo. Acredito, mas a minha inquietude só aumenta. É preciso fazer algo sobre isso. Não sobre a minha inquietude (eu a aceito como uma qualidade), mas sobre as mazelas do mundo, inclusive as minhas. A questão não é sentir culpa, mas como cidadão do mundo, é óbvio que carrego alguma.

Há um chamado dentro de mim para fazer coisas maiores do que já fiz e faço. Ainda estou tentando decifra-lo. Não quero calçar o mendigo. Quero mesmo é acabar com a mendicância. Sonho grande demais? E quem disse que tenho que sonhar pequeno?

Vou fazer a minha parte em pequenas doses. Em troca eu só quero uma coisa: nada. Para mim, ajudar os outros é algo egoísta. Ajudo porque me incomoda. Ajudo porque isso vicia. Amenizar a dor do outro ameniza as minhas dores também. É isso. Foi o que uma sandália arrebentada me ensinou.

Em frente, sempre. Mais inquieto ainda.

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