Luz e sombra

Até que ponto o teu padrão de consumo e a tua maneira de viver são realmente teus? Até que ponto tua roupa, teu carro, tuas palavras, teu olhar, tuas felicidades e tuas dores pertencem a ti? Até que ponto te reconheces quando olhas de cara limpa para um espelho?

És o que és ou és o que esperam que tu sejas? És ou estás? Quem és tu, afinal?

Pergunto porque também já não soube quem eu era, e foi um esforço tremendo achar-me em mim.

Já fui minha sombra revirada e retorcida por viver o que eu não era. Nenhuma penumbra. Nenhum atenuante. Puro breu.

Não houvesse espelhos, eu até hoje não saberia de mim. Não houvesse espelhos, até hoje eu acreditaria que eu era só ausência de luz. Sombra e nada mais.

Hoje, sou sol, mas só me tornei sol quando não me reconheci na minha sombra, e isso era algo que ninguém poderia fazer por mim.

O bem aquece a vida

No Centro de Niterói/RJ, durante a década de 1970, meu avô saía de casa aflito todas as vezes que chovia e ventava muito forte. Ele saía com uma caixa de papelão nas mãos, e um dia me chamou para ir com ele (para o desespero da minha mãe, pois eu era muito novo).

Fomos em direção à casa que abrigava a prefeitura na época, que era completamente cercada por árvores enormes. Diante delas, vi meu avô se abaixando e recolhendo o que pareciam ser pequenos frutos das árvores. Não eram. Eram pequenos pardais desfalecidos por conta da tempestade.

Então, já com a caixa cheia dos pequenos pássaros, meu avô voltou para casa, cobriu a caixa com um cobertor e a colocou no forno, em temperatura bem baixa e com a porta aberta. Instantes depois, meu avô retirou a caixa do forno e eu comecei a ouvir inúmeros e intensos piados. Quando a chuva passou, meu avô retirou o cobertor de cima da caixa, bem perto da janela da cozinha, e dezenas de passarinhos fortes e aquecidos, voaram pela janela em direção ao infinito, em direção à vida.

Aprendi ali com meu avô, bem cedo, que mesmo sem que um pardal lembrasse do meu avô ou se mostrasse minimamente grato a ele, o prazer de ver os pardais voltarem a voar significava para ele absolutamente tudo. Ele praticava o bem e o bem era a sua própria recompensa. Era evidente nos seus olhos e no sorriso que esbanjava para si mesmo.

Que nossos corações e nossas atitudes sejam como a caixa, o cobertor e o forno do meu avô. E que possamos fazer o bem sem esperar nada de ninguém, na certeza de que ver o outro se levantar diante de uma dificuldade é um dos mais sublimes experiências que podemos ter na vida.

Saudades de ti, Afonso Fonseca, meu adorável e inesquecível avô. Obrigado por ter me ensinado tantas e tantas vezes o que verdadeiramente vale a pena na vida.

Desobvializando

Não espere de mim o óbvio.

O óbvio está em todos,

Em todas as esquinas,

E eu não quero ser só mais um

Para deixar claro:

Se for para ser mais um,

Não faço questão de ser nada,

Porque sei e não abro mão do que sou.

Ando cansado desses jogos,

Dessas coisas babacas do “amor”.

Perde-se tempo em disputas inúteis,

Onde nunca há vencedores.

O amor é para ser sentido,

E não para ser raciocinado,

Mendigado ou exigido.

Se todos os passos são calculados,

E nunca há risco de se pisar em falso,

Não é amor, porque amor é risco

E amar coisa de gente corajosa.

Amor é liberdade,

É asas, é sonhos,

Não tem nada de óbvio.

E por isso eu amo.

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Vada a bordo, cazzo!

É comum, e diria que até natural, que em algum momento da vida, a busca de um sentido, de uma razão, se torne uma espécie de tônica em sua vida. Afinal, qual é o sentido disso tudo? Para que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Por que nada parece fazer sentido? Por que ainda há gente que vota no PT?

Não tenho uma resposta definitiva, mas a analogia de imaginar-se em um navio diante de mar turbulento parece ser bastante apropriada. Visibilidade próxima do zero. A chuva, o vento, e a proximidade com rochedos fazem parecer que não é possível ter controle algum sobre a embarcação, e que é obrigação cartesiana o contentamento com os rumos e destinos reservados pela tempestade, sejam eles bons ou ruins.

E eis que então, como que em um passe de mágica, dos porões inundados do navio surge uma faísca que religa os motores. As luzes se restabelecem. As cartas de navegação reaparecem e, de alguma forma, começam a fazer sentido. E não por sorte, um farol ilumina o horizonte, indicando de maneira clara e inequívoca para onde o navio deve prosseguir.

Surpresa! VOCÊ é o capitão de sua vida. Se decidiu ou foi forçado a enfrentar mares turbulentos, lembre-se que ainda assim VOCÊ está no controle. O farol nada mais é que o seu objetivo maior, onde você realmente quer e precisa chegar. É a SUA felicidade. Faça o que for necessário para alcanca-la. Lembre-se apenas de que há outros em busca de suas respectivas felicidades também. Jamais passe por cima destes.

P.S.: Francesco Schettino, ex-comandante do navio Costa Concordia, foi condenado a 16 anos de prisão por causa do naufrágio do cruzeiro no qual morreram 32 pessoas, em janeiro de 2012. Além da “barbeiragem” de ter conduzido o seu navio até os rochedos, Schettino abandonou a embarcação, a sua tripulação e todos os passageiros a sua própria sorte logo após o acidente. Não seja um Schettino em sua vida. Vada a bordo, cazzo!

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/comandante-do-costa-concordia-e-condenado-16-anos-de-prisao.html