Feliz Natal – 2022

Que neste Natal, nossos corações estejam bem abertos para sentirmos o que de fatos sentimos, de maneira que sejamos capazes de nos encontrar (de novo) com nós mesmos.

Que transbordemos nossos medos, nossas dúvidas, nossas tristezas, nossas verdades, nossas saudades, nossas felicidades e tudo mais que estiver preso em nossos peitos. E acima de tudo, que transbordemos muito amor e perdão, na certeza de que a busca incansável pela nossa integridade e reconciliação com Deus, nosso pai, é a nossa única possível salvação.

A quem eu machuquei, peço meu mais humilde e reverencial perdão. E se fui machucado, confesso que já não me lembro, pois o Cristo é o dono do meu coração.

“– Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” – Antoine de Saint-Exupéry, no livro O Pequeno Príncipe

Um Feliz Natal para todos! Que Deus nos abençoe grandemente e que ilumine nossos caminhos hoje, agora e sempre. Amém!

Todo santo dia

Também eu sei falar de coisas tristes,
De tudo de ruim que me aconteceu,
Das dores que me perseguiram inclementes,
Das saudades absurdas que me gelaram o peito,
Das vozes que, delirante, fingi que ouvi,
Das noites em claro e da sensação de quase morte,
Dos fins de tarde que pareciam o fim do mundo,
Do Apocalipse que comia e regurgitava minhas vísceras.

Ninguém por perto.

Medo diserto.

Respirar funesto.

Desenredo decerto.

Até que me dei conta
De que nunca me eximi,
Ou mesmo tentei fugir,
Das catástrofes que a mim –
E em mim –
Cabiam:
Tentar esquecer
Era, pois, a forma mais dissimulada
De me lembrar,
Todo santo dia,
De tudo que ainda me habitava
E de tudo que já me foi tudo um dia.

Excel

– Então… O que você vai fazer hoje?

– Nada… Eu ainda estou no consultório – a voz dela demonstrava uma profunda irritação – Mas por quê?

– Eu ia te chamar para dar uma volta…

– Nem pensar! Tenho que terminar isso ainda hoje. Estou ficando irritada! Eu odeio o Excel!

– Acho que eu posso te ajudar com o Excel. Topa? – a pergunta dele foi sincera, extremamente sincera.

– E por que você faria isso? – ela perguntou risonha, mas ao mesmo tempo em tom desconfiado.

– Faz o seguinte… Fecha tudo aí e vai para casa. Eu peço alguma coisa para jantar e te ajudo com o Excel. Pode ser?

Apesar de ter concordado, na cabeça dela a oferta tinha sido minimamente estranha. Afinal de contas, não se conheciam há muito tempo. O único objetivo possível por detrás da oferta dela era uma noite de sexo e nada além disso. Decidiu pagar para ver. “Será que não fui clara quando disse que estava ocupada?”

Chegando em casa, ela tomou o seu banho, passou um perfume básico, e abriu seu notebook em cima da mesa. Uns 15 minutos depois, ele chegou.

Deu um abraço apertado nela e perguntou o que ela gostaria de comer. Decidiram pedir um hambúrguer artesanal com Coca Zero. Enquanto esperavam, ele se sentou ao lado dela e começou a perguntar da planilha.

– Então… O que você quer fazer?

– Eu quero fazer uns gráficos para um estudo que tenho que apresentar… Não estou conseguindo…

E começaram a trabalhar juntos na planilha. Ele parecia legitimamente interessado. Falou de recursos do Excel que ela nem conhecia e aos poucos os gráficos foram saindo.

Passados uns 40 minutos, o pedido do Uber Eats chegou. Ela começou a colocar a mesa e ele a interrompeu, dizendo que não era necessário e que eles tinham que comer rápido para terminar o trabalho.

– O que deu em você para vir aqui me ajudar? – ela perguntou casualmente antes de dar uma mordida no hambúrguer.

– Sei lá… Eu queria te ver – ela percebeu sinceridade nos olhos dele.

– Pensei que só fossemos nos ver nos bares da vida… – havia um certo tom de deboche na pergunta dela. Ela tinha a nítida sensação de que era apenas mais uma das aventuras dele.

– Que nada… Não dá para ir ao bar todos os dias e muito menos beber sempre – a voz dele era serena, segura, tranquila.

“Há algo acontecendo aqui e eu não estou me dando conta. O que ele quer, afinal?”, se perguntou.

Após o jantar, lá pelas tantas, terminaram a bendita planilha. Ele mostrou para ela que poderiam fazer algumas melhorias, mas ela disse que já estava bom o bastante, e que ele não precisava mais se preocupar.

– Bom… Você deve estar querendo ir dormir… É melhor eu ir embora… – ela já falou se levantando da cadeira.

– Senta! – a voz dela saiu firme, tal como uma ordem – Me explica o que está acontecendo!

– Nada… Eu só senti saudades… – os olhos dele olhavam fixamente para ela de maneira cândida.

– Você com saudades? Não estou acreditando… Quem é você, afinal? Pareceu tão confortável no bar…

– No bar é mais fácil, né? Sem compromisso, sem expectativas, sem promessas… – seus olhos miravam o chão.

A conexão com as palavras dele foi imediata. “Eu sei bem como é isso…”, pensou. Então, se levantou e foi para a cozinha. Fez um chá para os dois. Ela ligou a TV e pediu para ele ficar mais um pouco. Ele aceitou. Ela dormiu no seu ombro. Ele não queria acorda-la e permaneceu imóvel enquanto assistia uma reprise do último GP de F1.

De repente, meio que assustada, ela acordou.

– Você ainda está aqui? – perguntou incrédula.

– Sim… Eu não queria te acordar… Agora eu vou indo…

– Não! – novamente, a voz dela saiu firme, tal como uma ordem – Já está tarde… Dorme aqui… Amanhã você vai.

Ele balançou a cabeça e pediu para tomar um banho. Quando saiu, ela já estava dormindo. Se ajeitou ao lado dela como pode e dormiu profundamente.

Acordaram às 06h00 e tomaram um café da manhã rápido. Na saída, enquanto se despediam, ela perguntou:

– Nos vemos mais tarde?

Ele ficou surpreso. Meio sem graça, apenas sorriu e anuiu com a cabeça ao convite. Ela o segurou pela camisa, deu um beijo rápido na sua boca e disse:

– Eu quero conhecer mais deste cara que você esconde aí dentro. Vai me mostrar quem você realmente é?

– Eu topo! – disse ele sorrindo e de maneira bem mais relaxada. Era como se ela tivesse retirado um peso imenso de seus ombros.

E foram em direções opostas da cidade. Apesar de seus receios, ele sentia que havia chegado a hora de se abrir para o mundo novamente. Precisava tentar. Ela, por sua vez, ficou curiosa ao extremo por conta da dualidade que ele havia demostrado. “Quem seria ele, afinal?”

Passaram o dia pensando um no outro e torcendo para que a noite chegasse logo. Ainda havia muito para se descobrir, muito para se conversar. A vida precisava continuar.

Tudo ou nada

É…

Eu lamento…

Mas não vai dar para te amar do jeito que você quer.

Não dá para ser só nas segundas, quartas e quintas

Muito menos das 14:25 até às 19:52

Podendo esse horário ser estendido

De acordo com as fases da Lua.

Variações de temperatura

Também não podem ser consideradas

Afinal de contas, pensa bem…

O amor é para ser sempre quente.

Amor não é algo que se controla

Não é limitante ou limitado

Amor é entrega:

É tudo ou nada

E quando se tem meio amor

Não se tem nada.

Ferrari

Não se ensina alguém a dirigir em uma Ferrari. De forma análoga, o universo só nos apresenta algo novo e melhor quando estamos preparados para isso. Portanto, é fato que durante nossas vidas, sobretudo na medida em que alcançamos um nível de consciência mais elevado, só conheceremos sensações e sentimentos mais profundos e sublimes depois de gradativas e contínuas experiências, que podem durar dias ou anos. Vai depender do aluno. Vai depender da experiência.

Não há, entretanto, como se falar que o passado não prestou ou não nos serviu. Somos o produto de nossas história, de erros e acertos, que nos levaram a ser o que somos hoje. E se hoje estamos em um nível de consciência mais elevado, é natural que experiências mais adequadas e propícias apareçam.

Dirigir uma Ferrari pode dar medo. É natural. Há muito o que se aprender antes de se ter domínio sobre esta maravilha. Entretanto, como seria se não tivessemos medo? Como seria se nos achassemos completamente aptos a guiar a Ferrari da mesma forma que guiamos um Gol 1000? Sem dúvida alguma, seria o fim da linha. Nos acabaríamos na primeira curva, sendo o carro bom ou não. Estragaríamos uma oportunidade única por não estarmos preparados para ela.

E nessa analogia tosca, por pura falta de alguma idéia melhor, é chave entendermos que o passado, ou seja, nossas experiência anteriores, bem como o medo, tem papel fundamental em nossas vidas. Sem eles, seríamos loucos suicidas. Simples assim.

Que fique claro, entretanto, que nem o nosso passado e nem nosso medo devem ser vistos como limitadores do que podemos e queremos ser. Ter a oportunidade e não aproveita-la é como dizer não para o universo de infinitas possibilidades que se apresenta que se apresenta quando estamos prontos. É como reconhecer que há de fato algo melhor e maior reservado, mas que será sumariamente ignorado, quer seja por capricho, por costume, ou por qualquer outro motivo menos nobre.

Quando a Ferrari aparecer na sua vida, encare-a, sinta-a. Abandone sua zona de conforto. Ela limita por completo a sua capacidade de ser feliz. Não desperdice suas chances.

Se beber, não dirija.

kolaborativa-divulga-medo.png

Deixei a vida me levar

Quando eu era mais novo, por ser muito racional e por todo um histórico familiar que prefiro deixar de fora nesse momento, eu acreditava que a única maneira de ser feliz era controlando tudo. Obviamente, eu não tinha consciência disso, e usava termos alternativos para definir o tal controle. No caso de namoradas, ciúmes. No caso do colégio, perfeccionismo (notas sempre muito altas). E por aí vai…

Acontece que é simplesmente impossível controlar tudo. Não dá! Desde quando é saudável marcar em cima da namorada 24 horas por dia? Desde quando é saudável estudar não pela nota máxima, mas apenas para ter a nota máxima e usá-la como ferramenta de manipulação? “Sabe como é, coordenador… Sou o melhor aluno.”

Na prática, como não é possível controlar tudo, acabamos por criar mecanismos de manipulação dos mais variados tipos. Lidamos com os outros e ao mesmo tempo tentamos anulá-los, de forma que seja inequívoco o poder que exercemos sobre estes. O objetivo é ter e estar SEMPRE no controle.

Bem… Como vocês podem imaginar, a vida acaba ensinando que isso simplesmente não funciona. Pode funcionar no curto prazo, mas com as pessoas ficando mais maduras e espertas, o mundo da manipulação acaba ruindo. Só que você (eu, no caso) é o último a se dar conta disso, e acaba investindo de forma mais pesada ainda em maneiras de controlar o que por natureza é incontrolável: a vida.

O resultado disso? Cansaço, ansiedade, depressão… Uma sensação de impotência incrível que, por bem ou por mal, acaba tirando você (eu) da ilusão de que você é o “Master of Puppets” (sim, referência ao Metallica) e que todos são suas marionetes, cuja única finalidade existencial é satisfazer as suas (minhas) vontades. Cai por terra a ilusão de que outros são objetos secundários, passivos, sem sentimentos, etc.

E aí, dependendo das suas crenças, você acaba procurando caminhos para tentar resolver isso. Livros de autoajuda, psicoterapia, tratamento psiquiátrico, etc. Considero todos estes meios válidos, e acredito que todos podem contribuir de alguma forma. Entretanto, o formalismo da Psicanálise e da Psiquiatria levam vantagem sobre os demais, creio eu. Você não quer cair nas mãos de alguém que escreva um livro dizendo que a única saída para os seus problems é o suicídio, não é mesmo?

E depois de um tempo, você percebe que durante uma vida inteira levou sobre os ombros um peso gigantesco que não precisava levar. A tentativa vã de controle sobre tudo e todos requeria um imenso esforço, ainda que parecesse algo natural, parte da sua vida. E percebe que o que precisa acontecer, de fato acontece. A mulher que tem que ficar na sua vida, fica. Os amigos, idem. Tudo! As tentativas de controle são sumariamente ignoradas pela vida, pelo universo, e apesar do medo que isso possa gerar, não dá para negar as emoções atreladas a essa imprevisibilidade.

A vida como eu a conhecia mudou depois que me dei conta disso. Sofri e sofro quando tenho que sofrer. Sorri e sorrio quando tenho que sorrir. Eu vivo. Eu não controlo. Eu mato no peito o que tiver que vir. E com essa simples mudança, percebi que a vida tinha muito mais para me dar do que eu achava que tinha. É a famosa Lei do Retorno: eu deixo a vida me levar, e a vida me leva (Zeca Pagodinho que o diga). Onde vou parar? Não faço a menor idéia! Entretanto, depois de tomar tanta porrada da vida, descobri que essa é a ÚNICA maneira de viver. Se a vida é infinita em suas possibilidades, é para isso que estou aqui.

Que o universo e a vida conspirem em nosso favor!

a-vida-nao-oferece1