Todo santo dia

Também eu sei falar de coisas tristes,

De tudo de ruim que me aconteceu,

Das dores que me perseguiram inclementes,

Das saudades absurdas que me gelaram o peito,

Das vozes que, delirante, fingi que ouvi,

Das noites em claro e da sensação de quase morte,

Dos fins de tarde que pareciam o fim do mundo,

Do Apocalipse que comia e regurgitava minhas vísceras.

Ninguém por perto.

Medo diserto.

Respirar funesto.

Desenredo decerto.

Até que me dei conta

De que nunca me eximi,

Ou mesmo tentei fugir,

Das catástrofes que a mim –

E em mim –

Cabiam:

Tentar esquecer

Era, pois, a forma mais dissimulada

De me lembrar,

Todo santo dia,

De tudo que ainda me habitava

E de tudo que já me foi tudo um dia.

Invariavelmente

E no final,

O rastilho falhou.

Dizem que foi obra

De Nosso Senhor

E disso eu não duvido.

Nada explodiu,

Ninguém morreu –

Doeu, mas já passou –

Que fim tudo levou?

Eu não sei

E só quando sei

É que digo.

Talvez haja explicação –

Talvez não –

Mas se esta existe,

Não está de bem comigo.

Vou ser mesmo é trovador

E falar por aí do amor,

Daqueles que ninguém

Nunca sentiu

Ou nem mesmo falou,

E que toda noite,

Invariavelmente,

Dorme comigo

E serve-me de abrigo.

Hermético

A arte não pode ser silenciada,

Porque o amor urge e grita,

E a vida,

Tão passageira e efêmera

Quanto parece ser,

Está sempre em chamas.

O que eu nego que me aconteça,

Ainda assim não deixa de me acontecer.

E o que eu sinto –

E que só eu sei que verdadeiramente sinto,

Quer seja por anos ou instantes –

Está além de censura

E de toda e qualquer opinião.

Eu existo.

Parece-me o bastante.

Resta me tudo, então:

Apenas viver.

À mercê do mar

Diga-me, mar,
O que fazer
Com estas ondas de felicidade que me banham,
Que não sei se são pura ressaca
Ou se é assim que agora hão de ser.

Diga-me, mar,
Se do amor já é chegado o tempo,
Para em tuas águas recomeçar
Rumo ao destino por mim desejado,
A mercê do poder e da força dos teus ventos.

Eu te recomendo

Apesar de a gente não ter dado certo, eu te daria uma carta de recomendação sem pensar duas vezes.

Você foi meu sangue e minha alma, meu amor e minha vida, e foi por tanto tempo…

Como não falar bem de uma das melhores coisas que já me aconteceram?

E não, isso não quer dizer que não mais te amo. Pelo contrário. Quer dizer apenas que te quero feliz, feliz como eu sempre te quis, quando você estava do meu lado. Amar não é isso?

Eu te amo de alguma forma. Em algum tempo e em algum espaço ou lugar. Eu não seria quem eu sou sem você. Eu não seria o que eu sou sem o que nós fomos.

Eu te amo. Saiba disso. Lembre-se sempre disso. É uma verdade eterna e inabalável, inquebrável. Você não é algo do qual eu queira me desfazer. Eu me lembro de você. Eu me lembro de nós. Eu me lembro de tudo. Você não é algo que eu queira ou precise esquecer.

Ademais

Quando olho para meu passado
Percebo os momentos exatos
Em que fiz demais
Tentei demais
Falei demais
Demais…

Não mais!

Porque quem eu era
Já não mais sou
Mas ainda sou
E ainda sinto
Sinto muito
Ademais.

Obrigado

Não sei se deveria te agradecer
Por mostrar que minha fé
Meus sonhos
Meus planos
E tudo que há de maior em mim
Faz sentido dentro de ti também

Não sei se deveria te agradecer
Pelas nossas conversas sem fim
Pelos nossos sorrisos esfuziantes
Pelo brilho nos nossos olhos risonhos
Pelos toques abertamente pretensiosos
Que se fizeram sentir até mesmo em nossos corações

Não sei se deveria te agradecer
Por amar e ser amado
Por desejar e ser desejado
Por querer e ser querido
Pelos abraços que damos em nossas almas
Pelo fogo da paixão que esquenta e revigora nossos corpos
Pela total e absoluta entrega, afinal

Não sei se devo te agradecer
Por cada segundo que passamos juntos
Pela deliciosa sensação de estarmos entrelaçados diante do futuro
Por deixar que saibas quem eu sou
Por me deixar saber quem és
Por abrir as cortinas de nossas vidas

E justamente por não saber
Se devo agradecer ou não
Eu agradeço
E de ti nunca me esqueço
Pois tudo parece pouco
Diante da imensidão do que temos vivido

Eu agradeço

Eu agradeço

Na dúvida
Eu agradeço

Pelas certezas que banham nossos corações
Pelo fim dos talvezes e dos porquês
E ainda que seja redundante
Eu agradeço
Pelo direito de sentir e poder dizer que te amo

Eu te amo
E é um privilégio te amar e ser por ti amado.

Sorria-se!

E que dentro você se encontre

Se entenda

Se perceba

Se aceite

Se assuma

Se sinta

Se chore

Se ria

E se seja

 

Há um mundo esperando que você seja

O que nasceu para ser

Há um mundo esperando pelo seu sorriso

 

Sorria!

Dance, cante, ria…

E faça isso por você

Pois você não está sendo filmado.

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Absortos ou loucos

Já não há mais dúvida

E tenho medo da certeza:

Não quero só tua beleza

Quero-te toda, na cama e no chão

Se nem eu mesmo sei explicar

Como podes insinuar

Que na complexidade do meu pensar

Não sei o que de fato sinto?

Rasgas meu coração quando duvidas

Do que é tão óbvio e certeiro

O que tenho de mais verdadeiro

E que carrego sempre comigo

Escarras no nosso amor

Como se este fosse uma calçada qualquer

Somos homem e mulher – sabes disso!

E é prudente que nenhum de nós se pise

Impávido e colossal amor

Incêndio que nunca se extingue

Que o destino de nós não se vingue

Por sermos tão absortos… Ou loucos.

loucura