Succubus

Eu olho para o céu e vejo
No infinito a minha finitude
Perplexidade diante de coisas tão pequenas
Fraqueza, apesar de plena e total saúde.

Nas sombras eu me escondo aturdido
Quero ver o Sol, mas não quero luz
Cruel e real tua atordoante presença
Que mesmo sem ter cor, muito seduz.

Desejar-te é desafiar todas as barreiras
Vencer o tempo, fugir da cruz
Animalizado instinto, puro sentimento
Revelar meu carrasco, sem tirar seu capuz.

Deixar o fogo queimar a carne
Deixar a alma arder em torpor
Trocar o certo pelo incerto atraente
Trocar o vazio pelo anseio, impávido pavor.

Sucubus real, tangível e sedutor
Filha das trevas, suga o sangue de minhas feridas
Cospe em minha face, sem nenhum valor
Prossegue caminhando para sempre sem vida.

Eu olho para o céu e vejo
Fragmentos de mim, totalidade do teu ser
És agora mais forte que antes
Êxtase alucinante, não me perdoo por te querer.

E depois me calo,
O silêncio tem mais à dizer
Fria pele, passa-me teu calor
Já estou morto, muito antes de morrer.

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Anagnórise – Inferno

Parte III

 

E quando parecia derrotada

Eis que se levanta a razão:

“Tenho total e absoluto controle

Chores, pobre apaixonado!

Chores na solidão!”

 

E em rios de lágrimas

Afogou-se a alma

Do homem de fé

Suas vísceras foram rasgadas

Suas crenças dilaceradas

E seus sonhos…

Natureza morta

Vida torta

Fecharam-se as portas

Nunca mais iria sorrir!

 

E no seu quarto

Demônios de todos os tipos

Dançaram em ritmos alucinantes

Riram a todo instante

Gargalharam

Zombaram

Fazendo-o ganir!

 

Dor, um oceano de dor!

Lágrimas ácidas

Suor putrefato

Enxofre

Miséria

Não esperava por tal ato

Sentia-se dominado

Subjugado

Humilhado

De homem apaixonado

À sobras de um coitado!

 

Onde estaria Deus?

De que valia a tal fé?

Será que fazia

Sem saber

Preces para o diabo?

Não, ele não podia

Estar enganado

Mesmo assim

Arrasou-se o homem de fé

Virou poeira

Pó de estrada

 

“Por que este succubus

Meu Deus!

O que fiz de tão errado?”

E sem resposta

Sentiu-se apunhalado

Lembrou-se de Dante

Mas sem forças

Hesitante

“Onde está Virgilio?

Se estou no inferno

Quero daqui sair!

E se ela não é minha Beatrice

O que de fato

Estou fazendo por aqui?”

 

E sem repostas

Não dormiu

Não comeu

Esmoreceu

Padeceu

Pereceu

E deixou-se morrer

E no seu sonho de morte

Foi acordado por um anjo

Que com clareza lhe disse:

“Homem de pouca fé

Levanta-te!

Estás brincando com tua

Sorte?

Se estás no inferno

Agiganta-te!

De que adiantam palavras

Se quando tua fé é testada

Pareces uma criança?

Na razão jaz tua

Esperança.”

 

E assim ele fez

Levantou-se ferido

E os demônios assustados

Fugiram aflitos

E com o peito aberto

E o coração nas mãos

Com sangue jorrando

Aos borbotões

Resiliente, disse:

“Coração, perdoa-me!

Fui fraco na fé

Querer qualquer um quer

Mas não só eu quero

Deus também quer

Enviou-me até

Um anjo!”

 

E tomado por uma miríade

De luzes de todas as cores

Aceitou sua cruz

E seu ofício

Sacrifício

Na certeza de quem tem fé

Pela fé vive e alcança

“Aquiete-se, razão!

Não sou teu inimigo

Sou teu aliado

Estamos eternamento

Do mesmo lado!”

 

E com a fé testada

De joelhos agradeceu

Pela prova

Que Deus lhe deu

Pois para as maiores conquistas

É preciso estar apto

Lutar contra as incertezas

E reconhecendo suas fraquezas

Transcender

E mesmo sem ainda ter

Alcançado a vitória

Vencer.

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