Não vou passar

A tempestade vai passar

 

Eu não

 

Não sou passageiro

Não sou

E não vim

De passagem

 

Sou atemporal

O infinito

No infinitivo

 

E ante o rugido

E o clarão dos trovões

Dou passagem

 

E é nesse ponto que a vida se engana:

Quando acredita que me conjuga.

Deliberadamente

Sou um náufrago

Tu és meu mar

Estou a tua inteira mercê

Que tudo decidas para onde me levar

 

Seja longe ou perto

O destino já é incerto

Sobreviver já seria muito

Viver, então, algo fortuito

 

Não me resta mais nem esperança

Esta é sempre  a primeira que morre

Peço que sejas amável, porém

Enquanto sangue dentro de mim ainda corre

 

Mas estarei feliz

Se dessa vida eu me for

Partirei deliberadamente afogado

Inundado pelo teu amor.

mulher nua chuva

Sincronicidade

Eu estive nas entranhas do seu corpo

Quis o destino que nossos sonhos

De carne e osso

Se materializassem

E criassem esse grande colosso

 

Do que falo?

Repare no seu corpo enquanto falo

Repare no meu corpo enquanto falo

Não é controlável

Não é domável

É selvageria de dar gosto

 

Como é quando se lembra de mim

E não estou por perto?

Eu sei… Parece loucura

Mas essa sincronicidade

Sem limites

É brutalmente real

Como dentro, assim fora

Assim aflora

Ora lógica difusa

Ora lógica nítida

Ora réu que a todos acusa

 

No lugar de nossos arquétipos

Desejos e sonhos reais

Manifestação de seres racionais

Que descobriram que o descoberto

Não era suficiente, pelo contrário

Os deixava inquietos, boquiabertos

Deliciosamente incertos

Na busca do que transcende ao eu

E os sublima em nós

Quando estamos a sós

Diante de nós mesmos

 

Quem é o comandante desta nau?

Entenda… Não há comando

Esse é o desafio

Estamos à mercê do vento

Eufemismo dos nossos pensamentos

Que se revelam em segredo

Quer seja no início do dia

Quer seja no meio da noite

Sabemos como desenrola-se tal enredo

 

Inapropriadamente perfeitos

Inadvertidamente direitos

Pura e perfeita confissão

Somos tempestade, raio e trovão

Desejo, amor e paixão

Existimos somente na nossa sanidade

Que faz questão absoluta de emergir

Para nos mostrar que nunca

Absolutamente nunca

É tarde para existir.

sincronicidade

Bonança?

Depois da tempestade

A bonança…

E isso não necessariamente

É motivo de comemoração:

Pode ser apenas

O olho do furacão.*

*Região central de uma forte tempestade tropical, na qual, no entanto, persiste tempo calmo, podendo-se mesmo avistar céu limpo; como figura de linguagem, deve designar um ponto de calma e tranquilidade em meio à confusão, à pressa ou tensão ; contudo, a expressão é frequentemente utilizada, de forma errônea, com sentido inverso; (exemplo de uso incorreto: “o soldado em combate vive no olho do furacão”)
800px-Ike_sept_12_2008_2045Z

Enfrentei este da foto, o Ike, em 2008, enquanto morava no Texas.

 

Anagnórise – Face a Face

Parte I

 

Politomia: palavras, sentimentos, indagações

Pilares de sustentação do porvir

 

No vôo torto daqueles

Que querem

Que desejam

Que perguntam

Que questionam…

 

Buscam-se

Acham-se

Perdem-se

Encontram-se

Tocam-se

Devoram-se

Repelem-se

Atraem-se

Riem

Choram

Lamentam

Contemplam

É chegado o derradeiro

Momento

 

Não há fuga possível

Não há clemência

Não há coup de grâce

Há confronto

Há enfrentamento

Há tempestade

Há tormento!

 

Tudo acontece tão rápido

Ao ponto do futuro

Já ter se passado

As palavras

Os sentimentos

As indgações

Inundam

Fervilham

Borbulham

E aumentam!

 

São muitas

Todas as coisas

São brutas

Precisam de luz

Feito mariposas

E rodopiam

Pois eis que não havia

Plano de vôo algum!

 

Os cheiros

Os gostos

A textura

O calor

O suor –

DESEJOS –

Tudo desesperador!

Tudo queima!

Tudo tem rubor!

 

Tortura

Comichão

Sem nenhum pudor

A culpa

A desculpa

Longa metragem

Insuportável terror!

 

E nessa politomia

De vidas nada vazias

Chega o sono…

E vai-se logo em seguida

Medo da noite

Brutal açoite

Nenhuma alforria!

 

O teto não fornece respostas

E nem mesmo poesias

Logo logo chegam

Os primeiros sinais do dia

Que iluminam

A cama vazia

Abarrotada de

100 milhões

De tons cinzentos

Sem nenhuma anestesia.

casaval1

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