Análise: a priori vs a posteriori

O mundo seria melhor se as pessoas soubessem que a análise a priori e a posteriori são dois bichos completamente diferentes.

Exemplo prático

Análise a priori
Jogador de futebol, ao bater um escanteio, decide que o melhor é cruzar a bola no primeiro pau.

Analise a posteriori
O mesmo jogador, revendo o replay várias vezes por diversas câmeras, se dá conta que melhor teria sido cruzar a bola no segundo pau, pois havia um jogador completamente desmarcado.

A análise a posteriori vai mostrar erros, acertos e consequências de uma determinada decisão após a passagem do tempo. Tende a ser precisa, cirúrgica. A análise a priori para a tomada de decisões, ao contrário, toma como base as melhores informações disponíveis até momento que antecede a decisão. Dada a sua natureza, é por definição incerta e com consequências imprevisíveis, tanto no sentido positivo como no negativo. É uma espécie de aposta.

Para simplificar ao extremo: a diferença entre as duas é o tempo. Usando o exemplo, o jogador não vai poder voltar no tempo, mas é bem possivel que tire dessa análise importante lição para o futuro.

O depois é feito de agoras

Há dias em que a manhã parece chegar cedo demais. Há dias em que a noite parece chegar tarde demais. Há momentos que eu não quero que acabem, e que são eternidades que não duram mais do que alguns poucos segundos. Há momentos que parecem durar para sempre, e que eu gostaria que se fossem em um piscar de olhos.

Do alto dos cumes, muitas vezes sem perceber, preparei a minha queda. Da profundeza dos vales, muitas vezes sem perceber, preparei a minha ascensão. Curiosamente, já confundi cumes com vales, vales com cumes, e só me dei conta disso no depois. Depois, tudo ficou claro. Depois, tudo fez sentido. Depois, só depois.

Hoje, quero trazer o depois para o durante, para o agora. Quero entender que há vales e cumes, cumes e vales, mesmo sem saber ao certo o que são, e vivê-los como se não houvesse um depois. Como se só houvesse o agora.

Dei-me conta que não faz sentido dizer que serei isso ou aquilo depois. Depois da promoção, depois da minha filha se formar, depois de eu amar de novo. Não. O agora já é o depois de algum outro agora, de um agora que ficou para depois. Cume ou vale, vale ou cume. Agora é agora. Tanto faz.

Quando olhei para minha vida e a despi sem pudores, me dei conta dos muitos agoras que desperdicei esperando por algum depois. Não quero mais isso. Tudo que tenho é o agora e não vou deixar nada para depois. Nada.

O tempo é uma ilusão: é infinito, algo que eu não sou.

Em boa companhia

Ao andar sozinho

Percebi detalhes do caminho

Fui capaz de ouvir meus passos

Observar minha respiração

E o ritmo do meu coração:

Eu me senti

 

Ao andar sozinho

Passei por flores e espinhos

Becos, avenidas e praças

Do chão batido ao asfalto

Do sapê ao concreto, do aço à lata:

Eu senti o mundo

 

Ao andar sozinho

Provei todas as cores e temperos

Beijos e abraços intensos, insossos e acesos

Camas desarrumadas e fartura sobre as mesas

Tudo passageiro com retrogosto definitivo:

Eu senti o passar do tempo

 

Ao andar sozinho

Nada controlei ou antecipei

Nada esperei e muito recebi

E com o peito inundado pela esperança

Tornei-me da minha vida autor e protagonista:

Eu me reconheci.

Eu rumo

Hoje, reparei nas nuvens

Há tempos não fazia isso

Céu azul de inverno

Nuvens como se fossem de algodão

Sendo levadas pelo vento

 

Deixou-me curioso a sua leveza

Enquanto nuvem, à mercê do vento

Indo como se soubesse a direção

Ignorando sua própria existência

Seu motivo e razão

 

Nuvens claras nos dias de sol

Escuras nos dias de chuva

Livres

Felizes

Indo para não se sabe onde

 

E pensei que eu também gostaria de ser nuvem

Eu queria ir…

Ir…

Mundo afora, sem porque ou motivação

Descobrir aonde o vento faz a curva

E ser insubstancial, nada urgente

No inverno e também no verão

 

Mas há quem nasça para ser nuvem

E há quem nasça para ser vento

 

Eu sou vento!

 

Da brisa suave

Até qualquer grande tormenta

Eu carrego

Eu levo

Eu movo e removo

Eu faço o que tiver que ser feito

Eu simplesmente não me contento.

Diálogo com Deus

– Então, Senhor… Aqui estou eu, novamente, pedindo por…
– Eu sei pelo que está pedindo. E está pedindo há tempos!
– O Senhor fala comigo?
– Sempre. O problema é que, na maioria das vezes, você não me escuta.
– Como assim?
– Você pediu, rezou, implorou, se ajoelhou… Eu vi isso tudo. Cada palavra. Cada gesto. Cada intenção.
– E ainda assim eu não consegui o que queria…
– Você acha que eu sou uma espécie de restaurante “self service”, onde você pode pegar o que quer e ignorar o que não lhe apetece?
– Não é isso, Senhor… É que…
– Eu sei o que você quer. Esqueceu que eu sou onisciente? Também sou onipresente e onipotente. Espero que se lembre de tudo que leu e ouviu a meu respeito…
– Eu sei, eu sei, mas…
– Mas você está achando que é Deus! E não… Deus sou eu! E sou seu único Deus! Seu salvador! Sei que você acredita nisso!
– Sim, Senhor… Eu creio!
– Então, pare de fingir que é Deus!
– Como assim???
– Eu sei de tudo, meu filho. De tudo. E quero fazer umas perguntas… São perguntas retóricas, para deixar bem claro. Só que você está empacado feito uma mula e resolvi ajudar de forma mais direta.
– Ajude-me, então, Senhor! Diga-me o que fazer para conseguir que…
– Chega dessa ladainha! Eu disse que sei de tudo! Onde está a sua fé?
– Está aqui, nessa nossa conversa…
– E não está nas suas atitudes e nos seus pensamentos? Não está na sua maneira de olhar o futuro? Que fé é essa?
– …
– O que você gostaria de ter, de viver, vem do fundo do seu coração?
– Sim, Senhor, e eu sei que o Senhor sabe disso.
– Você fez tudo que estava a seu alcance para conseguir o que queria?
– Fiz sim… Na verdade, acho que tentei fazer até o impossível… Talvez mais do que eu deveria ter feito…
– Entendeu o problema?
– Não… O Senhor poderia elaborar um pouco mais?
– Eu estive contigo em TODA a sua jornada. Em cada passo, em todos os momentos. Eu conheço seu coração. Sei que há verdade e bondade no seu pedido, mas eu, como seu Deus, tenho o direito de nega-lo ou oferece-lo no momento em que EU julgar oportuno. Entendeu agora? Lembra do que falei sobre “self service”?
– …
– Eu ouvi conversas que você não ouviu! Eu vi coisas que você não viu! Eu conheço inimigos que você não conhece! Eu sei de coisas que você não sabe! Por que eu, como SEU PAI, daria a você, MEU FILHO, menos do que merece ou precisa?
– Mas, Pai… Eu preciso disso! Eu mereço isso!
– Você precisa de tudo que vier em meu nome e no tempo que EU achar adequado. Eu sou o senhor do seu destino. Eu sou a verdade e a vida. Há batalhas que só eu posso travar por você. Há portas que só eu posso abrir por você. E eu sei o que é melhor para você! Por que é tão difícil aceitar isso?
– Mas…
– Chega de mas! Chega! Você fez a sua parte e eu sei disso. Será que não percebe que é isso o que realmente importa? Chegou o momento de você descansar…
– Morrer?
– Vida eterna, se esqueceu? Mas nem é disso que estou falando. Você fez o plantio… É chegado o momento da colheita.
– Quer dizer que eu vou conseguir que…
– Não ponha palavras na minha boca! Eu disse que é chegado o momento da colheita.
– …
– Você não sabe o que é melhor para você. Eu sei! Descanse sabendo que seu Deus ouviu as suas preces! Mas eu não vou te dar o que você me pediu… Eu vou dar MUITO MAIS do que me pediu! Só espero que esteja pronto para receber o que vou dar…
– Como assim?
– Estou preparando você há tempos! Não se deu conta disso? Que tipo de pai deixa seu filho sofrer se não for por um bom motivo?
– Me preparar?
– Como você pode reconhecer a luz se nunca viu a escuridão? Eu quero que, no futuro, lembre-se dos seus dias de luta com muito orgulho, porque não há NADA que aconteça em sua vida que não esteja nos MEUS planos. Você é uma OBRA DE DEUS! Levante a sua cabeça! Olhe para o futuro! Não olhe para o passado que não é para lá que você vai! O que tiver que ser, será!
– Não adianta discutir com o Senhor, né?
– Não.
– Pois bem… Mas será que…
– CHEGA!!!
– Ok. Que assim seja!
– Até que enfim!

Tempo, tempo, tempo…

Que tempo é questão de opção

Isso não se discute

E se digo que para certas coisas há tempo –

Digo para estas coisas sim! –

E se digo que para outras coisas não há tempo –

Digo para estas coisas não!

 

Não há meio termo

E é importante esta questão:

Sem se falar abertamente

Diz-se muito

Emite-se uma certidão

 

E dando tempo ao tempo

Descobrem-se todas as verdades

Observando-se o todo

Evidenciam-se as obviedades

 

Tempo, tempo, tempo

De prisão ou liberdade

Que segue sempre em frente

Alheio à toda e qualquer vaidade

 

Tempo, tempo, tempo

De indiferença ou reciprocidade

Tempo que leva e tempo que traz

Gélido esquecimento ou torrencial saudade.

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Há dias

Há dias em que o vento

Carrega o seu perfume

E recarrega minhas memórias

Como se isso fosse preciso

Há dias em que parece que foi ontem

E que tudo não passou de um sonho

Ruim – eu sei!

Mas nada além de um sonho

Há dias em que o café não desce

Em que a garganta meio que se fecha

E que dentro do peito retumba

Um coração ofegante

Há dias em que tudo lembra

Onde nada se acaba

Onde se sente a presença

Como se a ausência não fosse nada

Há dias em que se planeja

O que se planejou um dia

E que parece ter acontecido

Tamanha a euforia

Há dias em que o Sol nasce

Para que a Lua declame

Toda palavra que já foi dita

E que ecoa eterna no tempo

Há dias também bem comuns

E é justamente nesses dias

Que a rotina nem mesmo disfarça

Tudo que havia em comum

Há dias

E sempre

Haverá dias

Porque todos os dias

É dos dias apenas mais um.

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