Carestia

Não mereces o meu tédio,
Mas minhas melhores notícias,
Que abundam todos os dias
Que anseio por estar contigo.

Não és uma opção ou uma fuga
Dos dias turvos,
Da confusão mental,
Da fumaça dos carros,
Da empáfia dos covardes,
Da verborragia dos trastes.

És uma escolha,
A visceral,
A única.

E por seres única,
Fato é que não tenho opção:
Ou entrego-me pela razão,
Ou pelos horrores de sentir
As dores da tua carestia.

Conjugados

Há um poema
Entre tuas pernas
Que foi escrito
Com minha língua

Há um poema
Em tua face
Que foi escrito
Com tua caligrafia

Há partes que não cabem
Há partes que não entram
Cheiros e gostos rimados
Por fora e por dentro

Nestes saraus devassos
Nossa história escrevemos
Lirismo que não se cala
Que ou grita ou está gemendo.

Porto seguro

Por que voas, borboleta,
Se ao final
Sei que repousarás
Em meu peito?

É porque meu voo, meu amado,
Aquece a tua alma
E este fogo
Incendeia o nosso leito.

Voa, borboleta…
Voa…
E ao final
Repousa em meu peito.

Aquieta-te, meu amado!
Não há pouso
Ou lugar seguro
Que não seja o nosso leito.

Entre elas

As pernas dela
Sempre cruzadas
Pura classe
Doce elegância
Que não respeito
Em pensamentos
Em momentos

Vejo me ali
Nas pernas
Entre elas
Percebido
Acolhido
Recebido
Molhado
Vivo

As palavras
Soam como fogo
As reticências
Me torturam
Já não sei
E por isso aceito
A falta do leito
Dos doces peitos
Das pernas
Dela
Só ela

Quem me dera
Fossem só as pernas
Quem me dera
Escutar entre elas
O que há de ser de nós
E ouvir a resposta
A mesa posta
O afinal

Lambuze-me.

Questão de sobrevivência

Nossas taças de vinho
No frio do inverno,
Nossos corpos nus queimando
Feito mil sóis no verão.

O beijo na boca,
A prisão entre as coxas,
O ritmado ir e vir,
O descompassar do coração.

Lençóis ensopados,
Desejos e impropérios,
Lascívia escancarada,
Peças de roupa pelo chão.

A tontura repetida do gozo,
A entrega sem mistérios,
A respiração ofegante,
Nossos fluidos em ebulição.

Se foi esse o dia mais frio do inverno,
Me diga,
Como sobreviveremos ao verão?

Soberana

Ela não pediu minha permissão
Só segurou na minha mão
E me fez olhar para frente

Não me pediu explicação
Sem nenhum porém ou senão
Acalentou minha alma descrente

Não tocou meu corpo em vão
Fez novamente bater meu coração
Disse-me tudo que realmente sente

Invadiu-me a felicidade do seu condão
Mostrou-me que nada foi em vão
E que tudo pode um homem valente

Homem
Ela me teve como homem
E ela em mim se fez mulher
Do tipo que sabe o que quer.

Quero com você me despir

Há noites em que você me chama

E o fogo que arde em seu corpo

Em sua cama

Queira você ou não

Chega até mim

 

Já respiramos um dentro do outro

Não há limites

Nada de esquisitices

Amor visceral

Que de nós flui

E que nos faz sorrir

E outras coisas mais

 

Confesso que sinto sua falta

Do seu perfume

Do seu hálito com alucinante

De todos os nossos cheiros

De todos os nossos gostos

Que valem mais que diamantes

Que fluem –

E como fluem! –

E nos afogam

Morremos em nossos braços

Por alguns instantes.

 

Aliás, você não é mais uma

E por mais tenham existido algumas –

Meu passado eu não renego –

Você é e desde sempre foi

A única de qual não quero

Jamais me despedir

 

No máximo –

Que fique perfeitamente claro –

Quero com você me despir.

tesao